quinta-feira, 31 de maio de 2012

Viciados em mediocridade...


Você não está no blog errado. O título do post é esse mesmo.

Depois de um texto mais lúdico, no qual fiz referências a cidades ideais e reinos imaginários (como Pasárgada, Nárnia e Atlântida) como figuras do céu e da eternidade [embora tenha também ressaltado a questão da tolice do homem em querer ser seu próprio Deus], minha intenção neste post é ser mais ácido, áspero, sem meias palavras mesmo. Já que não pretendo me candidatar a prefeito da minha cidade (esse ano é ano eleitoral nos municípios do Brasil), não tenho que estar preocupado com a retaliação e a impopularidade que deverão me seguir depois deste texto. Não é pressão psicológica; você ainda pode sair deste blog, antes de começar a se revoltar contra mim ao ler o que está por vir. Eu não estou brincando.


Mediocridade. Tenho pensado nessa palavra há um bom tempo e, depois de um período de reflexão, cheguei à seguinte conclusão: eu, você, nossos pais, nossos familiares, os colegas da escola, da faculdade e até as pessoas da igreja [infelizmente, acho que principalmente essas últimas] somos viciados em mediocridade. Todos são. TODOS. Nós amamos ser medíocres e nos orgulhamos de nossa própria mediocridade (o que é ainda mais medíocre). Curiosamente e enganosamente, a mediocridade nos dá prazer, sensação de plenitude, de superioridade e de retribuição diante dos outros por aquilo que, supostamente, fizeram contra nós. Porém, como todos são medíocres, todos constituímos um ciclo vicioso de mediocridade – no qual os nossos defeitos e mazelas de caráter se manifestam em toda a sua força e, como resultado, transmitimos uns aos outros a contaminação e a amargura que permeia as nossas mentes e corações. Sinceramente, nada é mais venenoso e maléfico (pelo menos, do ponto de vista das relações humanas) do que a mediocridade. Entretanto, nós somos os peçonhentos da história. Ainda dá tempo de você desistir de ler o texto até o final. Sério.

A mediocridade está em toda parte. Nas discussões repugnantes das CPIs (ou na falta de discussão, já que os criminosos estão preferindo ficar calados ultimamente) e nos programas de TV do domingo, nas brigas de torcidas organizadas por causa de algo que deveria trazer diversão e nas reclamações por causa da pia cheia de pratos e talheres sujos [na verdade, você deixa a pia limpa e ouve reclamações e, se não faz, ouve do mesmo jeito!], nas disputas por herança de família e no complexo de superioridade moral tão comum entre os religiosos. A mediocridade nos acompanha ao longo do quarteirão e, na próxima esquina, ela estará nos esperando. Por outro lado, os outros são seguidos por ela na medida em que também andamos e, quando eles nos encontram na esquina da rua seguinte, lá está ela. “Mediocridade. Mediocridade” - sejamos ateus ou hinduístas, racionalistas ou panteístas, cristãos ou budistas, esse é o nosso mantra de cada dia. Mediocridade – essa é a nossa palavra de ordem. Mediocridade – esse é o lema natural da vida humana. Mediocridade.


Mas, o que é mediocridade?

Sem me prender ao dicionário, poderia definir mediocridade como “aquilo que é negativamente mediano, banal, trivial, desprezível etc.”. Logo, ser medíocre é ser médio, é ser como os demais, é não ter diferencial, é ser descartável – ora, se algo é descartável, ele serve apenas por um breve momento e, depois de usado, é jogado no lixo. Os medíocres são dignos do mesmo destino; desse modo eu, por mim mesmo, sou igualmente descartável e sem qualquer importância. Mas você também é. Os seus ídolos também são. Os seus maiores referenciais também. Todos nós somos, por nós mesmos, descartáveis. Por outro lado, se você conseguiu chegar até esse ponto do texto, você é um leitor sobrevivente, visto que conseguiu ler um monte de palavras “medíocres” escritas por um blogueiro ainda mais “medíocre”. Nada mais, nada menos.

Em contrapartida...

Por que “dar importância” a essas palavras medíocres? Será que é possível tirar algum proveito disso tudo? 

Talvez.

Pois, sempre que penso em mediocridade, me lembro de uma história narrada no evangelho segundo Lucas, a qual está relatada abaixo:

“Jesus disse também essa parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros:
Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu, e o outro publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças Te dou, por que não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador! Digo-lhes que este foi justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exaltar, será humilhado e, qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado”. (Lucas 18:9-14)


O fariseu dessa história é um exemplo-mor de mediocridade, pois ele olhava para o mundo ao seu redor e se julgava superior a todos e, para ratificar sua mediocridade, ele tentava fazer seu “pé-de-meia moral” diante de Deus, como se Ele fosse manipulável por homens - mas a nossa realidade religiosa atual não é diferente. Nós também, quase sempre, confiamos em nós mesmos, nos justificamos conforme nossos próprios padrões e desprezamos os outros - ora, os outros são mundanos, pervertidos, pecadores que matam, roubam, bebem, fumam, vão à balada, usam tatuagem, gostam de “heavy metal” e não usam roupas decentes e nós, por outro lado, somos santos, usamos vestes recatadas, não fumamos, nem bebemos, vamos todo domingo à igreja, não ouvimos “música do mundo” nem mesmo “rock gospel” e seguimos as tradições de nossa denominação. Vestimo-nos de nosso personagem a cada ida à igreja e, quando voltamos pra casa, voltamos a ser quem somos. Assim como os fariseus, temos nossos momentos de sepulcros caiados – mas, se agora nos lembrarmos do que a Bíblia diz, saberemos exatamente qual é a mensagem de Jesus a esse respeito (vide Mateus 23).


Em tudo isso, o mais medíocre, em minha opinião, é o pensamento comum no meio religioso (particularmente cristão) de que Deus se agrada primordialmente naquilo que intencionamos fazer para Ele, visto que acreditamos que, se intencionarmos fazer qualquer coisa para a glória de Deus, essa atitude automaticamente glorificará a Deus e, consequentemente, Ele se agradará de nossa conduta. Embora eu acredite, sem qualquer sombra de dúvida, de que tudo que eu faço (seja comer, beber, ver um filme, jogar futebol, estudar química orgânica, ouvir blues, conversar sobre filosofia, namorar, viajar para outro país ou outra coisa qualquer) pode e deve ser feito para a glória de Deus – ver 1 Coríntios 10:31 -, não faz o menor sentido dizer que a glória de Deus está subordinada às minhas intenções. Como já escrevi em outro texto, a glória de Deus deve determinar o que eu devo intencionar fazer ou não fazer, e não o inverso. Porém, os medíocres (como eu) pensam que podem encaixotar Deus por se julgarem bons, justos, mais íntegros e “mais santos” do que os demais. Com o perdão da gíria, nós somos realmente muito idiotas, na moral!


Entretanto, na contramão da mediocridade surge o publicano, o qual, por um lado, também era medíocre (ele mesmo se vê como pecador) mas, por outro, ele tem a atitude correta: ELE RECONHECEU QUE ERA MEDÍOCRE. Mais do que isso: o reconhecimento por parte dele foi tal que ele se julgava indigno de olhar para o céu – o que pode ser considerado, em sentido conotativo, como uma atitude de temor sincero de Deus e humilhação – e, por ver a sua situação de real desespero, batia no peito e clamava por compaixão [diferente de nós, que batemos no peito inflados de orgulho e autossuficiência]. Ele grita para Deus: “Tem misericórdia de mim, que sou pecador!” [Lucas 18, vs. 13] e, de um modo sublime e inspirador, Jesus diz que este homem foi justificado para sua casa (enquanto o fariseu continuou injusto diante de Deus) porque “...todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado e todo aquele que se humilhar será exaltado...” [Lucas 18, vs. 14]. Que lindo! Os humildes são exaltados, os que se vêem como nada são cobertos de dignidade, os que reconhecem que são totalmente injustos por si mesmos são declarados justos. Como diz certa música: “...isso é a Graça e nada posso fazer...”. Nada, nem mais nem menos. Ele fez tudo que devia ser feito - Romanos 3:23-28.


Finalmente, a melhor forma de encerrar esse texto é citar uma linda música, na qual o poeta reconhece sua própria mediocridade e diz:

“Eu canto pra Ti... Sei onde estou... Olhando pra mim posso saber que nada sou... Eu grito pra Ti, ó Deus, vem me socorrer... Olhando pra mim posso saber que nada posso fazer...”

Exatamente isso.



Pela consciência de minha mediocridade e de Sua sublimidade,



Soli Deo Gloria! 

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