domingo, 30 de outubro de 2016

[Ante et in] et "Post Tenebras, Lux"

Mais um mês se passou [ou está se concluindo] e já é hora de escrever novamente. 

Inicialmente, acredito que tenho sido um pouco mais amigável do que o convencional em meus últimos textos - no entanto, agora, pretendo fazer diferente. De fato, quando percebo que estou sendo "doce demais", algo está errado... Portanto, parafraseando Santo Agostinho, meu pedido de hoje é: "dá-me serenidade, mas agora não"

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O texto de hoje, como já é o costume neste blog, traz como background o aniversário de 499 anos da Reforma Protestante, comemorado neste dia 31 de outubro de 2016 [embora o Halloween seja mais popularmente "celebrado" em nossa sociedade há algum tempo nesta mesma data]. Nesse sentido, quero trazer como fundamento do que pretendo abordar a frase presente no altar da Cathédrale de Saint-Pierre em Genève/Genebra, na Suíça, na época em que João Calvino [considerado o maior teólogo e mentor da Reforma] exerceu seu ministério pastoral, a qual diz:

POST TENEBRAS LUX! [ou, em bom português, "Após as trevas, Luz!"].

Em primeiro lugar, vale delinear os significados práticos de "trevas" e de "luz", de modo que pode-se definir "trevas" como sinônimo de "escuridão", "obscuridade" ou mesmo "cegueira" e, por outro lado, pode-se dizer que "luz" é algo relativo a "claridade", "esplendor", "visão" e "beleza", uma vez que o sábio antigo já dizia que "...verdadeiramente suave é a luz, e agradável é aos olhos ver o sol..." [Eclesiastes 11, vs. 7]. Contudo, o significado atribuído [provavelmente por João Calvino] a "trevas" e a "luz" na frase "POST TENEBRAS LUX" não diz respeito a algo material ou natural apenas, mas sobretudo espiritual - na verdade, a frase expressa a natureza do que foi a Reforma Protestante, um movimento que, pelo resgate da majestade e da suficiência da Bíblia como revelação divina ao mundo e aos homens, mudou a face da Europa radicalmente, criou nações para além do Velho Continente, transformou outras na própria Europa e [digam o que disserem] que possui um honorável legado que até hoje perdura em nosso "mundo ocidental"

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Nesse sentido, gostaria de fazer um breve parêntese: estou totalmente ciente de que, de maneira indubitável, Deus não ficou "em silêncio" e "sem fazer nada" na história do povo cristão durante esses 15 séculos que precederam a Reforma em si, pois Jesus disse que "...Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" [João 5, vs. 17] - ou seja, nem tudo era "trevas". Ora, muitas das doutrinas mais importantes da fé cristã [como a Trindade, a Deidade de Cristo, a Divindade do Espírito Santo, dentre outras] foram ratificadas na época da Patrística mediante alguns concílios [Éfeso, Calcedônia etc.] e credos [Apostólico, Niceno etc.] fundamentais para o Cristianismo, bem como diversas das características que tornam a Civilização Ocidental a mais livre, benéfica, admirável e justa das civilizações humanas [como a criação das escolas e universidades na época da Escolástica, além dos hospitais e orfanatos, a preservação das obras clássicas nos monastérios, a arte gótica e bizantina, a noção da dignidade do indivíduo e o respeito ao próximo, o direito de propriedade privada etc.] - "s'il vous plaît", não me venha com aquele papo progressista/multicultiralista/marxista cultural de que "todas as culturas são igualmente boas e belas" e de que "todas as civilizações são igualmente justas à sua maneira"; não seja estúpido nem idiota - foram conquistas obtidas antes da ocorrência da Reforma no começo do século XVI. 

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Porém, em contrapartida, não há como negar [a não ser que você também seja tão cretino quanto os progressistas supracitados, embora sob a máscara da "verdadeira religião"] que muito do cristianismo anterior à Reforma [com suas exceções notáveis, é claro - como não admirar Agostinho de Hipona e sua "Teologia da Graça Soberana", Anselmo de Cantuária e sua "Inteligência Humilhada", Tomás de Aquino e sua "argumentação de Deus como 'causa primária não-causada'" ou Tomás de Kempis e sua encantadora devoção a Cristo?] foi somente "trevas" - trevas segundo as quais a salvação podia ser comprada com documentos e "moedas tilintando no cofre, para que as almas saíssem do purgatório" [purgatório, em que Bíblia está escrito isso?], nas quais a Bíblia era uma "patente do clero" e totalmente ocultada do povo [uma tática clara de manipulação intelectual e espiritual que tem efeitos nefastos até hoje] e heresias incontáveis [a exemplo do próprio purgatório, da transubstanciação - a hóstia e o cálice se transformam a cada eucaristia no corpo e sangue literais de Cristo... o que fizeram com João 6? -, da infalibilidade do Papa ou "sucessor do apóstolo Pedro" (sério mesmo?) ou mesmo da equivalência de autoridade entre a Bíblia e a "santa tradição da Igreja" (não sabia que eu podia inventar dogmas e dizer que foi Deus quem me revelou!) etc.] que não cabem no espaço deste post. Eu posso não ser um "intelectual, professor, filósofo, jornalista, escritor de vários livros, restaurador da alta cultura de meu pais ou qualquer coisa parecida", mas defenderei o que disse nas próximas linhas, fazendo minhas as palavras de Lutero [o odiado!]: "...a não ser que seja convencido pelo testemunho das Escrituras, não me retratarei..."

ANTES, AS TREVAS.

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Neste sentido, não quero falar sobre o que eu não sei, mas posso mencionar alguns aspectos que caracterizam essas "trevas" que antecederam a "luz". 

Em primeiro lugar, onde a Bíblia não é acessível, as trevas espirituais serão inevitáveis, pois "...lâmpada para os meus pés é a TUA PALAVRA, e LUZ para os meus caminhos..." [Salmo 119, vs. 105] - eu não quero saber de desculpas como "o povo não poderia entender a Bíblia sem a explicação de um "erudito da Igreja", pois aqueles a quem Deus unge com Seu Espirito "...não têm necessidade de que alguém os ensine, mas a unção que vocês receberam Dele os ensina todas as coisas, e ela é verdadeira, e não é mentira..." [1 João 2, vs. 27], de modo que a Bíblia por si mesma tem o poder necessário para alcançar a mente do homem, pois "...os testemunhos do Senhor são dignos de confiança, e TORNAM SÁBIOS OS INEXPERIENTES..." [Salmo 19, vs. 7]. Além disso, em nenhum lugar da Bíblia há qualquer autorização divina para considerar a Palavra inspirada por Deus [ou "soprada", no grego original] equivalente a qualquer outra fonte de verdade espiritual, pois está escrito que "...quando lhes disserem para procurarem um médium ou alguém que consulte espíritos e murmure encantamentos, pois TODOS RECORREM A SEUS "DEUSES" E AOS MORTOS EM FAVOR DOS VIVOS, respondam: à LEI e aos MANDAMENTOS! Se eles não falarem conforme ESTA PALAVRA, vocês jamais verão a LUZ" [Isaías 8, vs. 19-20]. Eu poderia passear pela Bíblia inteira mostrando outros versos para fortalecer meu argumento, mas esse é suficiente para derrubar qualquer arrogância insolente pela qual a "santa tradição" também é "palavra de Deus" - isto é, ou você crê em SOLA SCRIPTURA, ou você está em trevas; esqueça seus "gurus de Youtube e redes sociais" e se volte para a palavra do Deus [mas é a Palavra dele mesmo, sem acréscimos de livros controversos e heréticos] que você diz ser o seu Deus, antes que você vá para o inferno sem passar pelo purgatório [já que ele nem existe mesmo]. Tradição só é boa se é conformada à verdade e, como Jesus já disse, "...a Tua Palavra é a verdade" [João 17, vs 17]. A "Tua Palavra", e nada além dela

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Para terminar esse tópico, não poderia falar sobre as trevas "mais densas" - ou seja, aquelas segundo as quais a salvação foi, por muitos séculos, uma moeda de troca, uma barganha com Deus por interesses espúrios (como a arrecadação de rios de dinheiro pela venda de indulgências em massa para a construção da Basilica di San Pietro no Vaticano - a qual é, apesar dessa questão, uma inestimável e fascinante obra de arte) a fim de se enganar as pessoas com falsas promessas de vida eterna, como dizia o abominável Tetzel: 

"Quando um moeda tilinta no cofre, uma alma sai do purgatório... tens uma moeda para Cristo?"

Quanto a isso, faço a citação precisamente exata do salmita, onde se lê:

Homem algum pode redimir seu irmão ou PAGAR A DEUS O PREÇO DE SUA VIDA,
Pois o resgate de uma vida não tem preço. 
NÃO HÁ PAGAMENTO QUE O LIVRE PARA QUE VIVA PARA SEMPRE e não veja a corrupção. [Salmo 49, vs. 7-9]

A Bíblia não poderia ser mais explícita - todos os que pagaram alguma indulgência pensando que poderiam comprar a própria salvação ou a de algum familiar ou amigo que [supostamente] estivesse no purgatório foram enganados, de forma que tanto estes como aqueles devem estar no inferno agora mesmo, junto com o próprio Tetzel e os demais corruptores daqueles tempos escuros [a não ser que houve, em algum deles, arrependimento de pecados e fé exclusiva em Cristo como suficiente Salvador]. Se você ainda está resistente ao fato de que esses aspectos dessa "religião" são justificáveis e aprovados por Deus, eu creio que devo fazer com você o mesmo que o apóstolo Paulo fez como Himeneu e Alexandre, como se lê que "...os quais entreguei a satanás, para que aprendam a não blasfemar..." [1 Timóteo 1, vs. 20]. Portanto, mais uma vez, Lutero vem muito a calhar, pois ele disse: "...pelo fato de vocês confundirem a verdade de Deus, o Senhor hoje confunde vocês: que sejam lançados ao fogo"

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DEPOIS, A LUZ.

Como já foi dito, a "luz que veio depois das trevas", na verdade, sempre esteve ali presente, embora estivesse sendo esquecida, adulterada, manipulada ao bel-prazer de muita gente perversa e mentirosa até que, por uma intervenção divina bastante irônica, voltou a brilhar primeiramente na mente de alguém que era "de dentro da religião, da Igreja da História". Sim, o monge agostiniano alemão Martin Luder (Martinho Lutero em português), após muitos anos de caminhada teológica, erudição e formação acadêmica, vivia atormentado quanto ao juízo divino iminente e até mesmo "detestava" a justiça de Deus, até que num dia, preso numa torre de um castelo [se não me falha a memória] ele lê:

Porque no Evangelho é revelada a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: o justo viverá da fé. [Romanos 1, vs. 17]

Nas próprias palavras de Lutero, esse texto "...lhe abriu os portões do Paraíso..." - ora, aqui se diz que a justiça de Deus é revelada na BOA-NOVA, isto é, o fato de que Deus é justo é a MELHOR NOTÍCIA que se poderia ouvir, pois essa justiça é aquela pela qual o Eterno Deus, três vezes Santo, temível, fogo consumidor, que não tem o culpado por inocente, que se ira todos os dias e cuja indignação perturba os mais poderosos dos homens, decidiu justificar pecadores merecedores do inferno por meio da morte voluntária de Seu próprio Filho [pois está escrito que "...ninguém tira a minha vida de mim, eu a dou de espontânea vontade..." - João 10, vs. 18], morte que é também vicária [Jesus é o "segundo Adão", representante de todo que Nele crê diante do Pai, 1 Coríntios 15, vs. 45], substitutiva [Ele assume a penalidade que nós deveríamos sofrer, 1 Pedro 3, vs. 18], eficaz [Sua obra redentora é suficiente para dar a salvação a todo pecador que vai a Ele com fé, Hebreus 7, vs. 25], propiciatória [Sua morte satisfez completamente a justiça de Deus, visto que Ele de fato levou os pecados sobre Si e, assim, sofreu a ira do Pai sem deixar uma gota do cálice para nós, Romanos 3, vs. 24-26] e penal [a culpa que era nossa pelos nossos pecados foi assumida por Ele, de modo que "Ele foi feito pecado por nós", 2 Coríntios 5, vs. 21]. No Evangelho, Deus se mostra plenamente santo e plenamente misericordioso de uma só vez ou, por assim dizer, "Grace is Everywhere" - SOLA GRATIA.

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A partir daí, nem Lutero e nem a Europa foram mais os mesmos - o movimento que havia começado em séculos anteriores pelas influências dos Valdenses, Wycliff e Huss assume-se forte e, ao se espalhar pelo Velho Mundo [junto com traduções da Bíblia nas línguas do povo europeu], chegou na França e também mudou a vida de outro "ex-membro da Igreja da História" chamado Jean Cauvin ou "João Calvino", o qual foi a mente brilhante da Reforma, cuja vida foi diligentemente dedicada a levar a "Luz que dissipa as trevas e que não pode ser derrotada por elas" - ele fundou a Escola/Universidade de Genebra [também] para teólogos e missionários que se espalharam pelo mundo [inclusive o Brasil, cujos enviados foram martirizados], passou anos a fio pregando em Saint-Pierre, escreveu muitas obras, gastava muito tempo em oração, cuidou de sua esposa até a morte e, quando morreu, nem quis que marcassem o local do sepultamento, para que, segundo suas palavras, "...a glória de Deus não fosse dada a outro...". Em outras palavras, SOLI DEO GLORIA. 

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E quanto a você? 

Será que essas breves palavras te fizeram enxergar que a Reforma Protestante não é apenas um acontecimento histórico distante, mas que possui implicações conceituais e concretas para sua vida hoje e também para a sua eternidade?
Até quando você poderá ficar nas "trevas" sem enxergar a "luz" do Evangelho, pelo qual sabemos que "Deus enviou o Seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele" [João 3, vs. 17]?

Em outras palavras, porque não fazer de sua oração as mesmas palavras de um antigo hino irlandês, que diz (no inglês):

Be Thou my battleshield, sword for the fight
Be Thou my dignity, Thou my delight
Thou mine soul's shelter, Thou mine High Tower
Raise Thou me in heavenward, O Pow'r of my Power
[Be Thou my vision, hino irlandês do século VII-VIII]

"Sejas Tu meu escudo na batalha, espada para a luta
Sejas Tu minha dignidade, Tu o meu deleite
Tu, o meu escudo para a alma, Tu a minha torre forte
Erga-me Tu até os céus, ó Força da minha força..."

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Por saber que depois de viver em trevas, eu vi a Luz,




Soli Deo Gloria!

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Médico e os monstros...

Após cerca de um mês, eis-me aqui novamente. 

Admito que, nessas últimas semanas, o que se pode chamar de "inspiração" - se é que posso me atrever a dizer que já tive real inspiração enquanto escrevia - tem passado longe... Logo, se não há algo válido a ser dito [ou escrito], o melhor é se calar [ou não fazer "textão"], embora muitos não o entendam

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No entanto, dessa vez, gostaria de escrever algumas coisas que vêm permeando a minha mente há alguns dias e que, somente hoje, tive condições de organizar a fim de escrever esse texto. Desse modo... "let's go"! 

Inicialmente, esse texto é majoritariamente baseado em uma clássica obra da literatura inglesa chamada "O médico e o monstro", escrita por Robert Louis Stevenson, obra que certamente inspirou a criação de uma música com o mesmo título pela Banda Resgate. Bem, quanto a isso, pretendo falar um pouco sobre a obra e incluir trechos da canção que poderão esclarecer melhor o assunto - além de elucidar as minhas reflexões. 

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Na obra mencionada, existe um personagem chamado Dr. Jekyll, o qual [na estória] se dá conta de ser algo como "um misto bizarro de bem e mal", de modo que "sua 'natureza má' coibia a sua 'natureza boa'". Ao longo da narrativa, ele descobre uma poção que poderia ajudar a separar as duas "naturezas" e, dessa maneira, surge uma suposta esperança de que sua "natureza boa" seria libertada dos efeitos do mal bem como se tornaria capaz de atingir os objetivos traçados. Entretanto, numa certa noite, ele ingeriu a poção e seu lado mau veio à tona, sendo muito pior do que se poderia imaginar. Para tanto, nada melhor que citar um trecho do próprio texto original:

"Percebi ser, ao primeiro sopro dessa nova vida, mais perverso, dez vezes mais perverso, vendido como escravo a meu mal original; e o pensamento na quele instante envolveu-me e agradou-me como vinho. [...] Cada ato e pensamento [de Edward Hyde] centrava-se em si mesmo"
[Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro]

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Edward Hyde seria como o "alter-ego" do Dr. Jekyll ou, em poucas palavras, o seu lado "monstro" [vale ressaltar que, na língua inglesa, a palavra "hyde" deriva das palavras "hideous" - que significa horripilante, abominável, monstruoso - e "hidden" - o particípio passado do verbo "to hid - esconder", i.e., "escondido"]. Em suma, o Dr. Jekyll foi surpreendido pelos resultados da poção, cujo uso não teve o efeito desejado por ele [o controle da "natureza má" e a libertação da "natureza boa"], porém o efeito exatamente oposto - o que indica, de certa maneira, que não conhecemos bem a nós mesmos da maneira como normalmente acreditamos

Portanto, pensando bem, o caso do Dr. Jekyll/Edward Hyde pode ser devidamente aplicado a qualquer um de nós - mas com uma peculiaridade: diferentemente do exemplo da literatura, nós não temos uma "natureza má" que coabita com uma "natureza boa", nem mesmo somos capazes de fazer qualquer coisa para libertar nosso suposto "lado bom inato" [até porque esse "lado bom inato" simplesmente não existe]. Logo, algumas perguntas se fazem pertinentes, assim como na música supracitada: 

"Quem eu sou na verdade? Dá pra saber? Qual a minha identidade, sem me esconder?"

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Existem várias respostas para essas perguntas, porém apenas uma delas é a verdadeira - e, exatamente por isso, é a única que não é tolerada, visto que parte do pressuposto de que "apenas o correto conhecimento de quem é Deus nos conduz ao correto conhecimento de quem nós somos". Mas, se é o conhecimento de Deus que nos permite saber quem nós somos verdadeiramente, o que Ele diz a respeito disso?  

Para tal, nem precisarei sair do contexto da obra, pois o próprio excerto do livro anteriormente destacado inclui expressões como "percebi ser... mais perverso, dez vezes mais perverso..." bem como "vendido a seu mal original..." e "cada ato e pensamento [de Edward Hyde] centrava-se em si mesmo", termos que compõem categorias tipicamente cristãs, visto que está escrito na Bíblia que...

"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente perverso; quem o conhecerá?" [Jeremias 17, vs. 9]

"Em verdade vos digo que todo aquele que vive pecando é escravo do pecado" [João 8, vs. 34]

"Sabemos que a Lei é espiritual; eu, contudo, não o sou, pois estou vendido como escravo ao pecado... Sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita bem algum" [Romanos 7, vs. 14 e 18a]

"...Os gentios, que vivem na vaidade de seus pensamentos, estando obscurecidos de entendimento e separados da vida de Deus por causa da ignorância que há neles, pela dureza de seu coração e, tendo perdido a sensibilidade, eles se entregaram à depravação..." [Efésios 4, 17b-19a]. 

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Resumidamente, o ensino bíblico é simples: assim como relatado em nuances por meio da estória do "doutor e do monstro, Jekyll e Hyde", a maldade que há em nós suplanta qualquer suposta presença de alguma "virtude intrínseca" - na verdade, as Escrituras destroem veementemente o que é conhecido como o "mito do 'bom selvagem'" do Jean-Jacques Rousseau [segundo o qual "o homem é naturalmente bom, mas o meio exterior o corrompe"], dizendo em contrapartida que "o homem é naturalmente mau e, por isso, ele mesmo corrompe tudo o que está a seu redor". É como o "toque de Midas às avessas", pelo qual todo o "ouro" vira "escória", uma realidade na qual todos estão voltados somente para si mesmos, de modo que "...não há lugar para Deus em nenhum de seus planos..." [Salmo 10, vs. 4] e "...falam como amigos com o próximo, mas abrigam maldade no coração" [Salmo 28, vs. 3b], o que corrobora com a parte da música que diz: "a vida dupla é o nosso disfarce pra enganar". Em suma, "#somostodosmonstros".

Por outro lado, queria citar outros trechos da música:

"Pra se separar o joio, deixe crescer
Pra o encontro com a verdade, um deles tem que morrer..."

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Esse trecho da música faz menção à parábola de Jesus sobre o "joio e o trigo" [Mateus 13, vs. 24-30 e 36-43], na qual o trigo é a figura dos "filhos do Reino" e o joio representa "os filhos do Maligno". Nesse caso, ambos crescem juntos e até mesmo se confundem um com o outro [ou seja, o joio pode "parecer ser trigo" e o trigo "pode dar impressão de que é joio"], de forma que é apenas no momento da colheita que ambos podem ser precisamente discriminados, a fim de que o trigo [plantação boa] seja recolhido nos celeiros e o joio lançado no fogo. Na canção, o joio pode ser a imagem do "lado escondido/Hyde ou monstruoso" e o trigo a do "lado saudável/Jekyll", de modo que "um deles deve morrer para que a verdade seja encontrada" - ou, de outra sorte, o encontro com a Verdade é capaz de matar o lado "monstro"/joio, restando apenas o "trigo"/boa plantação

Mas que "Verdade" é essa que é capaz de tornar "monstros" em algo belo e apreciável?

Para responder a pergunta, cito o último trecho da música:

"Só conhecendo a verdade pra se libertar
O amor de Jesus é o remédio que vai te curar..."

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Sem delongas, foi o próprio Jesus que disse "...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará... se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres..." [João 8, vs. 32 e 36], indicando que a "verdade libertadora" à qual Ele se referira era Ele mesmo, o Filho - ora, a afirmação é que somente o Filho pode libertar verdadeiramente, cuja principal implicação é a de que quaisquer outras alternativas de libertação são falsas, pois também está escrito a respeito de Jesus que Ele é "...o caminho, a verdade e a vida..." [João 14, vs. 6]. 

Isto é, fazendo alusão ao episódio da poção que era bebida pelo Dr. Jekyll, todos nós precisamos beber de um outro cálice - o cálice contendo o sangue de Cristo, pois "...todo aquele que come de minha carne e bebe de meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia..." [João 6, vs. 54]. Sim, o "remédio que pode nos curar" é o sangue de Cristo, sangue que "nos purifica de todo pecado", "o qual foi "derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados", pois "nEle temos a redenção pelo Seu sangue...", redenção que é definida como "o perdão dos pecados, segundo as riquezas de Sua graça...", sangue pelo qual Ele nos "libertou dos nossos pecados". Obviamente, isso não significa que temos que tomar literalmente o sangue de Cristo, mas sim que devemos olhar firmemente e confiantemente para o Salvador crucificado, que sangrou até pelo suor ao tomar outro cálice em nosso lugar - o cálice da ira de Deus, tomando-o inteiro, sem deixar uma gota para nós, a fim de que todos os que viessem a Ele fossem definitivamente salvos, i.e., reconduzidos a Deus, para andar com Ele desde já e, enfim, desfrutá-Lo para sempre. Ele é o Médico que veio para nós, "os monstros", pois "...os saudáveis não precisam de médico, mas sim os 'monstros'" [Marcos 2, vs. 17 - adaptado]. 

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Será que, ao olharmos para quem de fato somos, já nos damos conta de que, na verdade, não somos "bons quanto gostaríamos de ser"? Ou melhor, quanto tempo será necessário para que reconheçamos que, intrinsecamente, "somos todos monstros"?

Finalmente, quando iremos levar a sério o fato de que, "se somos todos monstros", apenas o encontro com a Beleza Verdadeira poderá nos libertar dessa nossa "feiura"




Pela alegria de saber que nEle sou libertado,



Soli Deo Gloria!