terça-feira, 28 de outubro de 2025

Turning the point downside up...

Após alguns meses de ausência (como normalmente ocorre por aqui), estamos de volta.

De início, existem diversos motivos para este retorno, mas o principal deles é a combinação de episódios recentes que têm revelado a face mais sórdida e desprezível de muitos ao nosso redor a um certo conjunto de eventos bem mais antigos - os quais, contudo, mostraram o que acontece quando "a luz resplandece nas trevas e estas não prevalecem contra ela", como vemos em seu lema "Post Tenebras Lux" ou "Depois das Trevas, a Luz". Ficou curioso? Fique até o fim e, com paciência, leia. 

Esse texto pretende ser um "ponto de virada" que vire as coisas "de baixo para cima" - conforme o seu título em inglês -, de modo que nenhum dos seus poucos leitores permaneça numa "apatia com aparência de virtude" e, consequentemente, não se oponha ao mal (não importando qual seja) de acordo com as reais proporções dele, tornando-se culpado do seu triunfo. Ou seja, minha intenção é "tirar a paz" de todos os que passarem por aqui a fim de que essa "apatia" se transforme em coragem em defesa do bem e da verdade - sobretudo aquela "Verdade", pela qual todas as demais coisas são verdadeiras.

Logo, sem mais rodeios, sigamos em frente - e que Deus me ajude


Primeiramente, não haveria modo mais justo de introduzir esse texto do que mencionando um episódio dos Atos dos Apóstolos (relato bíblico que apresenta as primeiras décadas da história da igreja cristã no séc. I, desde Jerusalém até outras partes do antigo mundo greco-romano), no qual também houve um "ponto de virada", como mostrado a seguir:

"...Paulo e Silas [...] chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga judaica.
Como de costume, Paulo entrou na sinagoga e, durante três sábados, conversou com as pessoas que estavam  sobre as Sagradas Escrituras [...], provando que o Messias precisava morrer e ressuscitar dos mortos. Ele disse [...]: este Jesus, que eu lhes anuncio, é o Messias (i.e., o Cristo).

Alguns deles se convenceram e se uniram a Paulo e Silas [...], mas os judeus ficaram com inveja e, junto com alguns agitadores que reuniram na praça do mercado, eles formaram um bando. Eles causaram confusão pela cidade e atacaram a casa de Jasão (Jasom), tentaram encontrar Paulo e Silas e... como não os encontraram, eles arrastaram Jasão e alguns outros seguidores de Jesus para apresentá-los aos líderes da cidade, gritando:

Estas pessoas são conhecidas por causar problemas, virando o mundo de cabeça para baixo, e agora elas/eles vieram para cá... Todos eles desobedecem às leis do imperador romano, cometendo traição ao dizerem que há outro rei, chamado Jesus..." 

- Atos dos Apóstolos 17, vs. 1-7 (Bíblia Livre para Todos, versão de Portugal) 


Esse trecho relata a chegada de Paulo e Silas a Tessalônica (localizada na antiga Macedônia e na atual Grécia), que à época estava sob o domínio romano. Durante um período de 3 semanas (ou um pouco mais, talvez), Paulo esteve na sinagoga debatendo com os judeus da cidade, provando pelas próprias Escrituras que Jesus era o "Messias prometido". Como resultado, alguns creram na pregação de Paulo, mas outros ficaram indignados a tal ponto de organizarem motins e ataques aos novos cristãos, acusando-os de traição contra Roma em razão de sua fé em Jesus Cristo. 

Nesse contexto, os opositores de Paulo e Silas descrevem com precisão a real natureza dos mensageiros de Cristo e de sua mensagem ao afirmarem que "eles estavam virando o mundo de cabeça para baixo" - os quais, segundo o Palavrantiga, estariam "...subvertendo o mundo por amar a Esperança que salta os muros...". Assim, esse momento viria a ser um "turning point" para toda aquela região e até mesmo para todo o Império, uma vez que a fé cristã era (e é!) tanto uma postura religiosa quanto uma decisão política, por meio da qual cada cristão estaria confessando que "César" não era o seu Κύριος (e.g., Kyrios - port., "Senhor"), mas unicamente Jesus Cristo - o que poderia (e ainda pode) custar tudo, incluindo a vida. 

Por tudo isso, pode-se concluir que, desde os tempos do Novo Testamento, assumir um compromisso com Jesus Cristo de modo resoluto e público sempre tem sido um "motivo de transtorno" e "incômodo" para todos os que não crêem Nele, de forma que não há como ser um discípulo Dele sem "subverter" a "Cidade dos homens" - seja aquela em que todos agora estamos, seja a que tantos dentre nós desejam erguer por meio de suas "utopias políticas" e outras fantasias. Em face disso, em que sentido a noção de um "virar o mundo de ponta-cabeça", o discipulado cristão e a Reforma Protestante estariam relacionados? Por que essas coisas, devidamente associadas uma à outra, deveriam nos tirar do "conformismo diante do mal" circundante para que sejamos como soldados que se adequam à máxima latina "SI VIS PACEM, PARA BELLUM" (e.g., "se queres paz, prepara-te para a guerra")? Leia os próximos parágrafos e (assim espero!) encontrará a resposta. 


É provável que muitos dentre nós conheçam o seguinte silogismo: "tempos maus criam homens fortes e homens fortes criam tempos bons; mas tempos bons criam homens fracos e homens fracos criam tempos maus". Assim, o ciclo apresentado por essa citação pode ser claramente observado ao longo do tempo, pois a experiência mais comum às diferentes sociedades mostra que o sofrimento acaba por fortalecer as culturas e povos cujos fundamentos e raízes são mais firmes e, por outro lado, causa o esfacelamento daquelas "civilizações" onde as chamadas "virtudes cardeais" - a saber, fortaleza, prudência, justiça e temperança - estão ausentes

Nesse sentido, podemos citar o povo judeu/israelita que, embora tenha enfrentado ao longo de sua história milenar diferentes situações de escravidão, escassez, oposição e hostilidade de povos inimigos, massacres, exílio, diásporas até que, no último século, foi alvo de genocídio (esse sim de verdade!) pelas mãos dos nacional-socialistas alemães (e.g., nazistas) sob o comando de Hitler, conseguiu permanecer vivo, preservando suas tradições, cultura, religião e identidade, constituindo-se um exemplo notório de uma sociedade forte e capaz de "ressurgir das cinzas" - assim como o Cavaleiro de Bronze "Ikki de Fênix" no clássico anime "Cavaleiros do Zodíaco". Em contrapartida, pode-se mencionar o Império Babilônico, o qual durante alguns séculos antes de Cristo se tornara o maior poder existente e cuja glória havia se estendido por vários territórios no Antigo Oriente Próximo (i.e., Oriente Médio), inclusive até os judeus do antigo reino de Judá (pertencente à dinastia de Davi). No entanto, com a ascensão dos medo-persas e, mais tardiamente, dos gregos, selêucidas, ptolemaicos e romanos, a outrora "grande Babilônia", edificada pelo famoso rei Nabucodonosor II, seria feita uma "perpétua desolação", uma "terra sem homens nem animais" que seria "afundada no rio Eufrates para nunca mais se reerguer", o que indicava que seu esplendor ficaria restrito aos grandes museus que surgiriam séculos após a sua ruína. 

Consequentemente, o que diferenciaria os judeus dos babilônios (ou caldeus)? Por que aqueles continuam entre nós como um povo forte (com muitas das pessoas mais prósperas do mundo, contendo cerca de 8% dos prêmios Nobel etc., embora sejam somente cerca de 15-17 milhões em todo o planeta) e os últimos são apenas parte de registros arqueológicos - de grande valor, sem dúvida -, apesar de que existem caldeus ainda hoje em países como Iraque e Síria? Uma resposta simples é: a quantidade de "tempos maus" vividos pelos judeus os tornaram mais fortes (o que voltamos a ver claramente desde 7 de outubro de 2023), de forma que tais virtudes, em alguma medida, têm sido vistas no meio deles há milênios - o que não foi o caso dos babilônios. Logo, sem as devidas qualidades morais, qualquer civilização está sujeita à degeneração e, portanto, a ser destruída


Desse modo, uma explicação bastante razoável para a situação catastrófica da humanidade atual - e, em particular, das nações e culturas que foram mais privilegiadas com bons valores e diferentes virtudes (como as supracitadas) - é que os "tempos bons" não têm sido acompanhados por uma atitude de conservação desses valores nos últimos 2 séculos (especialmente do séc. XX até aqui), mas por uma postura de ressentimento histérico, negação contumaz da realidade imediata, desejo desenfreado de falsear e substituir a história e, acima de tudo, por um ódio assassino por tudo e todos que sejam considerados uma ameaça ao "sentimentalismo tóxico" bem como aos planos daqueles que, à semelhança do excrescentíssimo juiz Dias Toffoli, se reconhecem "editores/censores de uma sociedade inteira, de um país inteiro e - ouso dizer - até do universo inteiro". Em poucas palavras, o "homem-massa" de Ortega y Gasset se tornou o padrão de conduta e, como resultado, a maioria de nós desfruta de benesses pelas quais não lutamos e desprezamos em nossos discursos até que, por fim, desejamos destruí-las "em nome de um mundo melhor". 

O que justificaria, pois, a existência de hordas de "estudantes" (que não estudam, obviamente) em marcha pelos campi e pelas praças e ruas de cidades como São Paulo, Nova York, Londres, Barcelona, Lisboa, Berlim, Bruxelas, Roma, Paris, Amsterdam, Bogotá, Melbourne etc. a defender uma "causa" cuja marca é o massacre de pessoas inocentes - incluindo a queima ou o esquartejamento de bebês vivos - senão a ausência absoluta de amor ao próximo e a perda total do senso de humanidade? Que adjetivo seria mais adequado para descrever essa "sede insaciável de sangue" além de "diabólico"? Sem dúvida, se eu descobrisse um vocábulo que comunicasse melhor a magnitude do mal de que estamos falando, certamente este termo seria o mais aplicável; contudo, uma vez que me falta a devida erudição, direi que a maldade dessa "gente" é indescritível

A propósito, embora eu já tivesse uma noção a respeito de como identificar uma possessão demoníaca, a partir do dia 10 de setembro de 2025 (data do homicídio brutal do Charlie Kirk - um cristão protestante, pai de duas filhas e ativista conservador) eu testemunharia tudo às claras: por toda parte, especialmente em vídeos curtos na internet, eu acompanhei algumas das cenas mais imundas e vis já registradas, nas quais criaturas abomináveis e sub-humanas, mais repulsivas do que qualquer verme ou parasita, de almas mais podres e fétidas que um corpo contaminado por um câncer em metástase (ou em putrefação), celebravam, com risos visivelmente satânicos, o assassinato a sangue frio de um homem que tão-somente gostava de debater ideias com um espírito cordial e cortês. Dessa forma, é muito provável que o contraste entre a nobreza do Charlie Kirk e a sordidez pútrida de seus "inimigos" justifique o fato destes últimos o odiarem ao ponto de assassiná-lo e comemorar esse crime hediondo, tendo em vista que o Homem mais justo que esse mundo já viu - na verdade, o Único verdadeiramente justo - também fora, como está escrito, "odiado sem motivo" (vide João 15, vs. 25; e.g., Salmo 35, vs. 19 e 69, vs. 4) e igualmente assassinado "pelas mãos de homens ímpios" (Atos 2, vs. 23 - e.g., 4, vs. 27). Todavia, há uma diferença importante a ressaltar: o Kirk foi tirado de sua família e amigos pelo poder da morte e eles não mais o verão (ao menos por enquanto), mas o Filho de Deus ressuscitou e hoje vive para que todo aquele que Nele crê (como no caso do Kirk) "tenha a vida eterna" e seja "ressuscitado no último dia" (João 6, vs. 39-40) para nunca mais morrer, assim como Ele foi (Romanos 6, vs. 9 e 14, vs. 9). 


De fato, se formos relatar em detalhes as injustiças e desgraças que ocorrem diariamente ao nosso redor, teríamos de fazer a mesma pergunta do autor da Epístola aos Hebreus enquanto escrevia sobre os chamados "heróis da fé" - a saber: "E O QUE MAIS DIREI"? 

Faltar-me-ia tempo para falar de Iryna Zarutska (jovem ucraniana e refugiada de guerra que foi degolada friamente por um criminoso reincidente num trem nos EUA pelo simples fato de ser BRANCA, já que o bandido NEGRO dissera ter "pegado a garota branca" após esfaqueá-la no pescoço) e de tantas outras meninas/mulheres brancas por toda a Europa, América do Norte e Oceania que têm sido abusadas, agredidas, assediadas, estupradas e mortas por animais selvagens com "aparência humana" que afirmam fazer isso "em nome de seu deus único" e como parte de sua "lei divina". Ora, o que esperar de uma "pseudo-religião" baseada num "profeta" que não passava de um carniceiro pedófilo, o qual ousou se casar com uma menina de 6 anos (cuja consumação ocorreu quando ela tinha somente 9 anos!) e marcada por uma expansão feita através da escravidão, genocídio e terror? Do mesmo modo, não se pode supor que uma mentalidade político-social fundamentada na "abolição das verdades eternas" e na "destruição de tudo quanto existe" possa produzir quaisquer bons frutos, porém unicamente desordem, loucura, perversão, calamidades e morte por onde passa e se estabelece. 

Logo, ao considerarmos a presença de males tão desenfreados e ilimitados (de acordo com a nossa perspectiva puramente humana), a única fonte de consolo e esperança é que, embora não nos recordemos de muitas dessas maldades e injustiças e sejamos impotentes contra elas, Deus não se esquece delas e, no tempo determinado, tomará vingança contra todos os malfeitores que, por enquanto, assolam o mundo impunemente. 


Portanto, em face de impiedades quase incontáveis, toda atitude de indiferença e letargia, assim como toda ausência de indignação justa e ousada, é prova incontestável de que não basta afirmarmos que defendemos a justiça e a verdade ou que "detestamos o mal e nos apegamos ao bem" se, NA PRÁTICA, preferimos a "política de boa vizinhança" ou evitamos os "conflitos desnecessários" em lugar de "...libertarmos os que estão sendo condenados à morte e salvarmos os que cambaleiam ao ser levados para a matança..." (Provérbios 24, vs. 11), de forma que não poderemos dizer: "...não sabíamos de nada!...", pois "...Aquele que pesa os corações e atenta para a nossa alma perceberá, ficará sabendo e pagará a cada um segundo as suas obras..." (vs. 12). Entendamos de uma vez por todas: diante de Deus, a covardia que nos impede de fazer o que é certo e a "tolerância" diante do mal" exercida "em nome da paz" NÃO SÃO VIRTUDES, MAS PECADOS - e, por isso mesmo, se não nos arrependermos dessas coisas, o nosso destino é a perdição eterna, o lago de fogo que arde com enxofre, como está escrito:

"...Quanto, porém, aos covardes [...], a parte que lhes cabe será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte..." [Apocalipse 21, vs. 8] 

Isto é, se Deus "...não nos deu espírito de covardia, mas de fortaleza, de amor e de temperança..." (vide 2 Timóteo 1, vs. 7), os que confessam pertencer a Deus (e.g., os cristãos) não podem ser covardes enquanto chamam à sua tibieza "inteligência emocional" (eis uma expressão ridicularmente imbecil!) e, ao mesmo tempo, devem demonstrar coragem "na medida certa" e "conforme a ocasião", uma vez que a "sabedoria do alto" é, dentre outras coisas, "...pacífica, tratável, moderada e cheia de bons frutos..." (ver Tiago 3, vs. 17). Queira Deus, pois, usar esses "tempos maus" em que estamos a fim de sermos fortalecidos Nele e "...na força de Seu poder...", pois somente assim estaremos habilitados para combater os nossos "reais adversários" até que, após termos feito tudo, permaneçamos inabaláveis (vide Efésios 6, vs. 10-13). 


Diante dessa realidade, consideremos a seguinte situação: algum de nós flagra um terrorista armado atacando uma jovem para violá-la ou matá-la e, embora tendo consciência do mal representado pelo terrorismo e podendo impedir o crime, nada é feito (por nós) para ajudá-la... Que valor real teria o nosso "repúdio ao abuso de mulheres" - ou a nossa "oposição à criminalidade" - sem as devidas evidências concretas? Como resultado, conclui-se que a coragem (ou a fortaleza) é conditio sine qua non para que qualquer virtude seja verificável e genuína. Por isso, recordemos os eventos que culminariam na "Reforma Protestante" - os quais virariam o mundo "de cabeça para baixo" ou, dentro desse texto, seriam o "ponto de virada" do mundo da época "de baixo pra cima" -, já que tais acontecimentos são um exemplo notório de que "sem a coragem, todas as demais virtudes acabam por se tornar inúteis" (i.e., inoperantes ou mesmo inexistentes). 

Inicialmente, deve-se reiterar que, nos últimos anos, um texto com alguma temática referente à Reforma Protestante tem sido publicado aqui a cada outubro e, por isso, não é necessário repetir muitos detalhes históricos provavelmente já mencionados. Portanto, a seguinte linha do tempo é suficiente para nos situarmos no ambiente histórico desse "turning point" religioso e civilizacional:

SÉCULOS XII-XIII: surgimento dos Valdenses (fr. Vaudois; it. Valdesi), conhecidos pela defesa ao acesso à Bíblia em língua vernácula e pela modéstia material; eles foram tratados como hereges pelos romanistas;

SÉCULOS XIV-XV: surgimento de teólogos como John Wycliffe (Inglaterra), Jan Huss (Boêmia, Rep. Tcheca) e Girolamo Savonarola (Toscana, Itália), que também defenderam o acesso livre às Escrituras no vernáculo, desafiaram a autoridade papal e a corrupção na Igreja Romana; 

SÉCULO XVI: o "século da Reforma" propriamente dito, pois em 1517 Martinho Lutero publicaria suas 95 Teses na Alemanha e após alguns anos, sua excomunhão consolidaria o que chamaríamos de Protestantismo; no mais, diversos outros nomes surgiriam dentro do movimento, como João Calvino (França e Suíça francesa), Ulrich Zwínglio (Suíça germânica), Martin Bucer, William Farel etc. bem como diversos documentos e livros baseados nessa "fé nascente" (ou renascente); 

SÉCULO XVII: diferentes movimentos advindos da Reforma surgem e se consolidam em várias partes da Europa, como o movimento puritano britânico (que incluía presbiterianos, congregacionais, batistas etc.), os não-conformistas (igualmente plural), os menonitas e os arminianos neerlandeses (que eram mais destoantes dos demais grupos), dentre outros; 

Mas a pergunta que fica é: por que a Reforma foi/teria sido um "turning point" que deveria motivar os cristãos a procurar assumir a mesma atitude hoje? 


Primeiramente, a sociedade que viveu nos locais e épocas citadas acima era bastante distinta da atual, tanto no sentido político quanto no cultural/espiritual. A mentalidade do europeu medieval era profundamente religiosa e, mesmo em locais onde diferentes crenças "coexistiam" - como na Península Ibérica, invadida por muçulmanos desde o séc. VIII e ocupada por eles até o fim do séc. XV -, o pensamento greco-latino/católico-romano fundamentava a sua visão de mundo. Dessa maneira, os pressupostos a partir dos quais a sociedade funcionava eram, em linhas gerais, baseados na fé em Deus, na noção de eternidade, na busca do bom, do belo e do verdadeiro, bem como do respeito ao indivíduo associado à valorização das raízes/tradições e da realidade comunitária

Em contrapartida, a despeito destes aspectos positivos que compunham o que viria a ser a "Civilização Ocidental", havia um problema que não deve ser ignorado: muitas vezes, o "poder religioso" se misturava ao/com o "poder civil" e, consequentemente, a corrupção, a injustiça e até a perversão da própria religiosidade passariam a integrar aquela sociedade - em particular, os próprios círculos e ambientes religiosos. Como resultado, essa sociedade experimentaria o seu "turning point" mediante a confluência de diversos marcos históricos, a saber: o Renascimento nas artes e na vida intelectual, a "conquista dos mares" e as "descobertas de novos mundos" e, em especial, a Reforma Protestante, movimento religioso influenciado pelo "retorno às letras clássicas" (i.e., grego e latim) causado pelo Humanismo Renascentista, cujos frutos iriam além dos limites das cátedras de teologia e filosofia nas universidades e transformariam as vidas de príncipes e duques, de freiras e de monges, de futuros advogados e até de sapateiros, conforme se vê no exemplo a seguir:

- Senhor Lutero, eu sou apenas um sapateiro. Como eu posso fazer algo para agradar a Deus?
- Lutero: faça o melhor sapato que puder e venda-o por um preço justo!  

Na verdade, é razoável reconhecer que pessoas mais simples tenham feito seus "serviços menos sagrados" para agradar a Deus antes que a Reforma ocorresse (por exemplo, os artesãos dos vitrais e das esculturas das catedrais góticas), porém seria apenas a partir da Reforma que o "modo de enxergar a vida ordinária" mudaria radicalmente. Com isso, cada "trabalho comum" passaria a ser um "serviço litúrgico" - ou seja, a adoração a Deus seria uma obra ativa de todo indivíduo temente a Deus e não somente do clérigo, visto que todos estes haviam sido chamados por Deus para serem Seu "sacerdócio santo" (o que é devidamente expresso na doutrina reformada do "sacerdócio universal de todos os crentes"). Portanto, a comunhão com Deus não mais "exigiria uma mediação humana especial", com exceção da "única mediação" real e legítima: Jesus Cristo, o Deus-Homem. 


Logo, por mais que essa mudança seja apenas um dos diversos efeitos causados da Reforma, ela aponta para o seu principal fundamento - o qual também é o seu alvo: a suficiência e a exclusividade de Jesus Cristo como sustentáculo da "verdadeira religião" e, consequentemente, de toda a existência. Dessa maneira, qualquer estrutura, hábito, tradição, pensamento, crença e/ou modus vivendi que não fosse segundo Cristo mas conforme "os rudimentos do mundo" ou "a imaginação dos homens" (vide Colossenses 2) deveria ser, obrigatoriamente, subvertido(a). Tal "subversão" acabou acontecendo, mas não sem muitas tensões e disputas acirradas, nem sem guerras e/ou perseguições religiosas, as quais exigiriam coragem e sacrifício de todos os que passariam a professar a "nova fé (re)nascente", cujo testemunho implicaria, para muitos, o ódio mortal de seus opositores e, como resultado, o ostracismo forçado, o banimento social e, finalmente, o martírio, de modo que o sangue vertido seria como o "derradeiro verso" de um "poema de fidelidade", como se pode perceber na seguinte inscrição presente na Catedral de Notre-Dame de Paris: 

"...Puisse mon sang être le dernier versé..."
ou
"...Que meu sangue seja o último a ser derramado...".

Nesse caso, embora a declaração anterior tenha sido feita pelo arcebispo Denys Affre (i.e., um católico), assassinado durante um processo revolucionário na França em 1848 - o que é bastante irônico, pois nesse mesmo ano Karl Marx publicaria o "Manifesto Comunista" -, sua mensagem reflete de modo apropriado todas as atrocidades que os protestantes tiveram de suportar a partir do séc. XVI em razão da hostilidade dos próprios católicos (e.g., a Noite de São Bartolomeu em 1572; a perseguição implementada pela "Bloody Mary", a "rainha britânica sanguinária" etc.) em diversos países da Europa como França e Inglaterra, além de Escócia, Itália, Espanha, Alemanha, Bélgica, Países Baixos etc.. Essa constatação prova, de forma inequívoca, que a impiedade é a marca registrada de qualquer ser humano que não vive de acordo com Cristo (ou melhor, de todo aquele em quem Cristo não vive) - seja daqueles que se mostram notoriamente ímpios, seja daqueles que possuem apenas uma "aparência de piedade, mas negam-lhe o poder" (vide 2 Timóteo 3, vs. 5a). Quanto aos últimos, diz o apóstolo Paulo, "...afaste-se também destes..." (vs. 5b). 

Diante disso, deve-se salientar que os segmentos que constituíram a Reforma não buscaram, a priori, um afastamento total da igreja oficialmente instituída, mas a sua "purificação" moral, litúrgica e doutrinária (conforme já acontecera nos movimentos que a tinham precedido). Entretanto, não foi necessário que Lutero e os demais reformadores obedecessem ativamente ao mandamento de Paulo a Timóteo, tendo em vista que a "Igreja Romana" se encarregaria das "excomunhões dos novos hereges". Ou seja, semelhantemente ao episódio da destruição do Um Anel em O Senhor dos Anéis, o estabelecimento da Reforma e a consolidação de comunidades cristãs separadas da corrupção do romanismo seria, acima de tudo, "um triunfo da Providência", assim como Frodo não teria conseguido "cumprir a sua missão" sem a "ajuda inusitada" de Sméagol/Gollum - o qual se tornaria, de modo surpreendente, o "heróico anti-herói" da saga da Terra Média. 


Contudo, você pode/deve estar se perguntando: de que forma todos esses relatos e comparações influenciariam a nossa vida prática hoje
Quais frutos poderiam surgir em nossa realidade a partir do conhecimento desses eventos? E em que sentido o legado da Reforma deveria nos impulsionar a agir no mundo para que este tenha o seu "turning point" e seja subvertido "de baixo para cima"? 

Permaneça apenas mais um pouco e você descobrirá. 

Infelizmente, é razoável afirmar que a geração atual é a mais fraca, covarde e "emasculada" de toda a história, a tal ponto de gloriar-se de sua "frescura sofisticada" e de demonizar qualquer vestígio de força, sobriedade, austeridade e convicção que odeia enxergar nos outros. Logo, apesar de que essas qualidades possam ser vistas em qualquer ser humano de bom caráter, elas são próprias de homens de bom caráter, evidenciando que a degeneração que caracteriza a nossa humanidade reflete, de modo particular, uma decadência da masculinidade - ou mesmo uma guerra contra ela. Essa "revolução misândrica" (e.g., revolta generalizada contra os homens e tudo o que é masculino) atingiu a sociedade de modo abrangente e contaminou o modo de pensar de diferentes tipos de pessoas em toda parte - negros e brancos, ricos e pobres, instruídos e analfabetos, americanos e brasileiros, religiosos e céticos etc. -, embora os países de cultura ocidental estejam sendo mais gravemente devastados por essa "subversão social". Nesse contexto, é fundamental esclarecer que essa subversão tem sido exitosa sobretudo em razão da omissão da comunidade cristã que, em lugar de "...condenar as obras infrutíferas das trevas..." (vide Efésios 5, vs. 11) ao agir como "sal da terra e luz do mundo" (vide Mateus 5, vs. 13-16), têm preferido "se esconder dos conflitos para evitar se indispor com o mundo" ou, na pior das hipóteses, já tem abandonado a identidade cristã que dizia possuir para assumir a sua provável verdadeira natureza: o joio semeado no meio do trigo, cujo semeador é o diabo (vide Mateus 13, vs. 38-39). 

Diante disso, conclui-se que a Reforma Protestante jamais teria acontecido se os homens cristãos do passado não "tivessem sido fortes" ou "se portado varonilmente" (i.e., agido como homens, conforme 1 Coríntios 16, vs. 13), de modo que o "turning point" mais importante da história religiosa do Ocidente deve ser reconhecido, em certo sentido, como resultado de uma "masculinidade verdadeiramente masculina" - ou melhor, uma "masculinidade de acordo com a estatura de Cristo", o Homem perfeito. Em outras palavras, se os valdenses, Wycliffe e os lolardos, Huss, Lutero, Calvino, Cranmer, Latimer, Knox, Beza, Farel, Guido de Brès e tantos outros fossem todos "malakoi" (e.g., do hebraico, como diria o Nelipe Feto), dificilmente saberíamos que "somente as Escrituras" são a autoridade final em termos de fé e conduta, que "somente Cristo" é mediador entre Deus e os homens, que "somente a fé" é necessária para a justificação, que "somente a graça de Deus pode salvar eficazmente o pecador" e que, por tudo isso, "somente a Deus" devem ser dadas glória e honra e nunca a homens, instituições ou quaisquer ídolos inúteis. Ou seja, onde não há "homens homens" (como vemos no comercial do desodorante Old Spice), o que resta é tão-somente escravidão, ignorância e perdição moral e espiritual


Assim, como já foi dito, nossa situação atual não é tão diferente dos dias dos reformadores, pois, embora não haja atualmente uma hegemonia religiosa similar à da igreja romana na Europa à época (com exceção dos países de maioria cristã ortodoxa e de domínio otomano, neste caso), nota-se a presença dos mesmos problemas e desafios enfrentados pelos protestantes do passado, tanto externamente (e.g., a hostilidade política, a oposição de outros grupos religiosos etc.) quanto internamente (tolerância com falsos ensinos e falsos mestres, o comprometimento doutrinário a fim de agradar a sociedade etc.). 

Por isso, se os cristãos de hoje desejam experimentar um "novo turning point" análogo à Reforma (ainda que não venha a ter o mesmo alcance), é necessário imitar, com intrepidez e convicção, o exemplo daqueles que "viraram o mundo medieval civilizado de ponta-cabeça" para que aqueles que estavam ao seu redor redirecionassem o seu olhar "downside up" (port., "de baixo para cima"), tendo em vista que a "forma de religiosidade" vigente era um emblema do que Agostinho de Hipona (e o próprio Lutero) chamariam de "incurvatus in se" (lat., "curvada sobre si") - a saber, uma suposta devoção a Deus baseada teoricamente numa "sinergia entre a graça divina e a cooperação humana" que, de modo prático, consistia sobretudo em costumes vazios, em preceitos puramente humanos e na fé em si mesmo e suas "boas obras". Logo, o "turning the point downside up" é um convite ao abandono de todas as tentativas humanas de manipular a Deus "conforme a nossa própria imagem e semelhança" a fim de receber somente Dele a revelação de quem Ele é, de quem nós somos, de como Ele administra os Seus desígnios e de como devemos reagir a tudo isso. Isto é, toda falsa religião deve ser "lançada fora, ao fogo" (incluindo o Romanismo e as demais "ideologias" e "utopias políticas") e apenas a "religião pura e imaculada para com Deus, o Pai" (nas palavras de Tiago) deve ser recebida, a qual é legitimamente católica e apostólica, porém jamais romana

Desse modo essa firmeza de fé, que pode ser sintetizada no moto "Fides Reformata et Semper Reformanda Est Secundum Verbum Dei" (lat. e port.; "Fé reformada sempre se reformando segundo a Palavra de Deus"), também deve se manifestar de modo público e, como resultado, terá de ser provada em meio ao ódio do mundo, bem como ao desprezo dos "falsamente piedosos", aos ardis de satanás e às fraquezas remanescentes naqueles que a possuem. Logo, por mais que muitos dos que professam a fé evangélica não se vinculem ao protestantismo histórico (na verdade, possivelmente os "reformados de facto" sejam a minoria), todos os que genuinamente pertencem a Jesus Cristo precisam/precisarão tomar para si o mandato divino de "...combater o bom combate da fé..." (vide 1 Timóteo 6, vs. 12) em todas as trincheiras, mesmo que sejamos "assassinados com um tiro fatal no pescoço num campus universitário", massacrados aos milhares e odiados pelo mundo por usarmos uma estrela de 6 pontas em bandeiras, tatuagens e correntes, alvos de um "genocídio velado" perpetrado por "bárbaros" seguidores da "religião dos lobos solitários com problemas mentais" ou caluniados como os "grandes culpados de todos os males do mundo". Ora, o tempo de agirmos como "ursinhos carinhosos acovardados" acabou e, por isso, "...sejamos fortes e sejamos homens..." (ver 1 Reis 2, vs. 2), já que "frescura" é coisa de bebida cítrica ou de sorvete de frutas


Por tudo isso, pode-se resumir esse texto (um texto longo, sem dúvidas) na seguinte sentença: se Deus levantou homens fiéis a Ele e cheios de coragem para "subverterem o mundo ao virá-lo de baixo para cima" através da defesa incansável da "Verdade de todas as verdades" ao ponto de morrerem por ela (ou por Ele) em razão da Reforma Protestante, não podemos esperar qualquer reversão da situação calamitosa atual a menos que nos portemos como homens fiéis a Deus e tenhamos a coragem necessária para fazermos o mesmo que os reformadores e seus antecessores/sucessores fizeram. Ou seja, o discipulado cristão nunca foi, não é e nem será apenas a identificação com um discurso emocionalmente atraente e intelectualmente estimulante, mas a assimilação prática da fé em Jesus Cristo - ou, melhor do que isso, é a "...vida do próprio Cristo manifestada em nosso corpo mortal..." (vide 2 Coríntios 4, vs. 11), a qual será inevitavelmente vista em todos os locais onde houver alguém que verdadeiramente segue/siga a Cristo, visto que "...não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte..." (vide Mateus 5, vs. 14). 

Tal atitude produzirá, sem dúvidas, somente dois resultados: a aceitação ou a rejeição, a ou a incredulidade, a adoração a Deus ou a obstinação diante Dele. Portanto, sabendo-se que é Deus quem "transporta o homem do domínio das trevas para o reino de Seu Filho amado" mediante a obra do Espírito Santo, que "...convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo..." (vide Colossenses 1, vs. 13 e João 16, vs. 8), o dever dos seguidores de Cristo ou de cada "protex" - cuja fé é "saudável e protegida", purificada de toda superstição e heresia - é testemunhar acerca Dele, pois é Ele quem "atrai os pecadores a Si na medida em que é levantado" ante os olhos deles (e.g., João 12, vs. 32). Desse modo, se porventura vierem "tempos de refrigério" no meio desses dias maus em que estamos, estejamos cientes de que eles vêm "...da presença do Senhor..." (ver Atos 3, vs. 20) e atribuamos a Ele toda a glória por Seus benefícios - ou, como dissera Lutero sobre a Reforma e o enfraquecimento do papado: "...eu não fiz nada; [...] a Palavra de Deus fez tudo..."


Mas e quanto a você? 
Está satisfeito com a sua vida ou acredita que ela precisa de um "ponto de virada"?

Você é daqueles que comemora a morte de inocentes por "divergências políticas" fazendo vídeos sórdidos (comportando-se como um endemoninhado) ou ainda conserva algum senso de humanidade e de amor ao próximo? 

Por outro lado, você é um "cristão professo" que tem vivido uma vida apática e de conformismo com o mal? Se sim, até quando permanecerá em sua covardia sem ao menos se indignar interiormente diante da prevalência da iniquidade no mundo? 

Finalmente,  se você acha que a sua vida precisa ser "virada de ponta-cabeça", para qual direção o seu olhar está voltado? Para si mesmo (onde há somente incertezas, insatisfação e impotência - por mais forte que você se sinta ou acredite ser) ou para Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, o Qual veio dos céus por nós e nos foi dado para nossa salvação eterna e suficiente? 




Pela alegria de ter vivido um "turning point" eterno,




Non nobis Domine, sed nomini Tuo da gloriam! 
Soli Deo Gloria!

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Sobre preços altos, pecados e a Vida "vivida outra vez"...

Após alguns meses de ausência, estamos de volta por aqui.

Diferentemente do texto anterior, esse deverá ser mais extenso - pois creio ter mais a escrever agora! - e, por isso, peço aos poucos leitores que tenham comigo a paciência que (ainda) me falta

Logo, sem perda de tempo, vamos ao que interessa - mesmo que não seja a muita gente! 


Esse texto pretende ser um "mosaico" baseado nos seguintes temas: 1) uma breve abordagem do momento atual do Brasil, onde o "preço de quase tudo" está "alto demais" (o nosso café de cada dia que o diga!), incluindo 2) breves comentários de trechos de uma música chamada "O Preço" (da banda de rock Engenheiros do Hawaii), de tal modo a fazer conexões com certas situações (no mínimo!) lamentáveis envolvendo o meio cristão e, finalmente, com a época do ano em que estamos - a saber, a Quaresma e a Páscoa. Isto dito, que "tudo dê certo" no final, assim como aconteceu com o Corinthians nas palavras de seu camisa 8, o argentino Rodrigo Garro - a propósito, "gracias por ser diferente, hermano"!


Primeiramente, com relação à realidade presente do Brasil, dentre os incontáveis problemas existentes - p. ex., a tirania do poder judiciário contra cidadãos inocentes em conluio com comunistas e elites internacionais, a decadência intelectual, ética e espiritual do "brasileiro médio" (incluindo os que, curiosamente, ocupam a "classe falante" ou dos "formadores de opinião"), a "quasi-onipresença" do crime organizado como um "poder paralelo" (paralelo ou aliado?) ao governo etc. -, um se tornou mais evidente: a desordem fiscal e o aumento do custo de vida para o povo, em níveis piores até mesmo em relação ao período da famigerada "pandemia". Dos ovos ao arroz, do azeite de oliva ao café ou das frutas à carne vermelha (basta lembrarmos que "a picanha virou abóbora" em poucos meses), o que se vê é que "tudo está mais caro", a tal ponto que os brasileiros, com seu humor característico, têm buscado "zombar de seu próprio infortúnio" através de piadas e memes nos quais o café é um "símbolo de ostentação" e a abóbora "vai para o espeto" como o "prato principal" do churrasco com os amigos. 

Se pensarmos de modo honesto, é preciso admitir que "determinados preços" que podem ser "altos" para alguns podem ser "baixos" para outros - o que não anula a gravidade da situação econômica do país em questão, visto que o ideal é que uma nação seja próspera a fim de que a pobreza e a miséria sejam reduzidas. Entretanto, essa dinâmica é diretamente afetada pelas ações concretas daqueles que ocupam o poder e, por isso, a depender de quais objetivos estejam em jogo, o país será mais livre e rico ou, ao contrário, será mais carente (ou mesmo miserável) e sem liberdade. Infelizmente, no caso do Brasil, quem possui o mínimo de sensatez e (acima de tudo) de vergonha na cara sabe muito bem quais são os interesses dos "poderosos" (tanto nacionais como internacionais), de tal maneira que a seguinte (pará)frase atribuída a Nietzsche é como uma "mão na luva", a qual diz: "...só se vence aquilo que se substitui...". Assim, sem a "substituição" desses "maus poderosos" por homens íntegros e capazes, não se pode esperar por nenhuma mudança - a não ser para pior. 

Mudando um pouco de assunto, o que os "preços altos" da cesta básica do Brasil, agravados por políticas econômicas irresponsáveis/criminosas e por uma carga tributária abusiva e progressiva (ou seria progressista?), teriam a ver com os Engenheiros do Hawaii, com "tretas" do contexto dito "cristão" e com as estações litúrgicas da Quaresma e da Páscoa? Se você não ler até o fim, você jamais saberá! Portanto, "keep going and stand with us"! 


Portanto, com respeito aos "engenheiros", os versos iniciais da música "O Preço" dizem:

"...O preço que se paga, às vezes, é alto demais
É alta madrugada, já é tarde demais
Pra pedir perdão
Pra fingir que não foi mal..."

Assim, diferentemente do caso anterior, o "preço alto" mencionado na canção não se refere a itens de subsistência, mas a perdas sofridas numa determinada relação (possivelmente amorosa), uma vez que existe um tom de lamento expresso na frase "...já é tarde demais para pedir perdão..." - o que aponta para um mal que não pode ser "apagado" ou remediado. Contudo, tanto com respeito à "cesta básica" do brasileiro quanto com relação às desilusões com outras pessoas, algo se repete: o 'consumidor' e o 'compositor' assumem um custo acima de suas condições individuais e, como bem sabemos, quem acaba por pagar "mais do que pode" sofrerá, em algum momento, prejuízos com os quais não gostaria de lidar

Nesse sentido, não são apenas as relações amorosas, tão comuns nos versos dos poetas e nos romances, que são marcadas, muitas vezes, por danos irreparáveis e/ou males irremediáveis. Numa breve digressão, é preciso destacar que, embora inimizades e contendas existam "desde que o mundo é mundo", o advento das redes sociais e o acesso imediato à informação (quase que) ilimitada têm potencializado o poder devastador e pernicioso da tendência humana para o partidarismo, o "assassinato de reputação" e a desumanização dos outros "que não sejam como nós". Na verdade, todos somos suscetíveis a tais práticas e, por isso, não poderia haver advertência mais eficaz do que a denúncia contra a presença dessas coisas no ambiente onde elas jamais deveriam ser vistas (nem mesmo sob suspeita): a comunidade cristã e, em particular, o meio "protestante/reformado"


Para quem acompanha os diferentes "nichos" religiosos que se destacam na internet, embates entre 1) protestantes e católicos (e.g., romanistas) bem como 2) envolvendo "cristãos conservadores" e "cristãos progressistas" - a propósito, isso existe? - têm sido muito comuns nos últimos anos, tendo em vista o "fim da hegemonia" da esquerda sobre a cultura e a ação dos cristãos na esfera pública, as controvérsias referentes às "conversões ao catolicismo romano" e a subsequente reação apologética dos evangélicos

Entretanto, o que gostaria de salientar aqui nem se pode chamar de um "embate sério", uma vez que é tão-somente um "circo sectário de horrores", no qual "blasfeminions", "hereggianos" e demais "ortodoxos-iníquos" fingem defender a "doutrina certa" enquanto "...amaldiçoam seus semelhantes feitos à imagem de Deus..." (vide Tiago 3, vs. 9) e, mais do que isso, cometem o mesmo pecado do qual Jesus diz "...não haver perdão, nem neste mundo nem no futuro..." (vide Mateus 12, vs. 32). Ora, aquele que chama o "Espírito de Deus", o "Espírito Santo", o "Consolador", o "Espírito de Cristo", o "Espírito da Verdade" de "demônio" não é outra coisa senão um "blasfemador" e, por isso, não deve ser tratado com misericórdia, como está escrito:

"...Todo homem que amaldiçoar o seu Deus sofrerá por causa do seu pecado... Aquele que blasfemar contra o nome do Senhor certamente será morto; toda a comunidade o apedrejará..."
[Levítico 24, vs. 15-16a]

Desse modo, a "sorte" desses "pseudo-teólogos soberbinhos" da internet é que, na Igreja de Cristo, não existe uma "lei civil" como no antigo Israel - porém, se assim o fosse, eu queria ter o prazer de "atirar a primeira pedra" na boca e nos dentes de qualquer um que, em sua empáfia e arrogância, viesse a maldizer a Deus ao "confundi-Lo com o (verdadeiro) pai deles". Todavia, como Deus é mais justo e compassivo do que eu sou (e seria), a recompensa final dos blasfemadores e escarnecedores do Deus Altíssimo, o Senhor dos Exércitos, já está determinada e - graças a Deus! - não tarda. Por tudo isso, todos esses que causam vergonha e maculam a dignidade dos "cristãos reformados" com seu sectarismo malicioso e sua "aparência de piedade" ímpia receberão de Deus, o Inimigo deles e de todos os hipócritas e facciosos, o que bem merecem. De fato, esse é o tipo de gente pela qual "...não se deve orar, nem levantar clamor ou oração em seu favor..." (ver Jeremias 7, vs. 16) - a não ser que seja uma "oração imprecatória"


Por outro lado, qual seria a conexão entre todos esses tópicos e a época da Quaresma e da Páscoa? A resposta a essa pergunta começará com os seguintes versos da música "O Preço":

"...E agora eu pago os meus pecados
Por ter acreditado
Que só se vive uma vez
Pensei que era liberdade
Mas, na verdade, 
Eram as grades da prisão..."

Como se sabe, o período da Quaresma/Páscoa é de particular importância para uma grande parte da comunidade cristã no mundo e, particularmente, para católicos, ortodoxos e alguns segmentos protestantes (p. ex., luteranos e anglicanos). Assim, essa estação litúrgica está especialmente vinculada a dois dos elementos mais importantes da fé católico-romana, a saber: o "sacramento da penitência" associado à "cooperação na obra de justificação", os quais diferem radicalmente da compreensão protestante/evangélica de "vida de arrependimento" e de "responsabilidade na santificação" (distinção que não será explicada aqui). Dessa forma, o excerto mencionado mostra alguém dizendo que "...paga os seus pecados..." - o que remete à ideia de "compensação" presente nos conceitos de "penitência" e do próprio "purgatório" - por ter acreditado "...que só se vive uma vez...", de maneira que a "liberdade" para se aproveitar ao máximo a "única vida possível" era, na verdade, uma "prisão" para o poeta iludido em seu autoengano. 

Nesse contexto, não é apenas o personagem da música que está sujeito a "mentir para si mesmo" e, como resultado, ter de arcar com as consequências de mentiras que podem custar "alto demais" - seja o preço de um relacionamento quebrado, seja o de uma "vida desprezada e não vivida". Diante disso, o autoengano apresentado nestes versos é um tipo de ilusão "par excellence" comum a todos nós e, curiosamente, o "combo Quaresma + Páscoa" acaba por ser, no fim das contas, o seu (único) "antídoto", visto que os significados de ambas as estações/épocas se referem, respectivamente, à 1) identificação com Jesus Cristo, cuja vida de abnegação e sacrifício é a fonte da salvação dos que creem Nele e O seguem e 2) ao triunfo definitivo de Cristo sobre a morte com a subsequente esperança de uma (nova) vida sem fim. Portanto, em certo sentido, todos os que "acreditam que só se vive uma vez" estão "enganando a si mesmos" e, um dia, "pagarão um preço alto demais" - i.e., a eterna punição pelos pecados sob a ira de Deus - caso permaneçam em seu estado de rebelião e ignorância. Logo, a atitude de se viver "como se Deus não existisse" é, como diz a música, "uma liberdade que aprisiona", cujas "grades" só podem ser "arrancadas" por Aquele que, ao libertar alguém, "o faz verdadeiramente livre" (vide João 8, vs. 36). 


Por essa razão, é importante ressaltar que certas tradições religiosas - como a "guarda de dias, meses, tempos e anos" (ver Gálatas 4, vs. 10-11) - não são uma prescrição pertencente à prática cristã no Novo Testamento (muito embora tais elementos tenham sido ordenados por Deus ao Israel do Antigo Testamento e, portanto, não são reprováveis em si próprios), de tal maneira que, por exemplo, seguir ou não o "calendário cristão" não é uma conditio sine qua non para uma vida de piedade genuína. No entanto, caso alguém decida incluir esse "calendário" em suas disciplinas espirituais diárias ou na vida da igreja local, é imprescindível discernir com clareza quais aspectos podem/devem ser admitidos e quais devem ser rejeitados

Dessa forma, a adoção de alguns costumes (p. ex., o de se abster de carne vermelha na Quaresma e, em particular, na Semana Santa) a fim de se alcançar alguma "graça especial" da parte de Deus são inúteis - que o digam Zwínglio e seus amigos, que durante um jejum de Quaresma em 1522 defenderam a liberdade de se comer salsichas publicamente em protesto! Em contrapartida, se o uso privado ou comunitário do "calendário litúrgico" promover uma melhor compreensão das obras de Deus para salvar o Seu povo e de como isso molda a nossa compreensão de todas as outras coisas, não há pecado em se adotar essa prática. Em suma, a legítima fé cristã possui catolicidade e, ao mesmo tempo, é fundamentalmente bíblica, de sorte que nem tudo o que é "coisa de católico" é totalmente ruim - bem como as "coisas de arminianos" e de "pentecostais" -, tendo em vista que não são as tradições religiosas (incluindo as reformadas!) que definem o que procede ou não de Deus, mas é Ele quem define quais tradições são válidas e quais são descartáveis. Ora, se o cristianismo tem cerca de dois mil anos (e, particularmente, o protestantismo tem pouco mais de 500 anos, ao menos como movimento histórico), não se pode JAMAIS confundi-lo com "seitas pseudo-ortodoxas" de internet (p. ex., o "badinismo" e o "hereggianismo"), sobretudo pelo fato de que está escrito:

"...Não há árvore boa que dê fruto mau, nem árvore má que dê fruto bom.
Toda árvore é conhecida pelo seu fruto. [...]
O homem bom tira o bem do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira o mal do seu mau tesouro; pois a boca fala do que o coração está cheio..."
- Lucas 6, vs. 43, 44a e 45

Esses versos são "mais claros do que o mar das praias da Sardegna ou do Caribe" - isto é, eles querem dizer o que dizem e dizem o que querem dizer, a saber: o que fazemos e o que falamos evidencia aquilo que somos, por mais que tentemos fingir e esconder nossa maldade para os outros. Assim, se as nossas ações são ímpias e se as nossas palavras são frívolas e maliciosas, o que nos aguarda é o juízo divino, no qual "...toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo..." (vide Mateus 7, vs. 19). 


Finalmente, não há como se falar de "preço alto a ser pago" e de "Quaresma" sem se considerar mais a fundo o que será chamado aqui de "custo do discipulado" (lançando mão do título de um dos livros do pastor Jonas Madureira) - ou seja, o que seguir a Cristo requer de todos os Seus discípulos e até que ponto estamos dispostos a ir em nossa devoção e obediência a Ele. Mas qual seria a relação entre essas coisas? E onde os Engenheiros do Hawaii e a Páscoa entrariam nisso? Continuem firmes na leitura, pois "...se depender de mim, vocês irão até o fim..."! 

Considerando o que já foi dito sobre o "ethos da Quaresma", as seguintes palavras são mais do que pertinentes:

 "...Se alguém vem a Mim e não Me ama mais do que ama o seu pai, a sua mãe, a sua mulher, os seus filhos, os seus irmãos, as suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser Meu discípulo
E quem não tomar a sua cruz e (não) vier após mim não pode ser Meu discípulo..."
(Evangelho segundo Lucas, cap. 14, vs. 26-27)

Estas palavras de Jesus são tão autoexplicativas que não é preciso acrescentar nada a elas. Ou seja, o que este texto ensina é que ninguém deve ser mais (e nem melhor) amado pelos seres humanos do que Cristo e, nesse sentido, esse amor implica preferir a Cristo a qualquer outra coisa ou pessoa - incluindo aquelas que nos são mais preciosas. No mais, nota-se que essa "vida" de devoção e amor significa "morte", pois todos os que O seguem devem "tomar a própria cruz", cuja imagem comunica/expressa abnegação e humilhação "até as últimas consequências". Portanto, talvez ninguém resumiu melhor essa ideia do que o teólogo/pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, quando afirmou: "...quando Cristo chama um homem, Ele o convida a vir e morrer...". 

Para reforçar a realidade do "custo do discipulado", Jesus acrescenta duas ilustrações: 1) um homem que deseja edificar uma torre e faz todos os cálculos necessários antes de iniciar a construção e 2) um rei que, ao vislumbrar um conflito contra um exército duas vezes maior, avalia se pode enfrentá-lo ou se é melhor adotar uma "solução diplomática". Dessa maneira, caso o construtor não soubesse o real custo de seu empreendimento, ele não concluiria a obra e teria de enfrentar a zombaria dos outros e, com respeito ao rei, pode-se afirmar que sua obstinação em ir a uma guerra sem recursos suficientes provavelmente o conduziria à ruína. Por tudo isso, ser um verdadeiro discípulo de Cristo é uma dádiva divina mas, ao mesmo tempo, custa tudo, de modo que todos os que querem trilhar esse caminho devem estar cientes do "preço alto a ser pago"


É necessário ressaltar, porém, que o "custo do discipulado" não se refere, em nenhum aspecto, a méritos para aquisição (ou manutenção) da salvação - a qual é obra exclusiva de Deus, por Sua graça somente e em Cristo somente -, mas à manifestação da "vida de Cristo" naqueles pelos quais Ele morreu e que igualmente morreram com Ele, o que é simbolizado no batismo (por imersão e somente de crentes professos, é claro! - vide Romanos 6, vs. 4 e 2 Coríntios 4, vs. 10-11). Isto é, apenas quem já nasceu de novo e, por isso, foi convertido/converteu-se genuinamente a Deus pode ser um discípulo de Jesus Cristo e, como resultado de sua nova vida, ele tem consciência do que é requerido de um seguidor de Cristo bem como tem o poder de fazer o que lhe seria naturalmente impossível

Logo, "andar como Cristo andou" é uma característica exclusiva daqueles que "estão Nele" - ou, conforme a primeira das 95 Teses de Martinho Lutero, "...dizendo o nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, 'arrependei-vos', Ele quis que toda a vida dos fiéis fosse de [contínuo] arrependimento...". Desse modo, os que não manifestam esse "caráter arrependido" se darão conta, tarde demais, de que serão "banidos da presença de Cristo devido à prática da iniquidade" (e.g., Mateus 7, vs. 21-23) ou, semelhantemente ao personagem da música, perceberão que "haviam se enganado outra vez" e que, ao final de tudo, lhes restará "só solidão", com muito "...choro e ranger de dentes..." (vide Mateus 8, vs. 12; cap. 13, vs. 42 e 50; cap. 22, vs. 13; cap. 24, vs. 51; cap. 25, vs. 30 etc.).  

Além disso, vale a pena relembrar que, nos dias que antecederam a morte de Jesus - e, em especial, na chamada "Semana Santa" -, ocorreram alguns episódios que envolveram "preço" ou "custo", como 1) a armadilha da (i)licitude do pagamento do imposto a César (ver Marcos 12, vs. 13-17), 2) a "oferta sacrificial" da viúva pobre em contraste com as "ofertas das sobras" dos ricos (e.g., Marcos 12, vs. 41-44)  e, sobretudo, 3) a própria traição de Jesus por Judas Iscariotes em troca de 30 moedas de prata, cujo valor viria a custar "caro demais" para o próprio Judas que, com/por remorso, acabaria por tirar a própria vida (vide Mateus 27, vs. 3-5 e Atos dos Apóstolos 1, vs. 16-18). Assim, todos esses "preços" anteriormente citados podem servir para salientar o fato de que "outro preço", mais alto do que qualquer outro antes ou depois dele, estava para ser pago por Alguém que fora vendido "por um dos seus escolhidos" pelo valor usual de um escravo - como o fora José pelos seus irmãos, que o venderam por 20 moedas de prata -, o que reitera a extensão da humilhação de Cristo em prol da redenção de todos os que Lhe pertencem. 

Entretanto, uma pergunta permanece: em que momento a Páscoa entra nessa história? Permaneça aqui e você verá!


A Páscoa, como sabemos, é uma das comemorações religiosas mais importantes da história, uma vez que une, em diversos aspectos, cristãos e judeus - embora também haja diferenças substanciais entre os modos como ambos a celebram. Suas raízes remontam ao período por volta dos séculos XV-XIV a.C. (durante o êxodo do povo hebreu do Egito após uma longa e cruel escravidão) e seu significado aponta para a intervenção divina em favor da futura nação de Israel, a qual foi poupada durante a "morte dos primogênitos" por ocasião da "passagem" do Anjo Destruidor "para além/por cima" das casas marcadas com o "sangue do cordeiro". Assim, a Páscoa (heb. "Pessach" - port. "passar por cima, passar para além de") recorda a libertação do povo escolhido por Deus para herdar a "Terra Prometida" e, devido à sua tamanha importância, deveria ser festejada por todo o povo de Israel "como um estatuto perpétuo"

Por outro lado, a Páscoa no Cristianismo adquire um significado mais abrangente, pois ela tanto reflete elementos presentes na celebração judaica (p. ex., a noção de libertação, a imagem de um "cordeiro sacrificado" etc.) quanto amplia o seu alcance, uma vez que não seria mais necessário "sacrificar cordeiros" após a ocorrência de um "sacrifício definitivo", pelo qual não apenas israelitas seriam libertados de uma escravidão social mas "homens de toda tribo, língua, povo e nação" seriam redimidos de uma escravidão espiritual (Apocalipse 5, vs. 9-10) e, no fim, toda a Criação viesse/venha a ser resgatada de sua própria decadência (vide Romanos 8, vs. 19-23). Dessa forma, a "páscoa cristã" está centrada em "promessas melhores", pelas quais a herança de "uma terra que mana leite e mel" se torna a herança dos "novos céus e nova terra", cujo fundamento está na pessoa de Jesus Cristo, o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo", e a Sua obra redentora

Nesse ínterim, quando o compositor de "O Preço" fala sobre "pagar os pecados por se ter acreditado que só se vive uma vez", pode-se ver uma "menção indireta" à Páscoa, tendo em vista que o seu clímax não é (nem mesmo) a morte de Cristo como o "cordeiro pascal", mas a sua ressurreição - a qual testifica, de modo inequívoco, que "viver outra vez" não é só possível, porém factível, concreto e real. A esse respeito, vale citar as contundentes palavras do apóstolo Paulo:

"...Se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou
E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação e também é vã a fé de vocês
[...] E, se Cristo não ressuscitou... vocês ainda permanecem em seus pecados,
E também os que morreram em Cristo estão perdidos.
Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. 
Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que morreram..."
(1a Epístola aos Coríntios 15, vs. 14-15, 17-20) 


Semelhantemente às palavras de Jesus sobre o "preço do discipulado", o trecho acima é "tão claro quanto a luz do meio-dia" e nos mostra, antes de tudo, que "a ressurreição de mortos" é uma realidade incontestável provada pela ressurreição do próprio Jesus, pois "...se os mortos não ressuscitassem, nem Cristo teria ressuscitado...". Consequentemente, se a ressurreição de Cristo não fosse um fato, todo o edifício do Cristianismo desmoronaria, posto que sem ela "a pregação cristã seria inútil bem como a fé professada nela" e, como resultado, os "crentes" vivos ainda "permaneceriam em seus pecados" - isto é, eles não teriam sido perdoados - e os que já morreram "já estão perdidos", de modo que "seríamos os mais miseráveis de todos os homens". 

Diante de declarações tão aterradoras, a única conclusão razoável é que a ressurreição de Jesus é o sustentáculo supremo da fé cristã, a qual só faz sentido porque Jesus também morreu e foi sepultado - o que, obviamente, não teria acontecido se não houvesse a Encarnação. Ou seja, a "história da redenção" é como uma "obra de tapeçaria", onde os traçados e fios estão devidamente entrelaçados, dentre os quais podemos destacar três momentos: o Natal (a história do "Verbo se fazendo carne/pessoa"), a Semana Santa (os dias que relatam a morte do Filho de Deus) e a Páscoa (a celebração do Messias vitorioso sobre a morte e todos os Seus demais inimigos). Desse modo, os Engenheiros do Hawaii poderiam ser considerados, ainda que de forma pitoresca e até despretensiosa, os "Evangelistas do Hawaii", pois a realidade é que, em última análise, "quem não acredita que não se vive mais de uma vez" vai, inevitavelmente, "pagar pelos próprios pecados" - mas com uma grande diferença: tal preço será "alto demais", tão alto ao ponto de que não haverá como quitá-lo, nem mesmo durante toda uma eternidade. 

Logo, se não desejamos arcar com esse "custo" incalculável, a única alternativa é confessar todos os nossos "crimes inafiançáveis" e "pecados hediondos" - p. ex., soberba espiritual e "vaidade virtual", espírito contencioso e maledicência, blasfêmias e impropérios, mentira e incredulidade etc. - enquanto direcionamos nosso olhar para Aquele "que deixou a segurança de Seu mundo por amor" (como diz outra canção de rock) para assumir a nossa natureza e, assim, humilhar-Se até a morte e morte de cruz (ver Filipenses 2, vs. 6-8), mediante a qual "...o escrito de dívida que nos era contrário foi cancelado..." (vide Colossenses 2, vs. 14) e "...principados e potestades foram despojados e feitos um espetáculo público..." (e.g., vs. 15). Em suma, Cristo já "pagou o alto preço" que nenhum de nós poderia, restando-nos apenas depositar nossa confiança inteira e exclusivamente Nele para que sejamos redimidos de nossos pecados, dos outros males decorrentes dele - seja a culpa e a condenação, a sua influência e poder e, finalmente, a sua presença - e, por fim, derrotar todos os nossos adversários. Por tudo isso, a síntese de todo esse argumento é esta: Cristo é a nossa Páscoa (ver 1 Coríntios 5, vs. 7). 


Portanto, ainda que não seja tão famoso quanto os Engenheiros do Hawaii, eu me atrevo a endossar o que eles, provavelmente sem intenção, acabaram por expressar, visto que, se todos nós pudéssemos "viver só uma única vez", aqueles que reconhecem/proclamam a Páscoa como a celebração da ressurreição de Jesus Cristo seriam mentirosas e, consequentemente, o próprio Deus igualmente o seria, pois estaríamos "...testemunhando contra Ele que Cristo ressuscitou dentre os mortos, embora os mortos não ressuscitem..." (1 Coríntios 15, vs. 16). Entretanto, considerando que já existem muitos "lobos em pele de cordeiro" ultrajando a glória de Deus com suas blasfêmias, picuinhas, maledicências e palavras arrogantes (sobretudo no "tribunal da internet", onde todos somente "julgam e cancelam", nos quais tanto os "dons" quanto o "fruto do Espírito" parecem ter "cessado" - se é que um dia existiram!), eu apenas desejo ser o que diz o título de certo livro do escritor/teólogo Micheal Horton: simplesmente um crente, cuja vida seja um testemunho de que "cada um de nós não é nada" mas somente "Cristo é tudo em todos".  

Diante de tudo isso, fica a pergunta: como você "passará" por essa Páscoa?

Caso você se veja como um "seguidor de Jesus Cristo", você entendeu que "foi chamado para ir e morrer" ou, como os construtores da torre de Babel, vive para "fazer um nome para si" - seja virtualmente, seja "presencialmente"? 

Nesse sentido, você já calculou o preço de "trilhar o caminho da cruz" ou, ao contrário, acredita que ignorar o "custo do discipulado" não te custará muito mais no fim da jornada da vida?

Por outro lado, se você é daqueles que "vive como se Deus não existisse" ou mesmo é um "religioso social", quando se dará conta do fato de que as boas tradições cristãs não são "costumes vazios" mas holofotes para a "Grande História" - i.e., a história de Deus e de Seu Filho?

Finalmente, o que você fará com o "preço alto demais" pago pelo "Deus que se fez homem" numa semana como esta? Agirá com desprezo e ignorará o terrível fim que aguarda a todos que assim procedem ou, arrependido, receberá a dádiva gratuita da "vida sem fim" conquistada por Ele?


Pela alegria de ter sido "comprado por um alto preço",




Soli Deo Gloria!