domingo, 29 de março de 2020

L.O.L or "Lent onto lockdown"...

Eis que retorno aqui mais uma vez.

Como todos estão bem cientes, uma boa parte do mundo está de "quarentena" devido às questões relacionadas ao novo coronavírus chinês - não vou entrar em quaisquer méritos sobre o que é verdade ou desinformação a esse respeito e nem discutir demasiado a respeito das reais conseqüências desse fenômeno [seja na saúde, seja na estabilidade econômica] - e, portanto, estamos basicamente reclusos em nossas casas.

Por isso, tenho tido mais tempo para ler, estudar outros assuntos distintos de minhas atribuições acadêmicas e, conseqüentemente, de refletir sobre esse momento atual em que estamos inseridos. Espero, portanto [como sempre expresso aqui], ser bem-sucedido em mais uma postagem. 

Curiosidade. A origem da quarentena na cidade de Veneza

Inicialmente, o título desse texto expressa um trocadilho do acróstico inglês L.O.L (i.e, "Laughing out loud", o que em português seria algo como "rindo muito alto") e o seu título real, que é "Lent onto lockdown" ou "Quaresma para a quarentena", dado o fato da coincidência do início desse período de isolamento social com essa estação do Calendário Litúrgico cristão. No entanto, esse texto não será ou pretende ser divertido, visto que tratará de coisas que demandam uma solene seriedade. 

A origem da "quarentena" remonta à Idade Média (mais precisamente, aos séculos XIV e XV) e se deu na Itália (região de Veneza), num contexto de uma sequência de pestes que ocorreram na Dalmácia - atual região da Península Balcânica (Croácia, Eslovênia, Sérvia etc.). Nesse caso, os viajantes que chegavam nos portos e que vinham dessas áreas atingidas eram colocados sob reclusão e afastados dos demais por um período de, por exemplo, quarenta dias - daí o nome "quarentena" ou "quarantena" (em italiano ou no dialeto vêneto). Essa técnica se tornou, dessa maneira, uma alternativa útil para o combate ou contenção de epidemias/pandemias desde essa época, a qual permanece sendo aplicada em nossos dias [como temos vivenciado]. 

Por outro lado, a Quaresma se refere ao período de quarenta dias - da Quarta-Feira de Cinzas até o início da Semana Santa, antecedendo a Páscoa - e tem sua origem na expressão latina <<Quadragesima Dies>> ou "Quadragésimo Dia". A Quaresma é uma estação  litúrgica observada por católicos romanos e por grupos de outras tradições [a exemplo dos luteranos, cristãos ortodoxos e anglicanos], e se caracteriza pela ênfase na penitência e na preparação para seguir os passos de Jesus Cristo na Sua tentação, Seu sofrimento até chegar à cruz. Desse modo, procura-se considerar o pecado e a morte como realidades inescapáveis da existência humana, a fim de se avaliar as limitações  e falhas inerentes ao ser humano, tanto diante da eternidade quanto do próprio Deus. Curiosamente, a Quaresma desse ano está sendo acompanhada de uma "quarentena inesperada e abrangente", na qual temos ainda mais motivos para reconhecer a realidade árdua que nos cerca - vírus desconhecido, muitas mortes, caos sócio-econômico, incertezas, pânico, insegurança etc. -, o que confirma as palavras do apóstolo Paulo de que "...a forma presente deste mundo está passando..." [1 Coríntios 7, vs. 31] e também dos Salmos, onde lemos que Deus "...reduz o homem ao pó e diz: voltem, filhos dos homens!..." [Salmo 90, vs. 3].

Quaresma, o que é? Origem e significado do período

Feitas essas observações, a pergunta que procurarei responder - ou, ao menos, esclarecer dentro do possível - é: quais lições podemos aprender a partir da "aparente coincidência" entre o período quaresmal desse ano com a quarentena? 

Em outras palavras, quais as razões para se refletir a respeito de "Lent onto lockdown"?

No tocante à quarentena, sabe-se que ela tem sido aplicada de formas diferentes, sendo localizada ou parcial em alguns lugares (dando prioridade aos grupos de risco e aos que já contraíram o vírus e necessitam de tratamento) e, em outros locais (na maioria dos casos), mais abrangente e irrestrita - ou seja, isolamento vertical e horizontal, respectivamente. De maneira geral, em virtude do modo pelo qual as notícias têm sido divulgadas nos principais veículos de comunicação [o que chamarei aqui de "mídia mainstream"], uma grande parte dos países do mundo tem adotado o modo de "quarentena total", o que tem acarretado a interdição de atividades acadêmicas, culturais, de lazer e até mesmo algumas mais indispensáveis, a exemplo do transporte de alimentos para os mercados, setores de transações econômicas (como casas lotéricas, onde se pagam as contas do mês e muitas pessoas mais carentes recebem o dinheiro para o sustento da família) e certas fábricas ou indústrias. Dessa forma, pode-se notar que [para o bem ou para o mal, seja como for] a propaganda feita pela mídia mainstream exerce um poder avassalador sobre o comportamento humano, seja daqueles que estão investidos de autoridade sobre nações e povos (os quais, obviamente, podem também ser aliados dos mesmos propagandistas ou os seus promotores) bem como da população em geral que, num processo quase que "coercitivamente natural", adota as orientações dadas por essas autoridades - independentemente se tais diretrizes são boas ou ruins, verdadeiras ou mentirosas. 

Nesse sentido, vale ressaltar algo muito importante: situações complexas, em que se faz necessário elaborar/tomar decisões arriscadas [quaisquer que sejam], não devem ser avaliadas sem o mínimo de honestidade intelectual e de sobriedade. Particularmente no contexto brasileiro desses últimos dias, o que tenho visto é uma avalanche de opiniões estúpidas, estapafúrdias, histéricas, infantis e passionais [até de pessoas bem-intencionadas e de bom coração/caráter, e isso de todos os "lados" ou "âmbitos" das visões políticas] entre as quais se vêem raros lampejos de maior sensatez e de busca pela verdade. Como já dissera no início, não tenho por objetivo defender ou fazer apologia de alguma perspectiva em específico, mas apenas salientar a realidade de que, como dissera o sábio Salomão, "...o tolo não tem prazer no entendimento, mas sim em expor os seus pensamentos..." [Provérbios 18, vs. 2], o que poderia ser auspiciosamente parafraseado como "...o idiota não se importa em aprender as coisas como elas são, mas sim em postar textões no Facebook, status no WhatsApp, stories no Instagram e frases imbecis no Twitter..." pois, como lemos no Sermão do Monte, os que buscam "ser vistos e glorificados pelos homens já recebem destes a sua recompensa", contudo nada receberão do Pai "que vê em secreto". Na verdade, os que dizem ou se consideram mais esclarecidos [especialmente aqueles que não querem ser "rotulados" ou "estigmatizados", posto que são "superiores"] devem dar exemplo e mostrar que realmente são instruídos e, portanto, capazes de auxiliar os seus semelhantes, a fim de irem além de verborragias inúteis para produzirem bons frutos. 

Filosofando: A Busca da Verdade 

Por outro lado, existe um aspecto ainda mais essencial do que o discutido no parágrafo anterior [falo mais diretamente aos cristãos]: nós - digo "nós" porque também sou um cristão - precisamos parar, imediatamente, de vomitar nossa estultícia e burrice nas redes sociais em troca de likes e/ou retweets para, em contrapartida, começarmos a chorar. Ora, se nos julgamos cristãos, confessamos que temos a Bíblia como nossa autoridade última em matéria de fé e conduta - o "Sola Scriptura" não é apenas um "slogan legal" a ser usado a cada 31 de outubro, não é? Conseqüentemente, se lermos as Escrituras com o mínimo de zelo razoável, perceberemos que em todos os momentos em que houve calamidade e desolação [particularmente com o povo de Israel no Antigo Testamento], aqueles que fielmente temiam e serviam a Deus foram impelidos por Ele ao arrependimento de pecados, ao lamento, ao pranto, ao jejum e às orações e súplicas pela misericórdia divina. Apenas como exemplos, destaco o momento em que os israelitas clamaram a Deus para serem libertados da escravidão no Egito [Êxodo 2, vs. 23-25], as orações de Daniel (por causa do pecado de Israel) e de Neemias (em prol da reconstrução de Jerusalém e do retorno à Terra Prometida) - conforme Daniel 9, vs. 4-19 e Neemias 1, vs. 4-9 -, o jejum da rainha Ester em favor da preservação dos judeus na Pérsia [Ester 4, vs. 12-17], os inúmeros salmos de lamentação em que os sentimentos dos seus compositores são expostos visceralmente e, obviamente, o livro das Lamentações de Jeremias, que relata a dor do profeta pela destruição de seu povo e sua terra causada pelos caldeus/babilônicos. De fato, é mais do que pertinente mencionar um trecho do profeta Joel (capítulo 2), onde se lê:

"...Agora, porém, diz o Senhor, "convertam-se a mim de todo o coração, com jejum, lamento e pranto.
Rasguem o seu coração e não as suas vestes. Voltem-se para o Senhor, o seu Deus, pois Ele é misericordioso e compassivo, longânimo e rico em benignidade..." 
[Joel 2, vs. 12-13]

Blessed Is She's tweet - "Even now, says the LORD,⠀ return to me ...

O profeta Joel anunciou sua mensagem num ambiente de desolação e miséria social [qualquer semelhança seria mera coincidência?] - neste caso, o mal havia sido causado por pragas nas colheitas, pelas quais toda a prosperidade do povo havia sido consumida. Todavia, o que lemos nessa passagem não mostra que a vontade de Deus para seu povo era "reclamar da falta de humanidade dos governantes" nem mesmo "denunciar sua ignorância a respeito de calamidades naturais", mas sim chorar - e chorar muito. Na verdade, a ordem de Deus era não somente chorar, mas jejuar, rasgar o coração [i.e., sentir a miséria dentro de si, e não apenas do lado de fora, nas aparências] e voltar-se para Ele, o que indica claramente que aqueles que se enxergam como "povo de Deus" e que já estão com os olhos secos necessitam urgentemente de arrepender-se de seus pecados e retornarem ao caminho certo - ou seja, a Ele. Dessa maneira, vêm a calhar a citação atribuída a Leonard Ravenhill, que dissera que "...devemos nos arrepender por não vermos mais arrependimento entre nós, bem como chorar por não haver mais lágrimas em nossos olhos...", o que foi atestado em outros termos por José Ortega y Gasset na célebre frase "...quiero llorar, pero no tengo lágrimas..." e por Renato Russo na música "Índios", cuja letra termina com os versos


"...Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui...",

os quais podem, ironicamente, constituir uma descrição precisa de nosso cristianismo de "militância virtual", mas desprovido de piedade e contrição. Estamos doentes por querer "mostrar que temos razão" e não somos mais capazes de chorar as mazelas que nos cercam e, menos ainda, as nossas próprias misérias

Curiosamente, temos até usado (com certo sarcasmo) o trecho em que o apóstolo Tiago diz "...limpem as mãos, pecadores..." [Tiago 4, vs. 8] em referência a esses tempos de cuidado com a higiene e prevenção ao contágio do vírus, mas estamos desprezando completamente o resto do mesmo versículo, em que se lê "...e vocês, que são de mente dividida [ou duplo ânimo], purifiquem o coração...". Nesse nosso mundo de filtros de aplicativos de fotos e vídeos, vivemos mais do que nunca entorpecidos pelo desejo compulsivo de "parecer ser" ao invés de simplesmente "ser o que é necessário ser, mesmo que ninguém note" e, como resultado, estamos todos "ficando em casa", "usando o álcool em gel" nas mãos e seguindo as demais recomendações do Ministério da Saúde [que são muito válidas e devem ser acatadas, sem dúvida] para nos resguardar da doença ao mesmo tempo em que não estamos guardando aquilo que deve ser guardado "acima de todas as coisas", de sorte que as "fontes de nossa vida" podem estar sendo contaminadas pelo nosso pecado remanescente, cuja correnteza tem desaguado em cada post, story, status e tweet que temos compartilhado. É hora de abandonarmos nossas iniqüidades disfarçadas sob as fantasias de "preocupação com a humanidade" e de "neutralidade política" para "...sentir as nossas misérias, lamentar e chorar, convertendo o nosso riso em pranto e a nossa alegria em tristeza..." [Tiago 4, vs. 9] até que, humilhados diante do Senhor, Ele tenha compaixão de nós e nos exalte. 

Why B Mad on Twitter: "JAMES 4:9 Lament And Mourn And Weep! Let ...

Tendo isso em mente, pode-se perceber que o cerne do chamado desses profetas à compunção e ao quebrantamento em face das calamidades - como temos experimentado nessa "quarentena" - é parte essencial do espírito da "Quaresma", uma vez que esta antecede o clímax do ministério de Jesus: a Sua paixão, morte e ressurreição. Por tudo isso, não há momento mais oportuno para se exercitar a humilhação e a penitência (falo no sentido de arrependimento e lamento pelos pecados, e não de auto-flagelação ou algo similar) do que este - a "Quaresma da Quarentena"

Para isso, lançarei mão dos registros de outro profeta [ainda mais desconhecido que Joel]: Habacuque. Não se sabe muito sobre as suas origens, porém é provável que ele tenha realizado o seu ministério entre os períodos de dominação assíria e babilônica sobre o povo de Israel [sobre as tribos do norte e do sul, respectivamente]. No entanto, o que mais nos interessa para esse texto é que nas primeiras palavras do livro aparece o seguinte excerto:

"Até quando, Senhor, clamarei por socorro sem que Tu ouças?" [Habacuque 1, vs. 2]

"Até quando, Senhor?" Essa é uma pergunta carregada de significado e sentimento, pois expressa a profunda angústia e inquietação decorrente de uma situação suficientemente calamitosa para ser resolvida pela força do próprio braço. Essa mesma indagação aparece muitas vezes nos Salmos [especialmente nos penitenciais e de lamentação], como escreveu Moisés no Salmo 90:

Volta-Te, Senhor! Até quando será assim? Tem compaixão dos Teus servos! 
Alegra-nos pelos dias em que nos afligiste, pelos anos em que tanto sofremos.  
[Salmo 90, vs. 13-14]

Creio que, em ambos os contextos, tanto Moisés quanto Habacuque estavam vivenciando ou (no mínimo) refletindo a respeito de circunstâncias marcadas por intensa aflição e sofrimento - p. ex., nos cativeiros assírio e babilônico supracitados - e, diante de tais desolações, a única alternativa aceitável e viável era recorrer a Deus e à Sua benevolência. Entretanto, não se vê aqui um tipo de súplica descabida, tola ou impertinente, pois o salmista afirma que o próprio Deus os havia afligido [evidenciando a percepção da vontade soberana de Deus até sobre o mal], ainda que também manifeste a dor e a triste sensação do "abandono" e do "silêncio" divinos. Ou seja, a postura de alguém que entende que deve buscar o auxílio de Deus frente às tribulações deve combinar uma submissão consciente à Sua providência, porém sem deixar de lado a sinceridade de coração e a transparência nas palavras. 

A lament for a painful week: How long, o Lord? - RMN+ | Seeking ...

No mesmo sentido, existem outras palavras do profeta Habacuque que são ainda mais oportunas para a minha tentativa de justificar o "Lent onto Lockdown", como mostrado a seguir:

"...Senhor, ouvi falar de Tua fama; tremo diante dos Teus atos, Senhor. Realiza de novo, em nossa época, as mesmas obras, faze-as conhecidas em nosso tempo; na Tua ira, lembra-Te da misericórdia..." [Habacuque 3, vs. 2]

Esse capítulo do livro do profeta é uma oração. Ele começa reconhecendo expressamente que, ao ouvir sobre Deus e Seus feitos, foi tomado de temor e, movido por esse temor, implora que Deus "realize novamente as mesmas obras de outrora" ou, em outras traduções, que Ele "avive a Sua obra". Avivamento - eis uma palavra tão controvertida em nossos dias e tão mal-compreendida, pois normalmente associa-se esse termo com "histeria", "barulho", "confusão litúrgica" [até resultantes de manipulações psicológicas e/ou hipnóticas] ou mesmo a "engajamento social", "relevância cultural" e coisas afins. Sem entrar nesses tópicos em particular, o que quero sublinhar é que  "avivamento é algo que somente Deus pode produzir/trazer/operar" - se fosse diferente, não seria preciso orar por isso - e, destarte, não é possível desejar um avivamento genuíno sem que esse desejo seja fruto de um real conhecimento de Deus e de Suas obras pois, sem esse conhecimento, nossa tendência sempre será considerar verdadeiro o que na verdade é falso. Logo, se o "avivamento" é falso, ele não vem de Deus, mas sim daquele que é o pai da mentira - i.e., satanás, de quem lemos que "...se transfigura em anjo de luz..." [2 Coríntios 11, vs. 14]. 

Finalmente, a última porção com que gostaria de gastar as últimas linhas desse texto é o final do verso mostrado acima: "...na Tua ira, lembra-Te da misericórdia...". Deus é um Deus irado [segundo o Salmo 7, Ele "...sente indignação todos os dias..."], no entanto parece ser mais fácil se dar conta desse atributo divino em momentos de aflição ou quando entendemos que Deus repreende ou exerce juízo por causa de nossos pecados. Portanto, quando o profeta pede para que Deus "se lembre da misericórdia" mesmo em meio à Sua própria ira, ele traz um ensino único, presente apenas nas páginas da Bíblia/das Escrituras: a misericórdia de Deus e a ira de Deus são atributos que, embora se manifestem normalmente em direções opostas, podem existir [e de fato existem] paralelamente ou mesmo serem "dois lados de uma mesma moeda" - e isso tem tudo a ver com "Quaresma"

Jesus Is Nailed à cruz fotografia editorial. Ilustração de ...

Daqui a poucos dias a "Quaresma" chegará ao fim para que comece a "Semana Santa" - a semana dos últimos dias de Jesus. Nessa "estação litúrgica" atual, encoraja-se a reflexão constante a respeito da miséria humana e da morte como implicações do pecado, o qual seria posteriormente carregado pelo próprio Jesus "...em Seu corpo sobre o madeiro...", conforme as palavras do apóstolo Pedro. 

É exatamente aqui, quando dirigimos nossos pensamentos ao Cristo crucificado, que contemplamos a perfeita expressão da harmonia da ira e da misericórdia de Deus, a qual foi expressa belamente pelo salmista, quando disse "...a justiça e a paz se beijaram..." [Salmo 85, vs. 10]. Ora, Deus, o Pai, estava aplicando a justa punição [ou salário, de acordo com Romanos 6, vs. 23] pelo(s) nosso(s) pecado(s) sobre Seu próprio Filho, "...o Filho amado, em quem tinha Seu prazer..." [Mateus 3, vs. 17], em vez de aplicá-la sobre aqueles que realmente mereciam recebê-la [começando por mim], de sorte que, mediante um único ato, num único dia - dia de trevas e também de luz, dia de dor mas também de salvação -, uniu plenamente todo o Seu ódio irredutível ao pecado ao Seu imensurável amor por homens maus e perversos, pois "...Deus prova o Seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores..." [Romanos 5, vs. 8]. 

Isto é, Jesus Cristo, o Filho de Deus enviado ao mundo, carregou sobre Si mesmo todos os tipos de mazelas, dores e sofrimentos decorrentes do pecado. Na verdade, Ele não somente "...levou sobre Si as nossas enfermidades...", suportou as decepções e calúnias ou quaisquer outras aflições típicas de nossa vida terrena, mas sim o "esquecimento de Seu Pai" [como lemos no seu brado "...Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?..."] e, em última instância, o próprio inferno - o que poderia ser mais terrível, assustador, horripilante e desesperador para Aquele que desde a eternidade desfrutou apenas do amor e do deleite de Seu Pai do que a sensação de se ver como que "abandonado" por Ele? 

Por fim, em certo sentido, aquelas orações e lamentos dos salmistas e profetas que clamavam "...Até quando, Senhor? Te esquecerás de mim para sempre?..." [Salmo 13, vs. 1] encontram seu sentido pleno na pessoa de Jesus Cristo - Aquele que sempre era ouvido pelo Pai [vide João 11, vs. 41-42] até o momento do Getsêmani, quando não foi possível "passar de si o cálice" até que tudo culminou em Seu sofrimento no Calvário -, o Qual certamente viveu uma espécie de experiência de "inferno eterno", pois somente um Salvador que substitui o pecador e sofre plena e eternamente a punição por ele merecida pode dar vida eterna àqueles pelos quais Ele entregou a Sua vida. Desse modo, podemos voltar nosso olhar para Cristo, o Servo Sofredor, o Amigo dos Pecadores, o Salvador Gentil, o Redentor Vitorioso, e Nele encontrarmos consolo e esperança em meio a falências, perdas, pandemias, pânico, insegurança e mesmo diante da própria morte, pois já sabemos como a Semana Santa termina - Ele ressuscita para não mais morrer, pois "...era impossível que a morte o retivesse..." [Atos 2, vs. 24] e, assim, Ele apenas aguarda o momento em que a própria morte será derrotada a fim de que "...todos os Seus inimigos sejam postos debaixo de Seus pés..." [1 Coríntios 15, vs. 25-26]. 

Pin by Heather Seefried on screen savers | Resurrection day ...

Como nós temos lidado com as incontáveis informações que ouvimos? Somos como que "Marias que vão com as outras" ou exercitamos sensatez e prudência?

E quanto a nossas "verborragias virtuais"? 
Quando é que vamos parar de ostentar a nossa tolice em público para praticar a humildade e, acima de tudo, para começarmos a chorar e a lamentar as misérias de fora e de dentro de nós?

Finalmente, diante dessa tentativa de relacionar a tradição da "Quaresma" com a "Quarentena" concomitante, qual será a nossa resposta ao que Deus fez por nós em Jesus Cristo? 
Passaremos mais uma Semana Santa apenas não comendo carne vermelha sem nos alimentarmos do "pão da vida"? Além disso, desfrutaremos a Páscoa pensando nos coelhinhos e comprando ovos de chocolate "via delivery" sem nos importarmos com o Cordeiro que foi morto por causa de nossos pecados? 





Pela certeza da ressurreição passada e pela esperança da futura,




Soli Deo Gloria!

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Feedback prayer about a Rising Friend...

Senhor Deus,
Hoje eu sinto que não estou inspirado.

Com isso não procuro arrogar
Possuir uma dose de inspiração particular
- Que exista à parte de Tua graça -,
Mas tão-somente que a falta dela
Se apresenta agora mais latente. 
Apesar disso, ousarei escrever aqui
O que me tem ocupado a mente
Após 1/6 do ano já ter se passado. 

Logo, essa será uma oração diferente.

Reverberando as palavras de Teu Livro,
"Eu bem sei que tudo podes
E nenhum de Teus desígnios pode ser impedido".
Recentemente Tu vieste a mim, Soberano,
E destruíste totalmente os meus pobres planos.
Lançaste sobre mim as Tuas flechas e açoites
E me golpeaste com a Tua mão forte,
Silenciando-me ante a Tua disciplina
Pela qual me tiraste o que tinha em alta estima
Todavia, as lágrimas amargas de outrora
Não mais são o meu alimento "noite e dia"
Nem mesmo "encharcam o meu leito",
Pois "mudaste o meu pranto em alegria"
Para que eu não mais me calasse
A fim de louvar-Te em todo o tempo. 

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Grato sou a Ti, Deus Eterno,
Pois sei que tens um "santo ciúme" dos que são Teus,
E, por amor de Ti mesmo e para nosso bem,
Não permites que tenhamos corações divididos.
Bendito és, grande Senhor e Rei,
Por demolires os altares que dentro de mim ergui,
A fim de que somente Tu ali habites 
Uma vez que nos fizeste para Ti.
Regozijo-me em ser por Ti repreendido
- Visto que não sou bastardo, mas filho -
E, sendo assim por Teu Espírito santificado,
Sei que serei à Tua imagem conformado
Pois para isso é que fomos predestinados.

"Força da minha força", 
Sustenta em mim um espírito obediente.
"Coração do meu próprio coração",
Faz-me puro com a Tua pureza.
Se assim o fizeres, permanecerei firme,
Tendo os olhos fitos no que não se vê,
Sabendo que as maiores aflições ainda são leves
Em face da glória eterna que nos prometes

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Tu sabes bem, ó Conhecedor dos corações,
Que, à semelhança do salmista,
"Não me ocupo em grandes assuntos
Nem com coisas elevadas demais para mim".
Tens me ensinado, a duras penas,
Que a nossa vida é como um sopro,
Pois, por mais seguro que alguém esteja,
"Todos nós somos como a relva,
A qual nasce e floresce pela manhã 
E, chegada a tarde, murcha e seca".  
Perdoa-nos, portanto, Senhor nosso,
Por colocar nossa esperança em meras vaidades,
E por não levar em conta a Tua eternidade,
Pois quem poderá prevalecer
Se Tu atentares para as nossas iniquidades?

Eu ainda sou o meu maior problema.

Se aquele que era "o Mestre em Israel"
Precisava "nascer da Água e do Espírito"
Para poder ver o reino dos céus,
O que seria de todo homem, enquanto pó e cinza,
Se não fosse a bondade do Filho de Deus,
Pela qual a impenitência é abandonada
Para que, por fé Nele, a redenção seja alcançada?
Abençoado, então, seja o dia em que me chamaste,
Salvando-me da Cidade da Destruição
Para que em Teus caminhos eu peregrinasse.
Aquele que era "trevas" é agora "luz em Ti"
- Qual vilarejo edificado sobre um monte
E que não pode ser escondido -,
A qual deve resplandecer por toda parte,
Para que, num mundo imerso em impiedade,
Se vejam as boas obras preparadas de antemão
Para que o Pai celestial seja engrandecido

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Eu aguardo uma bem-aventurada Esperança.

Embora os homens maus andem de mal a pior,
Eu continuarei confiante.
Apesar da multiplicação da maldade,
Tu me dizes para ser perseverante
Deixadas, pois, para trás, as vãs aspirações,
Às coisas permanentes conduz minhas afeições,
Visto que até o céu e a terra passarão.   
Não são assim, porém, as Tuas santas palavras, 
Posto que para sempre durarão!
Eu espero unica e confiantemente em Ti, 
Salvador dos peregrinos de coração,
Os quais, ao passarem pelo Vale de Lágrimas,
Fazem dele um manancial de fontes
Até, finalmente, se apresentarem a Ti em Sião.
Estes vão "de força em força" -
Uma vez que são por Ti amparados -
E, sendo sempre por Teu conselho guiados,
Tu os receberás em inexprimível glória. 

Entretanto, isso ainda não é o fim.

Nesta "oração retorno sobre um Amigo em Ascensão",
Apenas uma coisa é necessária: 
O retorno deste Amigo está próximo!

Ah, como eu anseio o venturoso dia
No qual todo o olho O verá 
- Até mesmo aqueles que O traspassaram -
E por Sua causa igualmente se lamentarão! 
Aquele que outrora veio manso e humilde
- Como um cordeiro que se cala diante do tosquiador -
Não mais se calará em resignação,
Mas voltará no "grande Dia do Juízo"
A fim de mediante o sopro de Sua boca
Destruir para sempre os Seus inimigos

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Sim, ó Cordeiro de Deus, 
Enviado dos céus para tirar o pecado do mundo,
Nascido de uma virgem por obra do Espírito,
Cuja vida foi sem pecado e sem engano,
Crucificado com um malfeitor e maldito
- A ponto de experimentares o inferno sob a ira divina - 
Tu morreste e foste sepultado,
Mas venceste as cadeias da morte e ressurgiste
És o Cristo Vencedor,
Pois ascendeste aos céus e Te assentaste
À mão direita da Majestade.
De lá hás de vir a julgar a todos,
Tanto os vivos quanto os mortos,
Pois recebeste do Pai toda a autoridade
E, assim, executarás toda a Sua vontade. 

Eis que será "num abrir e fechar de olhos"
Enquanto muitos comem, bebem e se casam,
E como um ladrão durante a noite
Surpreendendo os que não se prepararam. 
"A noite chegará ao fim
E o dia [o Grande Dia!] vem clareando", 
Pois Ele vem - e sem demora.
O Reino já chegou e "está no meio de nós"
Mas ao mesmo tempo "ainda está por vir" -
Nesta tensão do "já e ainda não",
Relembrando as próprias palavras do Senhor,
Que "Venha o Teu reino" - a minha alma ora

Assim como levantaste dos mortos no terceiro dia,
Te manifestarás nos céus, do Oriente ao Ocidente,
Para resgatares os que são Teus [de todas as gentes]
E trazê-los à Tua presença, nossa plena alegria,
Cuja visão beatífica nos proporcionará
Delícias e regozijo perpetuamente

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Soli Deo Gloria!

sábado, 28 de dezembro de 2019

Paixão pela pureza [de quem]?

O ano ainda não terminou e, finalmente, consegui ter tempo para vir aqui.

Logo, antes que o ano acabe - e que eu precise atualizar algumas configurações operacionais deste computador -, vou tentar expor algumas reflexões relacionadas às minhas últimas semanas e que, queira Deus, sejam úteis a quem vier lê-las.

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O tema desse texto é uma pergunta provocativa referente a um tema que tem me inquietado há um bom tempo - sobretudo por perceber, ao olhar dentro de mim mesmo, que não sou o "exemplo perfeito" dessa "paixão pela pureza". Todavia, antes de irmos ao clímax ou ao epicentro dessa postagem, vamos definir algumas coisas.

Paixão.

Não creio haver definição mais oportuna a respeito de "paixão" do que aquela encontrada nas clássicas "10 categorias do ser" de Aristóteles [as quais conheci por causa do contato com as Artes Liberais do Trivium], na qual vemos que "paixão" consiste no "sofrimento de uma ação" ou na "condição daquele que é alvo de um movimento externo". Desse modo, pode-se acrescentar também a noção de paixão presente no Cristianismo [a qual lhe é central, visto que se refere ao episódio da morte de Jesus Cristo], posto que está diretamente ligada ao "sofrimento" ou à "enfermidade" carregados pelo Filho de Deus, de tal sorte que o termo grego "pathos" e o verbo italiano "patire" possuem uma raiz comum e são correspondentes ao "padecer" na língua portuguesa. No mais, sabemos que os termos médicos/psicológicos terminados em "-patia" também podem ser associados aos mesmos vocábulos anteriores. 

Nesse ínterim, deve-se destacar que a paixão é algo que está sendo supervalorizado [ou mesmo deificado/divinizado] em nossos dias. Como resultado, o que mais se pode ver são frases de efeito ou declarações motivacionais dos tipos "nunca desista de seus sonhos", "siga o seu coração", "não vale a pena continuar se não há mais paixão" ou até "se apaixone por você mesmo e, então, veja se pode se apaixonar por alguém". Obviamente, a paixão em si mesma não é, necessariamente, algo ruim [como posteriormente pretendo esclarecer melhor]; todavia, desde que os ideais românticos e sentimentalistas tomaram conta de (quase) tudo e de (quase) todos os seres humanos que vivem neste planeta, a paixão por si só se tornou o critério principal (quiçá único) pelo qual todas as questões da vida e da realidade são avaliadas e, desse modo, todas as decisões tendem a ser tomadas tendo em vista a satisfação dessas "paixões" e a minimização de todo e qualquer desapontamento [por menor que seja]. Resumidamente, o que quero dizer é que, na mentalidade do mundo atual [talvez mais intensamente que outrora], é a paixão que passa a definir o que é certo e o que deve ser adotado para a vida e não o contrário - i.e., não é mais a verdade nem o que é bom que determina onde devem estar nossas paixões e afeições, e sim os sentimentos e impulsos passionais humanos que redefinem o que é bom, justo e verdadeiro. 

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Pureza.

De maneira mais simples, pureza é a qualidade do que é puro, sem mistura, ou o que não é híbrido ou adulterado, mas sim imaculado ou mesmo santo. Em muitos sentidos, essa é uma palavra que se tornou uma das mais repulsivas às gerações recentes, visto que é normalmente vinculada a um modo de pensar/viver "retrógrado", "fundamentalista" e conservador - em outras palavras, é um termo cristão e, tão-somente por isso, já deve ser odiado e esvaziado de seu real significado. Ora, como a "nouvelle vague" do momento é o "progresso", a práxis social subseqüente é que, de tudo o que existe, quase nada deve ser "conservado" ou mantido "puro" mas, pelo contrário, é necessário remodelar ou desconstruir todas as coisas em todas as partes, pois só assim superaremos todos os males decorrentes de uma civilização repressiva e que nos impediu de desenvolver as reais "potencialidades" humanas, das quais a mais importante e venerada delas é a do "Coach Boticário": "você pode ser o que quiser"

Não obstante, é necessário reconhecer que, por outro lado, há um terrível problema que precisa ser abordado com toda a seriedade que nos for possível: o que eu vou chamar aqui de "ostentação vaidosa da pureza". O que isso significaria, então?

Do ponto de vista social e cultural, eu tenho sido um tipo de testemunha ocular de um fenômeno bastante louvável e positivo entre os de minha geração: o interesse dedicado e genuíno pelas coisas boas e virtuosas produzidas pela humanidade, sejam as que estão como que "eternizadas" após séculos [como os vitrais das catedrais góticas européias ou as epopéias dos povos do Oriente Médio ou dos gregos] ou algumas mais modernas [como os livros de autores como Roger Scruton, Theodore Dalrymple e T. S. Elliot]. É evidente que, numa época em que o fato de um policial usar o seu cassetete em uma abordagem causa mais indignação do que a existência dos lamentáveis "paredões" [que nada mais são do que uma evidência da corrupção moral e da degeneração estética de uma geração inteira de jovens que perderam o senso da beleza e da própria dignidade], é mais do que um alento perceber que nem todos estão sendo arrastados pelas correntezas da vulgaridade e do amor pelo que é feio e grotescoPorém, ainda existe um outro mal, mais sutil, o qual não advém das coisas virtuosas supracitadas, mas sim é inerente a nós mesmos: a soberba que provém da comparação com os que nos são semelhantes. Nesse contexto, auspiciosas nos são as palavras do sábio: "...antes da ruína vem a soberba, e a altivez de espirito precede a queda..." [Provérbios 16, vs. 18]

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Antes de ir para o assunto principal do texto, quero somente esclarecer que as coisas de nosso mundo real não são totalmente iguais entre si [e não devem ser, bem como jamais serão!], de tal modo que existem coisas que são boas, dignas de apreciação e que possuem valor intrínseco [como a música de Bach, a poesia de Shakespeare ou a ciência produzida por homens como Kepler e Pasteur] e outras que são em si inferiores ou mesmo abomináveis [a exemplo da música eletrônica que é útil nas horas de academia e, no último caso, as cartilhas de organismos internacionais que promovem o infanticídio/aborto em nome da "saúde pública" e do "direito feminino sobre o corpo"]. No entanto, o orgulho humano é um tipo de mal [ou mais precisamente, de pecado] que, nas palavras de Benjamin Franklin, é tão difícil de ser subjugado que, "quando tivermos a forte impressão de que já o vencemos, provavelmente nos orgulharíamos de nossa humildade". Portanto, o que gostaria de salientar é que a maior tentação/armadilha que aqueles que procuram buscar as coisas excelentes da vida [seja culturalmente, seja espiritualmente - ainda que cultura e espiritualidade sejam inseparáveis] deverão enfrentar é a da "vaidade velada" ou da "ostentação vaidosa da pureza", pela qual se começa a confiar demasiadamente em si mesmo e na própria sabedoria [tanto teórica quanto prática]. Consequentemente, os que caem nesse tipo de auto-engano passam a desprezar os outros [algumas vezes, muito superiores a eles] ao ponto de que, por causa desse "conhecimento superior" - numa espécie de "gnosticismo pós-moderno" -, se julgam acima dos males que se espalham pela "sociedade sem erudição ou sem precisão doutrinária" e, por isso, se fazem juízes dos que "não pensam como eles" ou "não lêem os livros que eles lêem" e, finalmente, os condenam ao próprio inferno. Diante disso, nada melhor do que algumas das palavras mais assustadoras escritas pelo apóstolo Paulo, onde se lê:

Por isso, você é indesculpável quando julga os outros, não importando quem você é. Pois, naquilo em que julga o outro, você está condenando a si mesmo, porque pratica as mesmas coisas que condena.
Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam essas coisas.
E você, que condena os que praticam tais coisas, mas faz o mesmo que eles fazem, pensa que conseguirá se livrar do juízo de Deus? [Romanos 2, vs. 1-3]

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Considerando que, num texto anterior que escrevi (creio que no início de 2018), eu fiz uma crítica mais direta a esse tipo de vaidade em referência aos novos "intelectuais salvadores da civilização ocidental" - falo como um brasileiro que ama as minhas raízes civilizacionais e que deseja que essas coisas sejam resgatadas na medida do possível -, dessa vez a razão que me levou a escrever esse texto é ainda mais lamentável. A situação é aquela do tipo "eu não gostaria de ter que escrever sobre isso, mas não há escolha". Que Deus me ajude!

No mês passado, eu participei de um evento cristão em minha cidade como voluntário [especificamente na área de literatura e venda de livros] e, no primeiro dia de programações, durante um momento em que estava indicando um determinado livro para alguns visitantes do stand, eu fiz a seguinte recomendação:

"Pelo que ouvi falar deste livro [no caso, "A vida de Deus na alma do homem"], a leitura dele foi determinante para a conversão de John Wesley, um dos maiores pregadores/evangelistas da história do Cristianismo protestante".

Imediatamente, alguém que estava naquele grupo de pessoas olhando os livros disse: "...isso não faz diferença, porque o John Wesley não era cristão. Se ele não acreditava nas 'doutrinas certas', ele não era convertido e eu não o considero irmão de fé...". Diante de tal declaração infeliz, eu procurei controlar meus ímpetos, mas tentei deixar muito claro para aquela pessoa [no caso, era um jovem rapaz seminarista - se não estou enganado, de uma igreja de linha reformada mais "puritana"] que é somente Deus "...que conhece os que Lhe pertencem..." [2 Timóteo 2, vs. 19,  citação de Números 16, vs. 5], de modo que nenhum de nós deve ter a ousadia de usurpar o lugar que é exclusivamente Dele a fim de definir "quem é e quem não é convertido", i.e., "quem é salvo e quem não é". Após alguns curtos minutos na busca de apaziguar a discussão [embora nada sério tenha ocorrido], eu percebi que não haveria proveito em continuar e fui atender outras pessoas que estavam chegando para ver mais livros. A partir desse momento, eu não mais encontrei o rapaz mas espero, sinceramente, que os momentos em que passamos ouvindo canções que destacavam a grandeza de Deus e de Seus feitos bem como pregações fielmente baseadas na Bíblia tenham produzido frutos nele - e também nos demais [incluindo a mim mesmo] que lá estiveram. 

Vale ressaltar que, nesse dia, havíamos acabado de ouvir uma pregação baseada no versículo "...bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus..." [Mateus 5, vs. 3]! Será mesmo que alguém que reage dessa forma é humilde nos termos indicados pelo próprio Cristo? E se não o é, do que adianta então "ter as doutrinas certas" na mente quando o coração parece continuar mais sujo que os sepulcros caiados citados por Jesus em sua mensagem contra os fariseus? Em suma, episódios como esse apenas ratificam o fato de que o pecado é algo tão sorrateiro, traiçoeiro, vil e destruidor que, até mesmo quando achamos que estamos sendo o melhor exemplo de "paixão pela pureza" - particularmente, a "paixão pela pureza doutrinária" - a nossa "piedade" não passa de uma "piedade ímpia", a qual causa asco no Deus que achamos que estamos impressionando. As Escrituras são claras em condenar a "espiritualidade dissimulada" quando dizem "...este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim..." [Isaías 29, vs. 13] e chegam a dizer que os próprios demônios "crêem que há um só Deus e estremecem..." [Tiago 2, vs. 19] - logo, que vantagem haveria em tão-somente conhecer corretamente as coisas a respeito de Deus sem que isso mude o nosso ser por inteiro? Se não tememos [nem trememos] quando exercemos juízo temerário sobre alguém [visto que "...com a medida com que julgarmos, seremos também julgados..." - Mateus 7, vs. 2], será que este não seria um estado mais miserável do que o dos próprios demônios? 

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Ora, a minha pergunta é [falo aos cristãos inicialmente, e aos demais leitores por consequência]: por qual pureza devemos ser apaixonados? A pureza de quem deve ser o alvo de nossa inspiração? 

Inicialmente, quero apenas fazer algumas considerações que julgo ser importantes. Ora, é fundamental compreendermos que, sem o correto conhecimento de Deus [conforme revelado nas Escrituras de modo especial], não é possível experimentar uma experiência/relação genuína com Ele pois, onde não há esse tipo de conhecimento, nossa tendência sempre será "inventar um deus conforme nossa própria imagem e semelhança". Nesse sentido, eu tenho discordâncias com a teologia adotada por John Wesley [especialmente no tocante às questões referentes à predestinação], contudo não posso sequer me comparar a ele nos quesitos "consagração a Deus", "vida de oração", "fervor evangelístico" e "amor pelo próximo", cujas características são conjuntamente evidências de uma vida verdadeiramente transformada pelo Evangelho e onde há o "fruto do Espírito" [vide Gálatas 5:22-23]. Portanto, nunca ousei e pretendo jamais ousar questionar a sua idoneidade como cristão e, embora tenha diferenças doutrinárias em relação a ele [e aos seus seguidores], eu o chamo e continuarei a chamá-lo de irmão. Quisera Deus, por Sua graça, me conceder o mínimo da devoção de Wesley e de seus amigos do "Clube Santo" de Oxford - talvez assim o meu campus não seria uma "Nova Babilônia". 

Nesse caso, se a salvação de alguém é dependente de "precisão teológica" ou de uma "adequação doutrinária" por parte da mente e do discurso, eu apenas precisaria ler tratados de teologia sistemática puritana, decorar os 4 volumes das Institutas da Religião Cristã [nada contra as Institutas em si - elas são uma obra brilhante e fiel às Escrituras] e seguir todo o Diretório de Culto de Westminster [não pretendo com essa menção desrespeitar a boa tradição do puritanismo britânico, a qual é muito cara aos meus irmãos presbiterianos!] para ser livrado da condenação eterna. Em outras palavras, eu seria o meu próprio salvador mas permaneceria iludido achando que minha confiança estaria em Jesus Cristo e em Sua obra - ora, qual teologia poderia ser mais bíblica do que a minha? De fato, talvez esse seja o meio mais eficaz pelo qual o diabo, com suas astutas ciladas, pode e tem conseguido enganar alguns religiosos que, enquanto se apegam ao que eles mesmos constroem em seu intelecto a respeito de Deus com base em suas muitas leituras, igualmente se esquecem de que a salvação é uma obra exclusiva de Deus - ou melhor, é um ato "monergístico", termo que é mais "chique" [do jeito que esses "reformodinhas" gostam!], embora seja, ao mesmo tempo, factualmente verdadeiro. 

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Finalmente, chegou o momento de responder à pergunta principal do texto: qual é a pureza que deve ser o alvo de nossa paixão? A que [o a quem] ela pertence?

No tocante ao tipo de pureza em questão [i.e., pureza espiritual], todo raciocínio deve começar do seguinte ponto: todos somos impuros. É bastante comum que, ao nos compararmos com outras pessoas, possamos nos sentir superiores a elas [especialmente no tocante à moral] - ora, eu mesmo poderia dizer que, de certa maneira, eu sou uma pessoa muito "melhor" do que a que Mao Tsé-Tung foi, uma vez que não tenho na minha conta um genocídio populacional de dezenas de milhões de pessoas num espaço de menos de 30 anos. Entretanto, a referência com a qual todos nós, sem exceção, devemos nos comparar, não são aqueles que dentre nós foram os mais perversos [ao menos na prática], mas sim Aquele que é chamado de "Santo, Santo, Santo" por seres celestiais sem pecado e que, mesmo nesse estado glorioso, temem olhar diretamente para esse "Santo" ao cobrirem os seus rostos ou se prostrarem diante Dele. Sem rodeios, quando se trata de "pureza", somente Deus está em condições de exibir/exigir prerrogativas, pois está escrito que "...todos nós somos como o imundo, e todos os nossos atos de justiça são como trapos de imundícia..." [Isaías 64, vs. 6] ao passo que Ele "...é tão puro de olhos que não pode suportar o mal..." [Habacuque 1, vs. 13] bem como que "...Deus é fidelidade, e Nele não há injustiça; é justo e reto..." [Deuteronômio 32, vs. 4]. Eu poderia procurar diversas outras passagens da Bíblia para reforçar o meu argumento, mas creio ser suficiente nos atentarmos cuidadosamente aos textos apresentados, como nas palavras do saudoso R. C. Sproul: "God is holy, but I am not" ou "Deus é santo, mas eu não sou"

Além disso, ao considerarmos essa "pureza", é fundamental relembrar que, antes do pecado original, o ser humano [assim como a criação como um todo] era "muito boa" - vide Gênesis 1, vs. 31 -, de sorte que tudo o que Deus havia feito era sem pecado, embora distinto Dele próprio quanto à Sua plenitude. Nesse sentido, nós só poderíamos continuar nessa "condição de pureza" se não houvéssemos sido rebeldes à autoridade divina mas, como os primeiros seres humanos criados deliberadamente desobedeceram a Deus e, assim, foram destituídos de Sua glória, a nossa participação ou comunhão com Deus foi radicalmente rompida. Como resultado, nos separamos da nossa única e real "fonte de pureza" - mais do que isso, nos tornamos odiosos em relação a tudo o que é santo e, até esse momento, pode-se ver que, à parte da graça de Deus, todos somos "apaixonados pela impureza" e vivemos de acordo com essa paixão. 

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Isto posto, como é possível despertar em nós a paixão pela verdadeira pureza?

Primeiramente, nenhum de nós pode/poderia/poderá produzir tal paixão por si só, pois o pecado afeta a natureza humana em todos os seus domínios - a vontade, as afeições, o intelecto e mesmo o próprio corpo. Doravante, como todos nós estamos sob essa condição caída e em rebelião contra Deus, estamos semelhantemente sob o Seu juízo [como citado em parágrafos anteriores], de modo que necessitamos de algo que nos livre de tal condenação - mais precisamente, precisamos de Alguém que seja como nós (para ser nosso substituto quanto à punição devida ao nosso pecado) e que seja também como Deus (para que, assim, possa efetivamente ser o Salvador daqueles a quem representa). Isto é, precisamos de Jesus Cristo.

Nós ainda estamos na "estação do Natal" - conforme o calendário litúrgico - e nada poderia ser mais oportuno do que falarmos a respeito de Jesus Cristo. Não há ninguém na história tão importante e "divisor de águas" quanto o Rei que se fez menino e que foi adorado até por astrólogos (os magos do Oriente eram provavelmente estudiosos de astrologia/astronomia e ligados ao Zoroastrismo persa) ao nascer na pequena vila de Belém, o Senhor que encarnou para ser o Servo Sofredor, o Deus que se esvaziou para assumir a nossa humilhada forma humana, o Eterno que "se limitou" ao entrar no tempo, o Criador que precisou ser acolhido nos braços da mãe que Ele mesmo criara, o Todo-poderoso que veio ao mundo para dar a Sua vida voluntariamente, o Descendente prometido que, nascido de mulher e sob a Lei, se manifestou para redimir os que estavam debaixo da Lei para que esses redimidos fossem adotados como filhos de Seu Pai celestial e, assim, fossem feitos herdeiros Dele. 

Reflitamos um pouco sobre a sublime maravilha do Natal: Deus nasceu! Será que realmente paramos tempo suficiente para meditar no que isso realmente significa? Muitos de nós até perdem tempo com discussões inúteis e infundadas sobre uma "possível origem pagã" do Natal bem como de seus símbolos [como a árvore e seus adereços], todavia são raros aqueles que, ao ouvirem a cada fim de ano que o Natal é a comemoração do nascimento de Jesus Cristo [ou de seu "aniversário", como é comum de se ouvir], são conduzidos ao encanto que deve advir da percepção da grandeza desse acontecimento - Deus estava vindo ao mundo na forma de um bebê, Aquele que "nem os céus dos céus podem conter" saiu de Sua glória e "coube" dentro do ventre de uma virgem. Como, então, não entender a reação de Isabel ao ouvir a saudação de Maria quando João Batista, ainda no ventre, se alegrou com a visita daquela que seria "a mãe de seu Senhor"? Como não exultar juntamente com os anjos que, diante dos pastores no campo, cantaram "...glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens a quem Ele quer bem..." [Lucas 2, vs. 14]? Creio que um bom resumo de tudo isso se dá mediante os primeiros versos do Benedictus [Cântico de Zacarias], onde se lê:


Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, pois que visitou e redimiu o Seu povo. 
[Lucas 1, vs. 68]

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Dessa maneira, o Natal é algo glorioso não somente pelo que o caracteriza em si, mas igualmente pela sua finalidade: Deus precisou "nascer" para posteriormente "morrer", pois ninguém poderia ser redimido por Ele sem que Ele oferecesse um sacrifício à altura de nossa necessidade. Na verdade, a obra redentora de Deus em favor dos homens pecadores [e da criação inteira, por extensão] começou desde a Encarnação, o único momento da história em que foi gerado um ente genuinamente puro e santo. No entanto, a "pureza de Jesus Cristo" não foi parte de Sua vida apenas nos seus primeiros anos [p. ex., pelo fato de ele ser, naquele momento, uma "criança inocente"] ou mesmo até os Seus doze anos [idade na qual há relatos nas Escrituras de Seus debates com os mestres de Lei bem como de Sua sabedoria incomum], mas Ele foi santo em todo Seu proceder, de sorte que "...nele não se achou pecado, nem foi encontrado engano em Sua boca..." [1 Pedro 2, vs. 22] e que Ele "...achado em forma humana, humilhou-se a Si mesmo, sendo obediente até a morte..." [Filipenses 2, vs. 8]. Em outras palavras, Jesus Cristo foi o único homem que, verdadeiramente, viveu uma vida de "paixão pela pureza" - o que nada mais é do que o Seu amor e devoção à vontade do Pai - e, conseqüentemente, a única pureza pela qual devemos ser apaixonados é a pureza de Cristo, uma vez que toda e qualquer suposta pureza que não seja a Dele não é nada além de iniquidade mascarada

Mas eis então a "boa-nova" do Evangelho [aqui vale o pleonasmo]: a pureza de Cristo pode ser contada como se fosse nossa, se nos arrependermos de nossos pecados e crermos em Seu nome. Ou seja, todo e qualquer pecador, por mais impuro que seja, sempre poderá achar em Cristo mais misericórdia do que a medida de seus pecados, de modo que se crermos que "Deus enviou o Seu Filho ao mundo para que o mundo fosse salvo por Ele" [João 3, vs. 17] - i.e., se entendermos e nos dermos conta do real sentido do Natal -, a justiça de Cristo é creditada em nosso favor e o nosso pecado é lançado sobre Ele. Nossa "pureza teológica" não importa; nosso "virtuosismo intelectual" também não; somente Cristo importa. A Cruz é o lugar onde todos não têm qualquer opção a não ser a humilhação, "o total desprezo de si mesmo" [nas palavras de Tomás de Kempis] e a adoração exclusiva ao "Cordeiro que foi morto, mas que ressuscitou e que vive pelos séculos dos séculos" [Apocalipse 1, vs. 18]. 

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Como temos lidado com a paixão e com nossas "paixões"? 
Temos superestimado [em lugar de subjugar] aquilo que normalmente nos leva ao engano e a praticar os piores pecados?

Quais têm sido as nossas principais paixões? As coisas temporais ou as coisas eternas?

Por qual "pureza" temos nos apaixonado? A pureza do "intelecto refinado", a da "precisão hermenêutico-doutrinária" ou a pureza de Jesus Cristo - o Único realmente puro?

E, se já estamos cientes do que Cristo fez por nós ao nascer para posteriormente dar Sua vida, até quando continuaremos adiando a nossa resposta a esse amor? 
Porque não nos arrependermos de nossa vida impura para nos apropriarmos da pureza Dele?


Pela alegria de ser participante da pureza Dele,







Soli Deo Gloria!

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Reformatio et Remuntarem - uma breve oração

Até quando, Senhor?
Até quando clamarei
E não me escutarás?

Embora eu não seja profeta
Faço menção de tais palavras
E, como que num "lamento de poeta",
A Ti apresento minha oração
E Te aguardo com esperança.

Rei meu e Deus meu,
Atenta para os meus gemidos
E guarda-me, porque só em Ti confio.
Visto que não tenho outro bem
Senão a Ti, a Ti somente,
Faze-me continuar expectante
De que, embora em meio às tormentas,
Posso crer que me fortaleces.
Tu tens o Teu caminho na tempestade
E fazes tremer os montes e colinas -
Quem pode, então, resistir-Te?
Nem os males que me arrebatam
Ou os pecados que de mim se alastram
Prevalecem contra Ti, pois és Luz,
E onde a Tua Luz resplandece,
As trevas não permanecem.

Se até a Tua ira contra nós Te dá louvor,
Bem-vindas sejam as aflições
Pelas quais nos trazes para junto de Ti.
Contudo bendito és, Deus gracioso,
"Pues Tu enojo no dura para siempre",
E, assim, choraremos nas noites escuras,
Até que o sol se levante
E nos alegre a alma como antigamente. 

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Responde-me quando suplico,
Ó Tu que me fazes justiça,
Pois não tens prazer na impiedade
E Contigo o mal não habita.
Que eu não peque em minha indignação
Mas, sim, aquiete a minh'alma,
Ao consultar no travesseiro o coração,
O qual toda noite me ensina
Quando a solidão é minha única companhia. 

Sinto-me como que em disputas eliminatórias
Nas quais sou "goleado nos jogos de ida".
Será que poderia haver "reviravolta"
Diante de tantos "7 x 1" diferentes?

Para quem aprecia o futebol,
Ouve-se que ele "é uma caixinha de surpresas"
Bem como que "o jogo acaba 
Apenas após o apito final".
Ah, a vida também "imita o esporte",
Pois, enquanto enfrentamos nossos adversários
[Muitas vezes, nada amistosos],
Devemos nos lembrar de Ti, o Justo Juiz,
Ao Qual todos deveremos prestar contas,
Inclusive de nossos atos ocultos -
Quer sejam bons, quer sejam maus. 
Além disso, assim como o futebol testifica
De vitórias através de viradas "impossíveis",
Sei que podes reverter qualquer situação,
A fim de glorificares a Ti mesmo
Uma vez que só de Ti vem a salvação. 

Restaura-nos para Ti, ó Senhor,
E então retornaremos!
Renova os nossos dias
Como outrora nos concedeste!
Embora a Tua mão pareça encolhida
E os Teus ouvidos agravados,
Sei que podes nos resgatar das profundezas,
Conduzindo-nos para a vida
Após termos sido por Ti atribulados.

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Sustenta a minha fé débil e vacilante,
Posto que creio em Ti,
Ainda que seja muitas vezes inconstante.
Como um vaso quebrado
Ou um "odre em meio à fumaça",
Por vezes me vejo esquecido
Ou até mesmo repudiado
Aos olhos de quem outrora me amava
E que, como na parábola do Samaritano,
Ao me ver semimorto "passa de largo".
Sabendo que sou sujeito ao auto-engano,
Faz-me pensar, ó Deus, os Teus pensamentos,
Os quais são puros e verdadeiros
Cheios de justiça e amabilidade
Bem como fontes de boa fama e virtude,
Para que eu guarde as portas da mente
A fim de que o pecado ali não entre. 

Somos todos obras inacabadas
E, por isso, todos precisamos de reforma.

Completa, pois, em nós, a Tua obra, 
A qual começaste desde que a nós vieste,
Para ser o nosso triunfante Redentor
Até que nos leves à Tua morada celeste.
Enquanto isso, habitamos esse tabernáculo
- O qual não deixa de ser um cárcere -,
Contudo ansiamos estar fora do corpo
Para que estejamos onde Tu estiveres.
Sendo vivificados pela Palavra que nos deste
Recebemos a fé pela qual os justos vivem,
Cuja justiça provém do Único Mediador
No Qual toda graça e verdade residem.
Glória e honra sejam, portanto, só a Ti
O único Deus verdadeiro,
Que nos deste a vida eterna em Teu Filho
De modo que viveremos para conhecê-Lo

Vivemos ainda, ó Deus, "na terra daqui",
Porém seguimos avante, "peregrinos no Caminho",
À espera de Tua volta
Embora não saibamos o dia nem a hora. 
Do céu "bem além das nuvens" Te esperamos
E, fixando nele o nosso olhar,
Firmamos os nossos passos "sobre este chão",
A fim de "viver a eternidade no dia-a-dia"
Até que se consume a nossa redenção.
Quero viver "a terra do céu",
Na qual a "eternidade invade o tempo",
Deixando que Ele arranque o que se há de esquecer
Para que, em breve, eu possa agradecer,
Uma bela e nova estação.

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Soli Deo Gloria!