terça-feira, 31 de março de 2026

Dos "crimes sem castigo" ao "Castigo sem crime": um ensaio de Páscoa

Como de costume, eis-me aqui novamente após um longo período ausente.

Dessa vez, em contraste com a publicação do último Natal - a saber, um poema cuja métrica foi sutilmente inspirada em Os Lusíadas, de Camões -, esse texto será fundamentalmente argumentativo e terá como ponto de partida um "trocadilho" que faz referência à famosa obra "Crime e Castigo" (escrita por Dostoievski) culminando no significado da Páscoa, visto que estamos próximos do fim do período da Quaresma e a Páscoa está se aproximando. 

Logo, sem perda de tempo, façamos o que interessa - e que, mais uma vez, Deus me ajude! 


Para começarmos, o "trocadilho" mencionado acima consiste na seguinte afirmação: "o Brasil se tornou o país do 'crime sem castigo' e do 'castigo sem crime'", cuja mensagem aponta para a prevalência da impunidade para com os malfeitores e da injustiça contra os inocentes - a qual se opõe radicalmente ao que Dostoievski procurou transmitir em seu livro. Muito embora o meu objetivo não seja fazer relações mais profundas e minuciosas entre esse clássico da literatura russa e este texto, é importante compreender o contexto do título utilizado neste "ensaio" para que haja clareza e inteligibilidade. Que os admiradores da boa literatura perdoem minha obtusidade! 

Diante disso, algumas perguntas podem (ou devem) ser feitas: 

Há evidências de que tal "trocadilho" é verdadeiro e fidedigno? Quais seriam essas evidências? Por que nos indignamos frente à realidade de que, muitas vezes, "o crime compensa"? E por que desejamos que os maus sejam "castigados"? Por fim, é razoável ter esperança de que "todos os crimes" serão devida e finalmente punidos e o que isso teria a ver com a Páscoa? 

Se quiser saber todas as respostas, procure ler o texto até o final - e que, ao longo dessa longa jornada, eu obtenha êxito em encontrá-las e transmiti-las. 


Com respeito às duas primeiras perguntas, qualquer pessoa que possua o mínimo de "vergonha na cara" e até "três neurônios em funcionamento" está ciente da infinidade de fatos que comprovam que, em muitos lugares do mundo (e no Brasil em particular), os criminosos possuem "passe livre" para fazer o que bem entendem e, como resultado, se orgulham de sua própria perversidade, tendo em vista que eles "escapam da punição que lhes cabe" e as suas vítimas sofrem cruel e injustamente.

Nesse sentido, o que dizer dos terroristas anistiados ao longo dos anos 1970/1980 que se tornariam políticos poderosos e viriam a mudar a ordem social de toda a América Latina? E quanto aos narcotraficantes que assolam cidades, estados e até países inteiros por meio do terror e do extermínio e ainda são vistos como "vítimas dos usuários"? E os ladrões de aposentados que ganham "mesadas" exorbitantes (i.e., propina, dinheiro ilícito) e podem até estar usando da corrupção para beneficiar times de futebol? Será que podemos nos esquecer dos "contratos milionários" envolvendo juízes que deveriam ser bastiões da justiça mas apenas a destroem? Na verdade, falta-me tempo e espaço para falar dos "exploradores da elite global" que traficam crianças para se "aproveitarem delas", assim como dos bárbaros bestiais cuja "religião" é BASEADA na pedofilia e em todo tipo de imoralidade, na escravidão dos "infiéis" e no seu subsequente genocídio e de tantos outros exemplos de iniquidade que se multiplicam para quem tem "olhos para ver" e "ouvidos para ouvir". Por tudo isso, não é somente no Brasil que testemunhamos muitos "crimes sem castigo" seguidos de inúmeros "castigos sem crime", de modo que o trocadilho (o qual pode ser atribuído ao prof. Olavo de Carvalho) é uma descrição precisa da realidade atual.

É notório, no entanto, que nem sempre a impunidade triunfa - e graças a Deus por isso! - e, como prova dessa verdade, é prazeroso relembrar que Nicolás Maduro (um crápula da pior espécie) está "passando férias ininterruptas" em Nova York depois de uma "visita de cortesia" de militares norte-americanos e que Ali Khamenei - juntamente com tantos outros vermes assassinos como ele - já está ARDENDO NO MÁRMORE DO INFERNO graças a Israel e aos Estados Unidos! De fato, nem o Maduro ganhou uma "viagem de férias" tão "caliente" como esta e, em face desses "lampejos de justiça", é possível ter esperança em "tempos de refrigério" (não poderia haver melhor contraste!) bem como aguardar que muitos outros tenham o mesmo "destino quente como o verão do Caribe"


No tocante às duas perguntas seguintes às anteriores, é possível supor que a nossa revolta diante dos "crimes que compensam" bem como o desejo pela "devida retribuição" sejam tão-somente frutos de convenções sociais ou um constructo cultural, de forma que estariam excluídos quaisquer "fundamentos externos" aos fenômenos em si e que fossem simultaneamente absolutos ou transcendentes. Ou seja, se tendemos a pensar que certas coisas são "ilícitas em si mesmas" e, por isso, quem as pratica merece a justa paga por seus atos, talvez não agiríamos (ou agiremos) dessa maneira se adotássemos (ou adotarmos) uma mentalidade diferente. Logo, tal pensamento acaba por produzir uma ideia de "equivalência de valor" entre todas as culturas e seus respectivos padrões morais/de conduta, o que na prática resulta (inevitavelmente) em caos e desordem, uma vez que a ausência de um "referencial supremo" que determine o bem e o mal será "suprida" por "diferentes referenciais" conflitantes e, consequentemente, não haverá referencial algum para definir tanto o bem quanto o mal. 

Entretanto, a verdade é que, consciente ou inconscientemente, a nossa ira diante da injustiça e o nosso anseio por justiça confirmam que todos, sem exceção, pensamos e agimos a partir de princípios absolutos, tais como "o mal praticado merece ser compensado" ou "o bem precisa prevalecer". Mas o que explicaria a noção que temos de "bem vs. mal"? Por que o "mal é mau" e exige uma "retribuição à altura" e, ao mesmo tempo, "o bem DEVE vencê-lo"? 

Todas essas questões podem ser (e são) respondidas com base no fato de que o mundo - e.g., toda a realidade e a existência - não subsiste(m) em si mesmo(as), mas em Deus (que é o Seu Criador e Sustentador). Sem Deus, como dizia o próprio Dostoievski, tudo seria permitido - ou seja, caso não existisse um Ser soberano que deve(sse) ser obedecido e a Quem todos prestaremos/prestaríamos contas um dia, não haveria(m) limites para nossos impulsos e inclinações. Ironicamente, enquanto desejamos autonomia e autossuficiência por todos os meios possíveis (sobretudo a indiferença ou até a rebelião contra Deus), não conseguimos nos situar na realidade nem encará-la sem lançarmos mão das bases que Ele mesmo estabeleceu (como a noção de "certo vs. errado" e a busca por justiça contra o mal), o que escancara uma "dupla inconsistência": desejamos que os "crimes" não fiquem "sem castigo" (exceto os nossos próprios!) enquanto rejeitamos o Único que pode julgá-los justa e cabalmente. 


No que se refere à pergunta final, pode-se inferir que a simples suspeita de que "haveria/há uma esperança" concernente à punição definitiva de todos os "crimes sem castigo" é um indício de que em nós, independentemente de quais crenças e/ou visão de mundo tenhamos, reside um senso de que todas as coisas, em algum momento, precisam ser "postas em seus devidos lugares". É verdade, porém, que existem diversas perspectivas sobre quais "lugares devidos" seriam esses, mas todas elas possuem um elemento comum: todos reconhecemos que existe "algo de errado com o mundo" (como escreveu Chesterton) e é necessário resolver isso, de maneira que a esperança de que essa "solução" um dia chegará nos impulsiona a buscá-la por todos os meios que julgamos possíveis ou razoáveis - o que pode ser, muitas vezes, bastante "maquiavélico" (quem lê, entenda). 

Por falar nisso, ao compararmos brevemente o pensamento dos dois autores aqui mencionados a partir de "O Príncipe" (de Maquiavel) e do próprio "Crime e Castigo", percebemos um notável contraste: em O Príncipe, notamos que "os fins justificam os meios", de forma que se um determinado objetivo a ser alcançado é tido como "válido", "necessário", "justo" e "bom", tudo o que se faz em prol dele é igualmente "válido, necessário, justo e bom" (ainda que não o seja); em Crime e Castigo, todavia, podemos dizer que Raskólnikov (protagonista da obra) é um "exemplo concreto das ideias equivocadas de Maquiavel" pois, embora ele se achasse um homem "acima da moral" (o que, no caso de "fins nobres", justificaria quaisquer de suas ações), seu crime foi seguido de um enorme "castigo na consciência" resultante do senso de culpa, o qual tornaria a sua vida, por muito tempo, quase insuportável. Por outro lado, vale mencionar que a jornada de Raskólnikov não termina em isolamento e condenação, pois ele encontraria um tipo de "redenção mediante o sofrimento e o amor" através do exemplo da personagem Sonia Marmeládova - o que não ocorre com/em o "Príncipe". 


Diante disso, se existe um "vencedor" entre esses autores quanto à influência sobre a mentalidade e a conduta humanas (especialmente nos últimos 3 séculos), este é Maquiavel, tendo em vista que um número cada vez maior de pessoas está convencida de que "tudo quanto existe é mau" e de que somente elas têm o direito e o poder de trazer a "salvação" ao mundo e à sociedade. Ora, os que querem "globalizar a Intifada" (carinhosamente chamados por mim de "porcostinos", cujo apelido não tem nada a ver com aquele "time sem mundial" da Zona Oeste de São Paulo) afirmam que lutarão por isso "por TODOS OS MEIOS NECESSÁRIOS" - e já estão fazendo! Além disso, os adeptos da "religião dos porcostinos" já estão dominando a política de vários países anteriormente cristãos e, sem dúvida, buscarão expandir o seu controle nesses países "por TODOS OS MEIOS NECESSÁRIOS", sobretudo "usando a própria democracia para derrubá-la". Por fim, os comunistas (i.e., os "maquiavélicos" par excellence) têm destruído TODAS AS NAÇÕES pelas quais têm passado há mais de 100 anos, usando INFINITAS ESTRATÉGIAS de subversão social e de concentração de poder, de tal modo que não nos faltam inimigos à espreita e, por isso mesmo, devemos combater implacavelmente a todos os que "desejam controlar tudo e todos em prol de um mundo melhor", uma vez que "pessoas boas não desejam controlar a vida dos outros"

Nesse sentido, não é suficiente apenas possuir a "esperança" de que "tudo deve se resolver algum dia", mas é ainda mais imprescindível compreender os meios pelos quais essa esperança deve ser cultivada bem como os caminhos (ou O Caminho) ao qual essa "esperança" nos conduz(irá), como outrora escreveu certo sábio: "...há caminho que ao homem parece correto, mas o fim dele conduz à morte..." [Salomão em Provérbios 4, vs. 12]. 

Mas o que tudo isso (Crime e Castigo, Maquiavel etc.) teria a ver com a Páscoa e o seu significado? 

O que um feriado religioso - tanto cristão quanto judaico, embora com suas respectivas particularidades - tem a ver com a história de um assassino corroído pela consciência da culpa após se dar conta de que sua "pretensa superioridade" o havia levado à degeneração moral? 

E o que a Páscoa teria a nos ensinar sobre "crimes sem castigo" bem como "castigos sem crime"? 


Considerando que algum leitor não conheça a Páscoa com detalhes, sabemos que as origens desse feriado/dessa festa remontam ao período da escravidão do povo hebreu no Egito, o qual terminou por volta dos anos 1400 a.C. durante os dias de Moisés, conforme o relato do Êxodo (Antigo Testamento cristão) ou do Shemot (Torá judaica). Logo, a Páscoa é, inicialmente, uma celebração do povo de Israel que recorda a libertação deles da tirania do Faraó por meio de várias demonstrações do poder divino - e.g., as conhecidas "10 pragas", mediante as quais Deus "castigou" os egípcios bem como os seus "deuses" e revelou-Se como o "único Deus verdadeiro" -, a qual deveria ser constantemente comemorada para que aquele povo nunca se esquecesse do que Deus fizera por amor a eles. Por tudo isso, é evidente que a Páscoa possui raízes fundamentalmente religiosas (neste caso, uma base monoteísta), de forma que ignorar essas evidências históricas é falsear a realidade - o que, em certo sentido, já é um "castigo" para a nossa inteligência e a nossa imaginação moral. 

Além disso, tendo em vista que a Páscoa também é uma comemoração cristã - muito embora a Páscoa dos judeus (i.e., Pessach, Passover) e a Páscoa dos cristãos (i.e., Pascha, Easter etc.) apresentem diferenças entre si -, vale mencionar que o advento de Jesus Cristo foi determinante para que a antiga festa dos hebreus adquirisse um novo significado, segundo o qual Cristo seria/é o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" [Evangelho de João 1, vs. 29]. Ou seja, assim como naquela "primeira Páscoa" houve o sacrifício de cordeiros sem defeito (cujo sangue fora o "sinal de salvação" para os filhos primogênitos), Cristo seria/é um "sacrifício definitivo" em prol da salvação dos homens, cujo sangue seria/é o pagamento pelos pecados deles. Consequentemente, o cristianismo corrobora ainda mais o caráter religioso da Páscoa, de tal modo que esta jamais existiria se Cristo não tivesse sido "castigado" a fim de "trazer paz, justiça e redenção" a todos os "criminosos" que Nele cressem - independentemente de quão culpados sejam ou se sintam.

Nesse sentido, se a "experiência de redenção" de Raskólnikov em "Crime e Castigo" envolve o amor e o sofrimento que ele mesmo (em certa medida) teria de cultivar em contraste com sua vida de impiedade pregressa, a "Redenção com R maiúsculo" não depende nem provém, em medida alguma, de quem que se beneficia dela, mas unicamente Daquele que redime - a saber, do próprio Cristo, a respeito de Quem o próprio Dostoievski afirmou em certa ocasião:

"...Se alguém me provasse que Cristo está fora da verdade, e se realmente ficasse estabelecido que a verdade está fora de Cristo, eu preferiria Cristo à 'verdade'...". 


Em outras palavras, o autor russo afirma ousadamente que "toda verdade só é verdadeira em Cristo" e, como resultado, qualquer "verdade" que não seja "de acordo com Cristo" não é (e nem pode ser) verdadeira em hipótese alguma, de sorte que "preferir Cristo à verdade" - numa clara "ironia paradoxal" - consiste em "preferir Cristo à mentira disfarçada de verdade". Diante disso, a oposição deliberada ou a indiferença com relação a Jesus Cristo podem ser entendidas como um testemunho público do que o apóstolo Paulo chama de "operação do erro" [vide 2 Tessalonicenses 2], por meio da qual o próprio Deus julga (ou julgará) a todos os pecadores impenitentes - i.e., "criminosos contumazes" que "darão crédito à mentira" em razão de sua "rejeição ao amor da verdade" [vs. 10-12]. Em suma, por ser perfeitamente santo e justo, Deus odeia o pecado (e todo o mal resultante dele) com tamanha intensidade e firmeza que, a fim de mostrar esse "santo ódio", priva os pecadores obstinados de toda porção de graça que poderia salvá-los dessa condição e, com isso, o destino deles não pode/poderá ser outro senão a condenação eterna - o único "castigo digno" para todos os que "cometem crimes" contra um Deus infinito

De fato, a correlação mais clara e abrangente entre a Páscoa e todos os temas abordados neste texto foi elaborada há quase 2000 anos, nas palavras do mesmo Paulo em sua epístola aos Romanos:

"...Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus
Sendo justificados gratuitamente por Sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,
A Quem Deus ofereceu como propiciação, por meio da fé, pelo seu sangue, para demonstração da Sua justiça, visto que Deus, na Sua paciência, deixou de punir os pecados anteriormente cometidos,
Para demonstração da Sua justiça no tempo presente, para que Ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus..." [Romanos 3, vs. 23-26] 

Nesse trecho do Novo Testamento (chamado por muitos de "Acrópole das Escrituras", como um símbolo de seu máximo valor para a doutrina da salvação), Paulo diz categoricamente que TODOS NÓS SOMOS CRIMINOSOS e, assim como Raskólnikov, carregamos o pesado e insuportável fardo da culpa, de forma que fomos castigados com o "banimento da glória de Deus" e, por isso, somos desesperadamente carentes dela [vs. 23]. Todavia, Deus interveio em nosso favor trazendo-nos uma "justiça gratuita" - i.e., como no caso de um juiz que absolve um réu confesso sem que este pague fiança ou forneça qualquer tipo de compensação, mas sim porque um inocente assume o custo de seu delito - através da pessoa e da obra de Jesus Cristo, o Qual foi oferecido por Deus como um "sacrifício" (e.g., um "cordeiro pascal") para que a Sua própria justiça fosse satisfeita e demonstrada, visto que todo crime exige uma punição à altura e, por isso, alguém precisaria assumir a devida punição pelos pecados cometidos e que, até então, haviam sido tolerados [vs. 24-25]. Logo, os "crimes" que tinham ficado "sem castigo" por causa da paciência de Deus viriam a ser lançados sobre Cristo - o único "verdadeiramente inocente" -, a fim de que Deus se mostrasse simultaneamente justo (por não fazer "vista grossa" diante do pecado) e justificador de todos os que confiam/confiassem em Cristo, cuja justiça infinita lhes é/seria, enfim, atribuída [vs. 26]. 


Resumidamente, a mensagem central da Páscoa consiste na intervenção direta de Deus, o Juiz de toda a terra [ver Gênesis 18, vs. 25b], para "salvar criminosos que mereciam tão-somente um castigo eterno", uma vez que Ele mesmo assumiu a natureza humana ao encarnar-Se na pessoa de Jesus, o Qual padeceria o "castigo mais cruel" de toda a história sem que houvesse nenhum "crime" que O tornasse merecedor de tal sentença. Assim, é na Páscoa que vemos, num homem crucificado entre dois transgressores [Evangelho de Marcos 15, vs. 28 e Isaías 53, vs. 12], o supremo "CASTIGO SEM CRIME" para que os crimes dos "verdadeiros bandidos" ficassem "sem castigo" - a saber, apenas para os que, à semelhança de Raskólnikov, "confessam" a sua miséria e reconhecem a sua necessidade de redenção

Em contrapartida, ainda resta uma pergunta a ser respondida: e quanto aos "crimes" (ou os pecados) cometidos depois do nascimento e da morte de Cristo? 

Sabendo-se que há inúmeras atrocidades que não foram punidas pela "justiça humana" ao longo de todos esses séculos e que igualmente estão sendo "toleradas" por Deus (por assim dizer), o que garante que os vários "Raskólnikovs" dentre nós serão "eternamente absolvidos" de seus "crimes" e que, em contraste, os demais serão adequadamente condenados? 

A resposta está no "clímax da Páscoa": a ressurreição de Jesus Cristo. 


Sem dúvida, aqueles que participaram ativamente da condenação de Jesus Cristo à morte agiram de modo "sumamente maquiavélico", visto que se valeram de "todos os meios que lhes estavam ao alcance" para atingirem o "fim desejado": matar o Filho de Deus e Rei dos Judeus. A propósito, a respeito destes está escrito (profetizado):

"...Os reis da terra se levantam, e os PRÍNCIPES conspiram unidos contra o SENHOR e o Seu Ungido..." [Salmo 2, vs. 2] 

Assim, a partir do momento em que Cristo passou a ser uma ameaça aos poderes religioso (fariseus, saduceus etc.) e político (herodianos, romanos etc.) da época, estes passaram a conspirar contra Ele de todas as formas a fim de "eliminar a ameaça" até que, ao "chegar a ocasião oportuna", um dos próprios discípulos de Jesus, Judas Iscariotes, viria a traí-lo por 30 moedas de prata e o entregaria nas mãos dos "piores criminosos" que talvez já existiram, os quais mostrariam toda a sua malícia, iniquidade e vileza ao julgá-Lo injustamente, açoitá-Lo, ridicularizá-Lo e, no fim, crucificá-Lo. No entanto, os "poderosos" não foram/são os únicos culpados de todas as injustiças inomináveis cometidas contra Cristo, mas também todos os que gritaram "...Crucifica-O, crucifica-O! [...] Que o Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!" [Evangelho de Mateus 27, vs. 22-23 e 25] e, por extensão, todos os pecadores de todo povo, tribo, língua e nação - incluindo você e eu. 

Porquanto, com a morte de Jesus naquela "Sexta-Feira Santa", pode-se supor que todos os "seres maquiavélicos" do universo - sejam os "príncipes do mundo", sejam os "principados e potestades" e, sobretudo, o "príncipe do poder do ar" [vide Carta aos Efésios 2, vs. 2 e cap. 6, vs. 12] - teriam "129 milhões de motivos para comemorar" durante o restante da sexta-feira e por todo aquele "sábado silencioso"... Todavia, para a completa frustração deles, o Domingo estava chegando

A "chegada do Domingo" traria a remoção da pedra selada pelos romanos à entrada do sepulcro onde Jesus fora colocado e, consequentemente, o espanto e terror dos soldados que a vigiavam diante daquele susto e, de modo particular, dos anjos que lhes apareceram e os fizeram cair como mortos [Evangelho de Mateus 28, vs. 2-4]. Aquele "primeiro dia da semana" nos arredores de Jerusalém (por volta dos anos 29-34 A.D.) seria o marco de uma "virada de chave" que mudaria a história de tudo o que existiu, existe e existirá de modo cabal e definitivo: o Deus-Homem, que fora morto pelas mãos de homens ímpios, havia ressuscitado dos mortos para nunca mais morrer [Atos dos Apóstolos 2, vs. 23 e Romanos 6, vs. 9] e, pela Sua ressurreição, garantir a vitória final sobre o mal, o pecado e a morte para todos os que Lhe pertencem (e, em última instância, para toda a Criação), uma vez que esse "Deus-Homem ressuscitado" regressará do céu (onde hoje está assentado à direita de Deus Pai) para julgar o mundo com justiça [Atos 1, vs. 10-11 e cap. 17, vs. 31].  


Com a chegada desse "Dia de Juízo", os "criminosos" que não haviam sido apropriadamente "castigados" (e muitos outros, em termos mais gerais) desejarão a morte ao ponto de implorar aos montes e às rochas para que caiam sobre eles [Apocalipse 6, vs. 15-16] a fim de se esconderem "...da face Daquele que está assentado no trono e da ira do Cordeiro..." - isto é, morrer parecerá melhor do que ter de encarar a justiça de Deus e a indignação de Cristo, uma vez que não há como se "escapar de Deus" quando Ele deseja nos achar por causa de nossos pecados [vide Números 32, vs. 23]. Por outro lado, os que pertencem a Cristo serão finalmente vindicados nesse Dia e, assim, todos os males e injustiças sofridas por eles serão recompensados com triunfo e glória eternos, o que também incluirá a justa retribuição a todos os seus inimigos (os quais são, sobretudo, inimigos do próprio Cristo), como está escrito:

"...É JUSTO DIANTE DE DEUS que Ele pague com tribulação os que lhes atribulam,
E para vocês, que são atribulados, lhes dê ALÍVIO, bem como a nós, quando o Senhor Jesus se revelar do céu com Seus anjos poderosos em chama de fogo,
PUNINDO os que não conhecem a Deus e os que NÃO OBEDECEM AO EVANGELHO..."
[2 Tessalonicenses 1, vs. 6-8] 
e
"...Graças Te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és e que eras, porque ASSUMISTE TEU GRANDE PODER e COMEÇASTE A REINAR... 
Então veio a Tua ira, e o tempo de... dares RECOMPENSA a TEUS SERVOS, os profetas, AOS SANTOS e AOS QUE TEMEM O TEU NOME, aos pequenos e grandes, e de DESTRUÍRES OS QUE DESTROEM A TERRA..." 
[Apocalipse 11, vs. 17-18]

Em poucas palavras, esses dois trechos do Novo Testamento ensinam que é justo que os inimigos da Igreja de Cristo SOFRAM O MESMO que fizeram e intentaram contra ela e, em contrapartida, que os discípulos de Jesus obtenham alívio de todas as suas aflições - o que se tornará realidade com o Segundo Advento de Cristo e a consumação do Reino de Deus na história [e.g., Apocalipse 11, vs. 15].


No entanto, não serão apenas os "crimes sem castigo" praticados contra a Igreja que serão punidos, mas também 1) cada centavo roubado do povo para fins de poder político ou enriquecimento ilícito, 2) cada inocente assassinado pelo "tribunal do crime", 3) cada menina violada e/ou explorada em escravidão sexual para o "prazer" de animais pedófilos por todo o mundo, 4) cada vítima que padeceu os horrores do terrorismo e/ou de ditaduras totalitárias e genocidas, 5) cada cidadão preso injustamente por causa de calúnias, difamações, falsas narrativas ou sob leis injustas e paranoicas e, por fim, 6) todos os que promoveram toda forma de falsa piedade/religião "em nome de Deus" ou da "busca da verdade", já que "...Deus não terá por inocente aquele que tomar o Seu nome em vão..." [ver Êxodo 20, vs. 7]. Isto é, em Sua primeira vinda, Cristo viria para ser CASTIGADO PELOS NOSSOS PECADOS sob o peso da ira do Seu Pai [ver Isaías 53, vs. 10a], embora não houvesse cometido crime algum - contudo, em Sua segunda vinda, Ele é Quem CASTIGARÁ a todos os "criminosos" que outrora estavam "sem castigo", o qual será eterno e inescapável [Evangelho de Mateus 25, vs. 46]. Assim, é por meio da destruição do mal e de todos os malfeitores que Deus consolará a todos os que confiam Nele, de tal modo que, se Cristo não tivesse ressuscitado, tal consolo seria uma ilusão - bem como toda "esperança de justiça". Porém, como dizem os cristãos gregos,

CHRISTÓS ANESTI, ALITHOS ANESTI!
CRISTO RESSUSCITOU, VERDADEIRAMENTE RESSUSCITOU!

E quanto a você?

Você se identifica com a "primeira fase do Raskólnikov" - um homem que se achava "acima do bem e do mal", cujos objetivos justificariam quaisquer "crimes"? Ou, ao contrário, você se vê afligido pelo peso da culpa e, assim como ocorre na "segunda fase de Raskólnikov", já reconhece que precisa de ajuda e até mesmo de "redenção"? 

Além disso, você também é como eu - alguém que se enfurece com a impunidade e a injustiça e anseia, ardentemente, que tudo isso chegue ao fim um dia? Se esse for o caso, em que (ou em Quem) estaria a sua esperança quanto ao "triunfo final do bem sobre o mal"? 

Finalmente, já que estamos na época da Páscoa, será que você tem dado (ou já deu) a devida atenção ao real significado dessa data? Se ainda não, até quando desprezará o que Deus fez em favor dos pecadores ao enviar Jesus Cristo ao mundo? 

Em suma, você preferirá arrepender-se de seus pecados a fim de ser perdoado pelo "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" hoje ou, em sua rebeldia, continuará a acreditar que poderá permanecer de pé diante do "Cordeiro irado" que um dia virá julgar os pecadores não-arrependidos? 




Pela alegria de ter todos os meus crimes "castigados Nele",




Soli Deo Gloria!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A Perfeição Eminente-Iminente: do Natal ao Segundo Advento

Das profundezas, a Deus, eu suplico,
Onde a fé já parece estar ausente,
No entanto, perante Ele eu insisto
Para que, enfim, me torne mais crente -
Em nenhum outro, mas só em Seu Cristo,
Cuja justiça dura eternamente.
Assim, eu não "jogarei a toalha"
Diante do "triunfo dos canalhas"

Num mundo onde "o crime compensa",
A integridade parece tolice;
O mal, contudo, é quase "onipresença",
Como Chesterton outrora já disse;
Por isso, a fim de que o bem vença,
É preciso audácia e "expertise":
Com audácia, luta-se o bom combate
E com sapiência, derrota-se a maldade.

Mas, uma vez que esta se espalha
Incontida pelos cantos do mundo,
Como as chamas duma antiga fornalha
Feita por um grande rei furibundo,
Embora também sutil, qual navalha
Cujo corte é letal e profundo:
Terias Tu, pois, nos abandonado
Ao bel-prazer dos nossos adversários?

Creio, assim, ser bem mais que auspiciosos
Os tempos de Advento e de Natal,
Já que os dias são maus e trabalhosos
Durante essa vida dura e mortal.
O primeiro, torna-nos esperançosos;
O último, é como um "dom divinal" -
Da expectativa ao arrependimento,
Até ver da promessa o cumprimento.  


Muitos, pois, desde tempos mais antigos,
Aguardaram com grande expectativa,
Em face de aflições e de perigos,
A chegada, qual estação estiva,  
De uma Aurora Nascente, Rei-menino,
Que lhes fosse por esperança viva: 
Veio, pois, até nós o Emanuel,
P'ra redimir de Deus o Israel.

Nascido de mulher, o Homem-Deus,
Nascido sob a Lei, mas sem pecado,
Proclamou ao mundo o "Reino dos céus"
Após ter Seu caminho preparado.
Embora inocente, morreu entre réus,
Dentre os homens, o mais humilhado -
Até que, enfim, dos mortos ressurgiu
Visto que nenhuma corrupção viu


Assim, aos céus redivivo ascendeu
Para que assumisse Sua posição
De Rei, para que diante de Deus
Fizesse pelos Seus intercessão,
A fim de salvar os que escolheu
Com definitiva perfeição.
Seja Seu nome p'ra sempre bendito
Por Seu amor constante e infinito

No entanto, nada disso existiria
Se o Verbo não se tornasse homem,
Cuja natureza resgataria
Mediante Sua graça, a qual consome
Toda a resistência e rebeldia
De uma vida inútil, vil e infame
Logo, é no Natal que se inaugura
A consumação da vida futura. 


Tal realidade, de fato, se aproxima,
A cada novo dia, hora e instante,
Cuja aparição será repentina
- Qual raio, pelos céus insinuante, -
Para fazer a ceifa e a vindima
De todos os injustos e arrogantes:
Aqui findarão as "democracias"
Pois haverá "uma só Monarquia".

Que venha o Teu reino, sem mais demora,
Sabedoria de Deus, Senhor Nosso;
Chave de Davi, das ovelhas a Porta,
Raiz de Jessé, emblema dos povos
Ergue-Te, Sol Nascente, pois é hora
De engrandecerem-Te os gentios todos.
Vem, Emanuel, e não Te demores,
E, assim, Tu sararás as nossas dores


Enquanto, porém, não chega este Dia,
Nos chamas a viver com confiança
De que, em breve, a Suprema Alegria
Não será mais apenas "esperança".
Hoje vivemos por fé, não por vista;
Amanhã, ganharemos nossa herança -
Isto é, a amável "visão beatífica",
Que torna a eternidade vera vida

Destruídos, pois, serão Teus inimigos,
Ante o toque da última trombeta,
Redimidos, todavia, os Teus amigos,
Para que vivam nos novos céus e terra
Eis que é chegado o domínio do Cristo,
Para o qual não mais haverá fronteiras:
A "Perfeição Eminente-Iminente",
Na qual seremos "felizes p'ra sempre"


Soli Deo Gloria!

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Turning the point downside up...

Após alguns meses de ausência (como normalmente ocorre por aqui), estamos de volta.

De início, existem diversos motivos para este retorno, mas o principal deles é a combinação de episódios recentes que têm revelado a face mais sórdida e desprezível de muitos ao nosso redor a um certo conjunto de eventos bem mais antigos - os quais, contudo, mostraram o que acontece quando "a luz resplandece nas trevas e estas não prevalecem contra ela", como vemos em seu lema "Post Tenebras Lux" ou "Depois das Trevas, a Luz". Ficou curioso? Fique até o fim e, com paciência, leia. 

Esse texto pretende ser um "ponto de virada" que vire as coisas "de baixo para cima" - conforme o seu título em inglês -, de modo que nenhum dos seus poucos leitores permaneça numa "apatia com aparência de virtude" e, consequentemente, não se oponha ao mal (não importando qual seja) de acordo com as reais proporções dele, tornando-se culpado do seu triunfo. Ou seja, minha intenção é "tirar a paz" de todos os que passarem por aqui a fim de que essa "apatia" se transforme em coragem em defesa do bem e da verdade - sobretudo aquela "Verdade", pela qual todas as demais coisas são verdadeiras.

Logo, sem mais rodeios, sigamos em frente - e que Deus me ajude


Primeiramente, não haveria modo mais justo de introduzir esse texto do que mencionando um episódio dos Atos dos Apóstolos (relato bíblico que apresenta as primeiras décadas da história da igreja cristã no séc. I, desde Jerusalém até outras partes do antigo mundo greco-romano), no qual também houve um "ponto de virada", como mostrado a seguir:

"...Paulo e Silas [...] chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga judaica.
Como de costume, Paulo entrou na sinagoga e, durante três sábados, conversou com as pessoas que estavam  sobre as Sagradas Escrituras [...], provando que o Messias precisava morrer e ressuscitar dos mortos. Ele disse [...]: este Jesus, que eu lhes anuncio, é o Messias (i.e., o Cristo).

Alguns deles se convenceram e se uniram a Paulo e Silas [...], mas os judeus ficaram com inveja e, junto com alguns agitadores que reuniram na praça do mercado, eles formaram um bando. Eles causaram confusão pela cidade e atacaram a casa de Jasão (Jasom), tentaram encontrar Paulo e Silas e... como não os encontraram, eles arrastaram Jasão e alguns outros seguidores de Jesus para apresentá-los aos líderes da cidade, gritando:

Estas pessoas são conhecidas por causar problemas, virando o mundo de cabeça para baixo, e agora elas/eles vieram para cá... Todos eles desobedecem às leis do imperador romano, cometendo traição ao dizerem que há outro rei, chamado Jesus..." 

- Atos dos Apóstolos 17, vs. 1-7 (Bíblia Livre para Todos, versão de Portugal) 


Esse trecho relata a chegada de Paulo e Silas a Tessalônica (localizada na antiga Macedônia e na atual Grécia), que à época estava sob o domínio romano. Durante um período de 3 semanas (ou um pouco mais, talvez), Paulo esteve na sinagoga debatendo com os judeus da cidade, provando pelas próprias Escrituras que Jesus era o "Messias prometido". Como resultado, alguns creram na pregação de Paulo, mas outros ficaram indignados a tal ponto de organizarem motins e ataques aos novos cristãos, acusando-os de traição contra Roma em razão de sua fé em Jesus Cristo. 

Nesse contexto, os opositores de Paulo e Silas descrevem com precisão a real natureza dos mensageiros de Cristo e de sua mensagem ao afirmarem que "eles estavam virando o mundo de cabeça para baixo" - os quais, segundo o Palavrantiga, estariam "...subvertendo o mundo por amar a Esperança que salta os muros...". Assim, esse momento viria a ser um "turning point" para toda aquela região e até mesmo para todo o Império, uma vez que a fé cristã era (e é!) tanto uma postura religiosa quanto uma decisão política, por meio da qual cada cristão estaria confessando que "César" não era o seu Κύριος (e.g., Kyrios - port., "Senhor"), mas unicamente Jesus Cristo - o que poderia (e ainda pode) custar tudo, incluindo a vida. 

Por tudo isso, pode-se concluir que, desde os tempos do Novo Testamento, assumir um compromisso com Jesus Cristo de modo resoluto e público sempre tem sido um "motivo de transtorno" e "incômodo" para todos os que não crêem Nele, de forma que não há como ser um discípulo Dele sem "subverter" a "Cidade dos homens" - seja aquela em que todos agora estamos, seja a que tantos dentre nós desejam erguer por meio de suas "utopias políticas" e outras fantasias. Em face disso, em que sentido a noção de um "virar o mundo de ponta-cabeça", o discipulado cristão e a Reforma Protestante estariam relacionados? Por que essas coisas, devidamente associadas uma à outra, deveriam nos tirar do "conformismo diante do mal" circundante para que sejamos como soldados que se adequam à máxima latina "SI VIS PACEM, PARA BELLUM" (e.g., "se queres paz, prepara-te para a guerra")? Leia os próximos parágrafos e (assim espero!) encontrará a resposta. 


É provável que muitos dentre nós conheçam o seguinte silogismo: "tempos maus criam homens fortes e homens fortes criam tempos bons; mas tempos bons criam homens fracos e homens fracos criam tempos maus". Assim, o ciclo apresentado por essa citação pode ser claramente observado ao longo do tempo, pois a experiência mais comum às diferentes sociedades mostra que o sofrimento acaba por fortalecer as culturas e povos cujos fundamentos e raízes são mais firmes e, por outro lado, causa o esfacelamento daquelas "civilizações" onde as chamadas "virtudes cardeais" - a saber, fortaleza, prudência, justiça e temperança - estão ausentes

Nesse sentido, podemos citar o povo judeu/israelita que, embora tenha enfrentado ao longo de sua história milenar diferentes situações de escravidão, escassez, oposição e hostilidade de povos inimigos, massacres, exílio, diásporas até que, no último século, foi alvo de genocídio (esse sim de verdade!) pelas mãos dos nacional-socialistas alemães (e.g., nazistas) sob o comando de Hitler, conseguiu permanecer vivo, preservando suas tradições, cultura, religião e identidade, constituindo-se um exemplo notório de uma sociedade forte e capaz de "ressurgir das cinzas" - assim como o Cavaleiro de Bronze "Ikki de Fênix" no clássico anime "Cavaleiros do Zodíaco". Em contrapartida, pode-se mencionar o Império Babilônico, o qual durante alguns séculos antes de Cristo se tornara o maior poder existente e cuja glória havia se estendido por vários territórios no Antigo Oriente Próximo (i.e., Oriente Médio), inclusive até os judeus do antigo reino de Judá (pertencente à dinastia de Davi). No entanto, com a ascensão dos medo-persas e, mais tardiamente, dos gregos, selêucidas, ptolemaicos e romanos, a outrora "grande Babilônia", edificada pelo famoso rei Nabucodonosor II, seria feita uma "perpétua desolação", uma "terra sem homens nem animais" que seria "afundada no rio Eufrates para nunca mais se reerguer", o que indicava que seu esplendor ficaria restrito aos grandes museus que surgiriam séculos após a sua ruína. 

Consequentemente, o que diferenciaria os judeus dos babilônios (ou caldeus)? Por que aqueles continuam entre nós como um povo forte (com muitas das pessoas mais prósperas do mundo, contendo cerca de 8% dos prêmios Nobel etc., embora sejam somente cerca de 15-17 milhões em todo o planeta) e os últimos são apenas parte de registros arqueológicos - de grande valor, sem dúvida -, apesar de que existem caldeus ainda hoje em países como Iraque e Síria? Uma resposta simples é: a quantidade de "tempos maus" vividos pelos judeus os tornaram mais fortes (o que voltamos a ver claramente desde 7 de outubro de 2023), de forma que tais virtudes, em alguma medida, têm sido vistas no meio deles há milênios - o que não foi o caso dos babilônios. Logo, sem as devidas qualidades morais, qualquer civilização está sujeita à degeneração e, portanto, a ser destruída


Desse modo, uma explicação bastante razoável para a situação catastrófica da humanidade atual - e, em particular, das nações e culturas que foram mais privilegiadas com bons valores e diferentes virtudes (como as supracitadas) - é que os "tempos bons" não têm sido acompanhados por uma atitude de conservação desses valores nos últimos 2 séculos (especialmente do séc. XX até aqui), mas por uma postura de ressentimento histérico, negação contumaz da realidade imediata, desejo desenfreado de falsear e substituir a história e, acima de tudo, por um ódio assassino por tudo e todos que sejam considerados uma ameaça ao "sentimentalismo tóxico" bem como aos planos daqueles que, à semelhança do excrescentíssimo juiz Dias Toffoli, se reconhecem "editores/censores de uma sociedade inteira, de um país inteiro e - ouso dizer - até do universo inteiro". Em poucas palavras, o "homem-massa" de Ortega y Gasset se tornou o padrão de conduta e, como resultado, a maioria de nós desfruta de benesses pelas quais não lutamos e desprezamos em nossos discursos até que, por fim, desejamos destruí-las "em nome de um mundo melhor". 

O que justificaria, pois, a existência de hordas de "estudantes" (que não estudam, obviamente) em marcha pelos campi e pelas praças e ruas de cidades como São Paulo, Nova York, Londres, Barcelona, Lisboa, Berlim, Bruxelas, Roma, Paris, Amsterdam, Bogotá, Melbourne etc. a defender uma "causa" cuja marca é o massacre de pessoas inocentes - incluindo a queima ou o esquartejamento de bebês vivos - senão a ausência absoluta de amor ao próximo e a perda total do senso de humanidade? Que adjetivo seria mais adequado para descrever essa "sede insaciável de sangue" além de "diabólico"? Sem dúvida, se eu descobrisse um vocábulo que comunicasse melhor a magnitude do mal de que estamos falando, certamente este termo seria o mais aplicável; contudo, uma vez que me falta a devida erudição, direi que a maldade dessa "gente" é indescritível

A propósito, embora eu já tivesse uma noção a respeito de como identificar uma possessão demoníaca, a partir do dia 10 de setembro de 2025 (data do homicídio brutal do Charlie Kirk - um cristão protestante, pai de duas filhas e ativista conservador) eu testemunharia tudo às claras: por toda parte, especialmente em vídeos curtos na internet, eu acompanhei algumas das cenas mais imundas e vis já registradas, nas quais criaturas abomináveis e sub-humanas, mais repulsivas do que qualquer verme ou parasita, de almas mais podres e fétidas que um corpo contaminado por um câncer em metástase (ou em putrefação), celebravam, com risos visivelmente satânicos, o assassinato a sangue frio de um homem que tão-somente gostava de debater ideias com um espírito cordial e cortês. Dessa forma, é muito provável que o contraste entre a nobreza do Charlie Kirk e a sordidez pútrida de seus "inimigos" justifique o fato destes últimos o odiarem ao ponto de assassiná-lo e comemorar esse crime hediondo, tendo em vista que o Homem mais justo que esse mundo já viu - na verdade, o Único verdadeiramente justo - também fora, como está escrito, "odiado sem motivo" (vide João 15, vs. 25; e.g., Salmo 35, vs. 19 e 69, vs. 4) e igualmente assassinado "pelas mãos de homens ímpios" (Atos 2, vs. 23 - e.g., 4, vs. 27). Todavia, há uma diferença importante a ressaltar: o Kirk foi tirado de sua família e amigos pelo poder da morte e eles não mais o verão (ao menos por enquanto), mas o Filho de Deus ressuscitou e hoje vive para que todo aquele que Nele crê (como no caso do Kirk) "tenha a vida eterna" e seja "ressuscitado no último dia" (João 6, vs. 39-40) para nunca mais morrer, assim como Ele foi (Romanos 6, vs. 9 e 14, vs. 9). 


De fato, se formos relatar em detalhes as injustiças e desgraças que ocorrem diariamente ao nosso redor, teríamos de fazer a mesma pergunta do autor da Epístola aos Hebreus enquanto escrevia sobre os chamados "heróis da fé" - a saber: "E O QUE MAIS DIREI"? 

Faltar-me-ia tempo para falar de Iryna Zarutska (jovem ucraniana e refugiada de guerra que foi degolada friamente por um criminoso reincidente num trem nos EUA pelo simples fato de ser BRANCA, já que o bandido NEGRO dissera ter "pegado a garota branca" após esfaqueá-la no pescoço) e de tantas outras meninas/mulheres brancas por toda a Europa, América do Norte e Oceania que têm sido abusadas, agredidas, assediadas, estupradas e mortas por animais selvagens com "aparência humana" que afirmam fazer isso "em nome de seu deus único" e como parte de sua "lei divina". Ora, o que esperar de uma "pseudo-religião" baseada num "profeta" que não passava de um carniceiro pedófilo, o qual ousou se casar com uma menina de 6 anos (cuja consumação ocorreu quando ela tinha somente 9 anos!) e marcada por uma expansão feita através da escravidão, genocídio e terror? Do mesmo modo, não se pode supor que uma mentalidade político-social fundamentada na "abolição das verdades eternas" e na "destruição de tudo quanto existe" possa produzir quaisquer bons frutos, porém unicamente desordem, loucura, perversão, calamidades e morte por onde passa e se estabelece. 

Logo, ao considerarmos a presença de males tão desenfreados e ilimitados (de acordo com a nossa perspectiva puramente humana), a única fonte de consolo e esperança é que, embora não nos recordemos de muitas dessas maldades e injustiças e sejamos impotentes contra elas, Deus não se esquece delas e, no tempo determinado, tomará vingança contra todos os malfeitores que, por enquanto, assolam o mundo impunemente. 


Portanto, em face de impiedades quase incontáveis, toda atitude de indiferença e letargia, assim como toda ausência de indignação justa e ousada, é prova incontestável de que não basta afirmarmos que defendemos a justiça e a verdade ou que "detestamos o mal e nos apegamos ao bem" se, NA PRÁTICA, preferimos a "política de boa vizinhança" ou evitamos os "conflitos desnecessários" em lugar de "...libertarmos os que estão sendo condenados à morte e salvarmos os que cambaleiam ao ser levados para a matança..." (Provérbios 24, vs. 11), de forma que não poderemos dizer: "...não sabíamos de nada!...", pois "...Aquele que pesa os corações e atenta para a nossa alma perceberá, ficará sabendo e pagará a cada um segundo as suas obras..." (vs. 12). Entendamos de uma vez por todas: diante de Deus, a covardia que nos impede de fazer o que é certo e a "tolerância" diante do mal" exercida "em nome da paz" NÃO SÃO VIRTUDES, MAS PECADOS - e, por isso mesmo, se não nos arrependermos dessas coisas, o nosso destino é a perdição eterna, o lago de fogo que arde com enxofre, como está escrito:

"...Quanto, porém, aos covardes [...], a parte que lhes cabe será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte..." [Apocalipse 21, vs. 8] 

Isto é, se Deus "...não nos deu espírito de covardia, mas de fortaleza, de amor e de temperança..." (vide 2 Timóteo 1, vs. 7), os que confessam pertencer a Deus (e.g., os cristãos) não podem ser covardes enquanto chamam à sua tibieza "inteligência emocional" (eis uma expressão ridicularmente imbecil!) e, ao mesmo tempo, devem demonstrar coragem "na medida certa" e "conforme a ocasião", uma vez que a "sabedoria do alto" é, dentre outras coisas, "...pacífica, tratável, moderada e cheia de bons frutos..." (ver Tiago 3, vs. 17). Queira Deus, pois, usar esses "tempos maus" em que estamos a fim de sermos fortalecidos Nele e "...na força de Seu poder...", pois somente assim estaremos habilitados para combater os nossos "reais adversários" até que, após termos feito tudo, permaneçamos inabaláveis (vide Efésios 6, vs. 10-13). 


Diante dessa realidade, consideremos a seguinte situação: algum de nós flagra um terrorista armado atacando uma jovem para violá-la ou matá-la e, embora tendo consciência do mal representado pelo terrorismo e podendo impedir o crime, nada é feito (por nós) para ajudá-la... Que valor real teria o nosso "repúdio ao abuso de mulheres" - ou a nossa "oposição à criminalidade" - sem as devidas evidências concretas? Como resultado, conclui-se que a coragem (ou a fortaleza) é conditio sine qua non para que qualquer virtude seja verificável e genuína. Por isso, recordemos os eventos que culminariam na "Reforma Protestante" - os quais virariam o mundo "de cabeça para baixo" ou, dentro desse texto, seriam o "ponto de virada" do mundo da época "de baixo pra cima" -, já que tais acontecimentos são um exemplo notório de que "sem a coragem, todas as demais virtudes acabam por se tornar inúteis" (i.e., inoperantes ou mesmo inexistentes). 

Inicialmente, deve-se reiterar que, nos últimos anos, um texto com alguma temática referente à Reforma Protestante tem sido publicado aqui a cada outubro e, por isso, não é necessário repetir muitos detalhes históricos provavelmente já mencionados. Portanto, a seguinte linha do tempo é suficiente para nos situarmos no ambiente histórico desse "turning point" religioso e civilizacional:

SÉCULOS XII-XIII: surgimento dos Valdenses (fr. Vaudois; it. Valdesi), conhecidos pela defesa ao acesso à Bíblia em língua vernácula e pela modéstia material; eles foram tratados como hereges pelos romanistas;

SÉCULOS XIV-XV: surgimento de teólogos como John Wycliffe (Inglaterra), Jan Huss (Boêmia, Rep. Tcheca) e Girolamo Savonarola (Toscana, Itália), que também defenderam o acesso livre às Escrituras no vernáculo, desafiaram a autoridade papal e a corrupção na Igreja Romana; 

SÉCULO XVI: o "século da Reforma" propriamente dito, pois em 1517 Martinho Lutero publicaria suas 95 Teses na Alemanha e após alguns anos, sua excomunhão consolidaria o que chamaríamos de Protestantismo; no mais, diversos outros nomes surgiriam dentro do movimento, como João Calvino (França e Suíça francesa), Ulrich Zwínglio (Suíça germânica), Martin Bucer, William Farel etc. bem como diversos documentos e livros baseados nessa "fé nascente" (ou renascente); 

SÉCULO XVII: diferentes movimentos advindos da Reforma surgem e se consolidam em várias partes da Europa, como o movimento puritano britânico (que incluía presbiterianos, congregacionais, batistas etc.), os não-conformistas (igualmente plural), os menonitas e os arminianos neerlandeses (que eram mais destoantes dos demais grupos), dentre outros; 

Mas a pergunta que fica é: por que a Reforma foi/teria sido um "turning point" que deveria motivar os cristãos a procurar assumir a mesma atitude hoje? 


Primeiramente, a sociedade que viveu nos locais e épocas citadas acima era bastante distinta da atual, tanto no sentido político quanto no cultural/espiritual. A mentalidade do europeu medieval era profundamente religiosa e, mesmo em locais onde diferentes crenças "coexistiam" - como na Península Ibérica, invadida por muçulmanos desde o séc. VIII e ocupada por eles até o fim do séc. XV -, o pensamento greco-latino/católico-romano fundamentava a sua visão de mundo. Dessa maneira, os pressupostos a partir dos quais a sociedade funcionava eram, em linhas gerais, baseados na fé em Deus, na noção de eternidade, na busca do bom, do belo e do verdadeiro, bem como do respeito ao indivíduo associado à valorização das raízes/tradições e da realidade comunitária

Em contrapartida, a despeito destes aspectos positivos que compunham o que viria a ser a "Civilização Ocidental", havia um problema que não deve ser ignorado: muitas vezes, o "poder religioso" se misturava ao/com o "poder civil" e, consequentemente, a corrupção, a injustiça e até a perversão da própria religiosidade passariam a integrar aquela sociedade - em particular, os próprios círculos e ambientes religiosos. Como resultado, essa sociedade experimentaria o seu "turning point" mediante a confluência de diversos marcos históricos, a saber: o Renascimento nas artes e na vida intelectual, a "conquista dos mares" e as "descobertas de novos mundos" e, em especial, a Reforma Protestante, movimento religioso influenciado pelo "retorno às letras clássicas" (i.e., grego e latim) causado pelo Humanismo Renascentista, cujos frutos iriam além dos limites das cátedras de teologia e filosofia nas universidades e transformariam as vidas de príncipes e duques, de freiras e de monges, de futuros advogados e até de sapateiros, conforme se vê no exemplo a seguir:

- Senhor Lutero, eu sou apenas um sapateiro. Como eu posso fazer algo para agradar a Deus?
- Lutero: faça o melhor sapato que puder e venda-o por um preço justo!  

Na verdade, é razoável reconhecer que pessoas mais simples tenham feito seus "serviços menos sagrados" para agradar a Deus antes que a Reforma ocorresse (por exemplo, os artesãos dos vitrais e das esculturas das catedrais góticas), porém seria apenas a partir da Reforma que o "modo de enxergar a vida ordinária" mudaria radicalmente. Com isso, cada "trabalho comum" passaria a ser um "serviço litúrgico" - ou seja, a adoração a Deus seria uma obra ativa de todo indivíduo temente a Deus e não somente do clérigo, visto que todos estes haviam sido chamados por Deus para serem Seu "sacerdócio santo" (o que é devidamente expresso na doutrina reformada do "sacerdócio universal de todos os crentes"). Portanto, a comunhão com Deus não mais "exigiria uma mediação humana especial", com exceção da "única mediação" real e legítima: Jesus Cristo, o Deus-Homem. 


Logo, por mais que essa mudança seja apenas um dos diversos efeitos causados da Reforma, ela aponta para o seu principal fundamento - o qual também é o seu alvo: a suficiência e a exclusividade de Jesus Cristo como sustentáculo da "verdadeira religião" e, consequentemente, de toda a existência. Dessa maneira, qualquer estrutura, hábito, tradição, pensamento, crença e/ou modus vivendi que não fosse segundo Cristo mas conforme "os rudimentos do mundo" ou "a imaginação dos homens" (vide Colossenses 2) deveria ser, obrigatoriamente, subvertido(a). Tal "subversão" acabou acontecendo, mas não sem muitas tensões e disputas acirradas, nem sem guerras e/ou perseguições religiosas, as quais exigiriam coragem e sacrifício de todos os que passariam a professar a "nova fé (re)nascente", cujo testemunho implicaria, para muitos, o ódio mortal de seus opositores e, como resultado, o ostracismo forçado, o banimento social e, finalmente, o martírio, de modo que o sangue vertido seria como o "derradeiro verso" de um "poema de fidelidade", como se pode perceber na seguinte inscrição presente na Catedral de Notre-Dame de Paris: 

"...Puisse mon sang être le dernier versé..."
ou
"...Que meu sangue seja o último a ser derramado...".

Nesse caso, embora a declaração anterior tenha sido feita pelo arcebispo Denys Affre (i.e., um católico), assassinado durante um processo revolucionário na França em 1848 - o que é bastante irônico, pois nesse mesmo ano Karl Marx publicaria o "Manifesto Comunista" -, sua mensagem reflete de modo apropriado todas as atrocidades que os protestantes tiveram de suportar a partir do séc. XVI em razão da hostilidade dos próprios católicos (e.g., a Noite de São Bartolomeu em 1572; a perseguição implementada pela "Bloody Mary", a "rainha britânica sanguinária" etc.) em diversos países da Europa como França e Inglaterra, além de Escócia, Itália, Espanha, Alemanha, Bélgica, Países Baixos etc.. Essa constatação prova, de forma inequívoca, que a impiedade é a marca registrada de qualquer ser humano que não vive de acordo com Cristo (ou melhor, de todo aquele em quem Cristo não vive) - seja daqueles que se mostram notoriamente ímpios, seja daqueles que possuem apenas uma "aparência de piedade, mas negam-lhe o poder" (vide 2 Timóteo 3, vs. 5a). Quanto aos últimos, diz o apóstolo Paulo, "...afaste-se também destes..." (vs. 5b). 

Diante disso, deve-se salientar que os segmentos que constituíram a Reforma não buscaram, a priori, um afastamento total da igreja oficialmente instituída, mas a sua "purificação" moral, litúrgica e doutrinária (conforme já acontecera nos movimentos que a tinham precedido). Entretanto, não foi necessário que Lutero e os demais reformadores obedecessem ativamente ao mandamento de Paulo a Timóteo, tendo em vista que a "Igreja Romana" se encarregaria das "excomunhões dos novos hereges". Ou seja, semelhantemente ao episódio da destruição do Um Anel em O Senhor dos Anéis, o estabelecimento da Reforma e a consolidação de comunidades cristãs separadas da corrupção do romanismo seria, acima de tudo, "um triunfo da Providência", assim como Frodo não teria conseguido "cumprir a sua missão" sem a "ajuda inusitada" de Sméagol/Gollum - o qual se tornaria, de modo surpreendente, o "heróico anti-herói" da saga da Terra Média. 


Contudo, você pode/deve estar se perguntando: de que forma todos esses relatos e comparações influenciariam a nossa vida prática hoje
Quais frutos poderiam surgir em nossa realidade a partir do conhecimento desses eventos? E em que sentido o legado da Reforma deveria nos impulsionar a agir no mundo para que este tenha o seu "turning point" e seja subvertido "de baixo para cima"? 

Permaneça apenas mais um pouco e você descobrirá. 

Infelizmente, é razoável afirmar que a geração atual é a mais fraca, covarde e "emasculada" de toda a história, a tal ponto de gloriar-se de sua "frescura sofisticada" e de demonizar qualquer vestígio de força, sobriedade, austeridade e convicção que odeia enxergar nos outros. Logo, apesar de que essas qualidades possam ser vistas em qualquer ser humano de bom caráter, elas são próprias de homens de bom caráter, evidenciando que a degeneração que caracteriza a nossa humanidade reflete, de modo particular, uma decadência da masculinidade - ou mesmo uma guerra contra ela. Essa "revolução misândrica" (e.g., revolta generalizada contra os homens e tudo o que é masculino) atingiu a sociedade de modo abrangente e contaminou o modo de pensar de diferentes tipos de pessoas em toda parte - negros e brancos, ricos e pobres, instruídos e analfabetos, americanos e brasileiros, religiosos e céticos etc. -, embora os países de cultura ocidental estejam sendo mais gravemente devastados por essa "subversão social". Nesse contexto, é fundamental esclarecer que essa subversão tem sido exitosa sobretudo em razão da omissão da comunidade cristã que, em lugar de "...condenar as obras infrutíferas das trevas..." (vide Efésios 5, vs. 11) ao agir como "sal da terra e luz do mundo" (vide Mateus 5, vs. 13-16), têm preferido "se esconder dos conflitos para evitar se indispor com o mundo" ou, na pior das hipóteses, já tem abandonado a identidade cristã que dizia possuir para assumir a sua provável verdadeira natureza: o joio semeado no meio do trigo, cujo semeador é o diabo (vide Mateus 13, vs. 38-39). 

Diante disso, conclui-se que a Reforma Protestante jamais teria acontecido se os homens cristãos do passado não "tivessem sido fortes" ou "se portado varonilmente" (i.e., agido como homens, conforme 1 Coríntios 16, vs. 13), de modo que o "turning point" mais importante da história religiosa do Ocidente deve ser reconhecido, em certo sentido, como resultado de uma "masculinidade verdadeiramente masculina" - ou melhor, uma "masculinidade de acordo com a estatura de Cristo", o Homem perfeito. Em outras palavras, se os valdenses, Wycliffe e os lolardos, Huss, Lutero, Calvino, Cranmer, Latimer, Knox, Beza, Farel, Guido de Brès e tantos outros fossem todos "malakoi" (e.g., do hebraico, como diria o Nelipe Feto), dificilmente saberíamos que "somente as Escrituras" são a autoridade final em termos de fé e conduta, que "somente Cristo" é mediador entre Deus e os homens, que "somente a fé" é necessária para a justificação, que "somente a graça de Deus pode salvar eficazmente o pecador" e que, por tudo isso, "somente a Deus" devem ser dadas glória e honra e nunca a homens, instituições ou quaisquer ídolos inúteis. Ou seja, onde não há "homens homens" (como vemos no comercial do desodorante Old Spice), o que resta é tão-somente escravidão, ignorância e perdição moral e espiritual


Assim, como já foi dito, nossa situação atual não é tão diferente dos dias dos reformadores, pois, embora não haja atualmente uma hegemonia religiosa similar à da igreja romana na Europa à época (com exceção dos países de maioria cristã ortodoxa e de domínio otomano, neste caso), nota-se a presença dos mesmos problemas e desafios enfrentados pelos protestantes do passado, tanto externamente (e.g., a hostilidade política, a oposição de outros grupos religiosos etc.) quanto internamente (tolerância com falsos ensinos e falsos mestres, o comprometimento doutrinário a fim de agradar a sociedade etc.). 

Por isso, se os cristãos de hoje desejam experimentar um "novo turning point" análogo à Reforma (ainda que não venha a ter o mesmo alcance), é necessário imitar, com intrepidez e convicção, o exemplo daqueles que "viraram o mundo medieval civilizado de ponta-cabeça" para que aqueles que estavam ao seu redor redirecionassem o seu olhar "downside up" (port., "de baixo para cima"), tendo em vista que a "forma de religiosidade" vigente era um emblema do que Agostinho de Hipona (e o próprio Lutero) chamariam de "incurvatus in se" (lat., "curvada sobre si") - a saber, uma suposta devoção a Deus baseada teoricamente numa "sinergia entre a graça divina e a cooperação humana" que, de modo prático, consistia sobretudo em costumes vazios, em preceitos puramente humanos e na fé em si mesmo e suas "boas obras". Logo, o "turning the point downside up" é um convite ao abandono de todas as tentativas humanas de manipular a Deus "conforme a nossa própria imagem e semelhança" a fim de receber somente Dele a revelação de quem Ele é, de quem nós somos, de como Ele administra os Seus desígnios e de como devemos reagir a tudo isso. Isto é, toda falsa religião deve ser "lançada fora, ao fogo" (incluindo o Romanismo e as demais "ideologias" e "utopias políticas") e apenas a "religião pura e imaculada para com Deus, o Pai" (nas palavras de Tiago) deve ser recebida, a qual é legitimamente católica e apostólica, porém jamais romana

Desse modo essa firmeza de fé, que pode ser sintetizada no moto "Fides Reformata et Semper Reformanda Est Secundum Verbum Dei" (lat. e port.; "Fé reformada sempre se reformando segundo a Palavra de Deus"), também deve se manifestar de modo público e, como resultado, terá de ser provada em meio ao ódio do mundo, bem como ao desprezo dos "falsamente piedosos", aos ardis de satanás e às fraquezas remanescentes naqueles que a possuem. Logo, por mais que muitos dos que professam a fé evangélica não se vinculem ao protestantismo histórico (na verdade, possivelmente os "reformados de facto" sejam a minoria), todos os que genuinamente pertencem a Jesus Cristo precisam/precisarão tomar para si o mandato divino de "...combater o bom combate da fé..." (vide 1 Timóteo 6, vs. 12) em todas as trincheiras, mesmo que sejamos "assassinados com um tiro fatal no pescoço num campus universitário", massacrados aos milhares e odiados pelo mundo por usarmos uma estrela de 6 pontas em bandeiras, tatuagens e correntes, alvos de um "genocídio velado" perpetrado por "bárbaros" seguidores da "religião dos lobos solitários com problemas mentais" ou caluniados como os "grandes culpados de todos os males do mundo". Ora, o tempo de agirmos como "ursinhos carinhosos acovardados" acabou e, por isso, "...sejamos fortes e sejamos homens..." (ver 1 Reis 2, vs. 2), já que "frescura" é coisa de bebida cítrica ou de sorvete de frutas


Por tudo isso, pode-se resumir esse texto (um texto longo, sem dúvidas) na seguinte sentença: se Deus levantou homens fiéis a Ele e cheios de coragem para "subverterem o mundo ao virá-lo de baixo para cima" através da defesa incansável da "Verdade de todas as verdades" ao ponto de morrerem por ela (ou por Ele) em razão da Reforma Protestante, não podemos esperar qualquer reversão da situação calamitosa atual a menos que nos portemos como homens fiéis a Deus e tenhamos a coragem necessária para fazermos o mesmo que os reformadores e seus antecessores/sucessores fizeram. Ou seja, o discipulado cristão nunca foi, não é e nem será apenas a identificação com um discurso emocionalmente atraente e intelectualmente estimulante, mas a assimilação prática da fé em Jesus Cristo - ou, melhor do que isso, é a "...vida do próprio Cristo manifestada em nosso corpo mortal..." (vide 2 Coríntios 4, vs. 11), a qual será inevitavelmente vista em todos os locais onde houver alguém que verdadeiramente segue/siga a Cristo, visto que "...não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte..." (vide Mateus 5, vs. 14). 

Tal atitude produzirá, sem dúvidas, somente dois resultados: a aceitação ou a rejeição, a ou a incredulidade, a adoração a Deus ou a obstinação diante Dele. Portanto, sabendo-se que é Deus quem "transporta o homem do domínio das trevas para o reino de Seu Filho amado" mediante a obra do Espírito Santo, que "...convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo..." (vide Colossenses 1, vs. 13 e João 16, vs. 8), o dever dos seguidores de Cristo ou de cada "protex" - cuja fé é "saudável e protegida", purificada de toda superstição e heresia - é testemunhar acerca Dele, pois é Ele quem "atrai os pecadores a Si na medida em que é levantado" ante os olhos deles (e.g., João 12, vs. 32). Desse modo, se porventura vierem "tempos de refrigério" no meio desses dias maus em que estamos, estejamos cientes de que eles vêm "...da presença do Senhor..." (ver Atos 3, vs. 20) e atribuamos a Ele toda a glória por Seus benefícios - ou, como dissera Lutero sobre a Reforma e o enfraquecimento do papado: "...eu não fiz nada; [...] a Palavra de Deus fez tudo..."


Mas e quanto a você? 
Está satisfeito com a sua vida ou acredita que ela precisa de um "ponto de virada"?

Você é daqueles que comemora a morte de inocentes por "divergências políticas" fazendo vídeos sórdidos (comportando-se como um endemoninhado) ou ainda conserva algum senso de humanidade e de amor ao próximo? 

Por outro lado, você é um "cristão professo" que tem vivido uma vida apática e de conformismo com o mal? Se sim, até quando permanecerá em sua covardia sem ao menos se indignar interiormente diante da prevalência da iniquidade no mundo? 

Finalmente,  se você acha que a sua vida precisa ser "virada de ponta-cabeça", para qual direção o seu olhar está voltado? Para si mesmo (onde há somente incertezas, insatisfação e impotência - por mais forte que você se sinta ou acredite ser) ou para Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, o Qual veio dos céus por nós e nos foi dado para nossa salvação eterna e suficiente? 




Pela alegria de ter vivido um "turning point" eterno,




Non nobis Domine, sed nomini Tuo da gloriam! 
Soli Deo Gloria!