quarta-feira, 27 de setembro de 2023

A "santa ignorância" do pau oco...

Após mais um período ausente, creio que é hora de escrever novamente.

Os últimos meses têm sido muito atarefados por ocasião do encerramento do doutorado (que já está quase concluído, excetuando alguns trâmites burocráticos) e do trabalho. Todavia, não há como conter certas indignações, como os poucos que lêem este blog bem sabem. Assim, visto que não posso (e nem devo) agir do modo que muitas vezes eu gostaria, eu prefiro escrever - ora, não há necessidade de se consertar os dentes após a leitura de um texto, mesmo o mais duro e contundente deles.

Portanto, sigamos em frente e que uma justa medida de amabilidade me ajude até o fim. 


Ignorância.

A palavra ignorância deriva do termo latino "ignorantia" (que está associado ao verbo "ignorare" - i.e., "não saber"), sendo formada pelo prefixo "i-" (que indica uma negação) e a terminação "-gnarus" (e.g., "sabedor", "que domina um assunto"). Logo, a ignorância se refere, primordialmente, a "não possuir o correto conhecimento sobre algo" ou "não estar ciente de alguma coisa", embora seja também usualmente relacionada a uma atitude/um comportamento áspero e destemperado. 

Os "santos do pau oco".

Por outro lado, a expressão "santo do pau oco" se tornou popular no contexto brasileiro em virtude de relatos segundo os quais imagens de madeira de santos católicos eram usadas como uma "embalagem falsa" para se guardar/transportar diferentes tipos de bens e riquezas de modo ilícito. Nesse caso, tais imagens não seriam maciças em sua constituição mais interna - não obstante tivessem a mesma "aparência" de uma imagem comum - e, por isso, serviam como um "disfarce perfeito" para que os itens de interesse de quem as utilizava fossem armazenados "acima de qualquer suspeita". Isto é, por fora o "santo" parecia "de verdade", mas por dentro ele era "oco", sem substância ou consistência, servindo apenas para "simular" algo exteriormente respeitável (a exemplo de um ícone religioso) enquanto, na realidade, era tão-somente um embuste engendrado para se esconder furtos e outros delitos semelhantes. Vale salientar, por fim, que não posso afirmar em quais proporções esses relatos seriam verdadeiros ou inverídicos; todavia, isso não irá alterar a argumentação a ser desenvolvida no texto.


Desse modo, o que seria uma "santa ignorância do pau oco"?

Considerando-se que todo o conteúdo deste post será para responder a essa pergunta e trazer a solução para o problema que ela representa, não será possível fazer isso num único parágrafo. Contudo, um bom resumo do que seria essa "santa ignorância" é: a atitude hipócrita e dissimulada de querer se mostrar virtuoso/justo e que se baseia na mentira/calúnia, a qual se expressa freqüentemente por meio de outras mentiras e calúnias e está normalmente permeada de orgulho e obstinação. Nesse sentido, é provável que a maioria de nós já tenha ouvido, em alguma situação ou contexto particular, que "a ignorância é uma bênção", porém eu espero que depois desse texto você deixe de acreditar nessa idiotice - se esse for o seu caso. Portanto, este que vos escreve estas linhas terá uma árdua missão daqui em diante: ser inflexível com os males decorrentes dessa "santa ignorância" (seja nele próprio, seja nos outros) sem agir, no entanto, com aquela "ignorância" mais ríspida (o que, admito, não será fácil!). Seja Deus o meu Mestre e Ajudador, visto que Ele é "justo em Suas palavras" e "puro em Seus juízos". 


Primeiramente, esse texto é dirigido a cristãos (especialmente a evangélicos/protestantes). Entretanto, se algum leitor que não professa a fé cristã (independentemente de seu segmento) ou qualquer outra religião se interessar em continuar a leitura, fique à vontade - espero, assim, contribuir com algo útil e proveitoso para todos os que dedicarem um tempo para este texto, sejam quais forem suas convicções religiosas ou valores pessoais. 

Portanto, muito embora o que está sendo tratado aqui não seja uma novidade (uma vez que, "desde que o mundo é mundo", a hipocrisia, a soberba e a insensatez existem entre os seres humanos), as mudanças históricas, sociais e culturais mais recentes têm possibilitado que tais pecados se expressem sob diferentes formas e matizes. Por exemplo, apesar de que a história humana apresenta diferentes relatos de povos que maltratavam e desprezavam outros (como os egípcios aos hebreus, ou os caldeus aos medo-persas), as categorias pelas quais muitos de nós descreveríamos esse desprezo não existiam na Antiguidade, de modo que uma análise precipitada dessas relações sociais do mundo antigo seriam facilmente anacrônicas. Desse modo, considerando-se que a nossa sociedade está testemunhando mudanças cada vez mais instantâneas, drásticas e em grande número, creio ser possível afirmar que nunca fomos tão "criativos", por assim dizer, em "emoldurar a multiforme desgraça" decorrente de nossos pecados, cujos quadros conseguem ser muito piores do que as "grandes obras da 'arte' moderna".


Semelhantemente, ao considerar o contexto religioso/cristão em particular (como dito acima), tenho observado a presença desses mesmos pecados em suas múltiplas manifestações e anacronismos e, nesse caso, abordarei a atitude de estupidez intelectual de certa parcela dos cristãos atuais com relação à sua própria história e identidade, incluindo as conseqüências desastrosas advindas dessa postura. Em contrapartida, pretendo apresentar a resposta para o problema da 
"santa ignorância" e como (ou melhor, em Quem) tal solução pode ser encontrada.

Como todos sabem (ou, ao menos, deveriam), a história do Cristianismo começa concretamente no século I, em Jerusalém, a partir dos primeiros seguidores de Jesus que O reconheceram e O confessaram como o Messias/o Cristo, o Ungido de Deus, o Rei, Profeta e Sacerdote que havia sido anunciado desde as primeiras páginas do Antigo Testamento (o Tanach dos judeus/israelitas). Tais seguidores, sobretudo os 12 apóstolos (com exceção de Judas Iscariotes, o traidor), conviveram com Jesus mais de perto durante os anos de Seu ministério (Galiléia, Judéia e territórios vizinhos) e, após a Sua morte, ressurreição e ascensão, passaram a proclamá-Lo como Filho de Deus e Salvador de todos os que Nele cressem. Após ferrenha oposição de parte da elite político-religiosa judaica, houve grande dispersão dos primeiros cristãos (chamados de 'seguidores do Caminho') tanto para as fronteiras da Judéia quanto para outras partes do mundo de modo que, nos primeiros 3-4 séculos, eles já estavam presentes em todo o Império Romano, na África Setentrional, no mundo persa/árabe e, provavelmente, até em regiões orientais mais distantes. 

Nesse sentido, após o episódio associado ao famoso Édito de Milão (anos 312-313 d.C), a prática da religião cristã passou a ser salvaguardada, juntamente com os demais cultos existentes, pelo imperador Constantino, fato que conferiu aos cristãos uma medida de liberdade religiosa após séculos de perseguição atroz por parte do Império Romano e de outros opositores. Com o tempo, a religião cristã passou a gozar de maior prestígio perante os olhos do imperador, o que posteriormente conduziria à adoção do cristianismo com a "religião oficial/principal" do Império. Desde então, a despeito de diversos elementos e episódios positivos e notáveis que se seguiram - p. ex., os concílios ecumênicos e os grandes Credos antigos, o surgimento de teólogos admiráveis e de grandes pensadores, a vasta produção de conhecimento em diversas áreas etc. -, a genuína fé cristã foi sendo misturada com "várias doutrinas estranhas" ao cristianismo primitivo/à confissão dos pais da Igreja e, durante a Baixa Idade Média, o estado de desvio já era grave, o que despertou o surgimento de movimentos como o dos "cristãos valdenses" (na França, Itália e Suíça) e de personagens emblemáticos como John Wycliff (Oxford), Jan Huss (Praga) e Girolamo Savonarola (Florença), os quais foram severamente perseguidos pelos católicos-romanos e pagaram com a vida por desafiarem a autoridade e a idoneidade da Igreja de Roma com suas pregações ousadas e eloqüentes. Contudo, seria apenas algum tempo depois que aconteceria o maior dos rompimentos, de tal modo que um monge agostiniano, um verdadeiro "pastor-alemão" em todos os sentidos, apareceria para instilar o movimento que mudaria a história do Ocidente.   


Conseqüentemente, como resultado da Reforma Protestante (se algum "Zé Cruzadinha" vier dizer que é "revolução", aconselho que estude o tema calado e com seriedade e, só depois, ouse falar algo decente) - que foi, na verdade, um movimento multifacetado, embora tivesse um cerne comum bastante definido -, diversos segmentos cristãos surgiriam na Europa Ocidental: o luteranismo, o calvinismo (que se tornou mais influente/espalhado posteriormente), o anglicanismo (calvinista em sua confissão, porém liturgicamente distinto das igrejas reformadas continentais), o anabatismo e outros grupos minoritários (jansenistas, menonitas etc.). Nesse contexto, vale ressaltar dois acontecimentos essenciais que determinarão, a partir do século XVII, todo o curso do cristianismo chamado "protestante": a) a controvérsia ocorrida nos Países Baixos/Holanda entre a Igreja Reformada (i.e., calvinista) e os remonstrantes (discípulos, em sua maioria, de Jacó Armínio (de onde vem o nome arminianismo) e b) o nascimento do movimento puritano (e.g., puritanismo) nas Ilhas Britânicas, o qual foi caracterizado por um interesse mais ávido por uma "reforma total" da Igreja inglesa e que influenciaria de modo duradouro os congregacionais, os presbiterianos (em particular), os batistas (aos quais pertenço) e até mesmo muitos anglicanos. Assim, após todo esse pano de fundo, podemos seguir para o tema central deste texto: a exposição da "santa ignorância do pau oco" e como ela pode ser substituída por uma "santa sabedoria sem fingimento", como diria o meio-irmão de Jesus na epístola de Tiago.

Dessa forma, farei um recorte dentre os grupos protestantes mencionados acima e considerarei mais especificamente o segmento batista, visto que o conheço por experiência e, dado o meu grande apreço por minhas raízes, sinto-me no dever de lutar em favor delas. 

No tocante à sua história, tem sido dito que os batistas possuem 1) origens remotas, tão remotas que alguns ousam afirmar que há uma espécie de "linhagem" que tem sido conservada desde João Batista até hoje - tal hipótese não goza de qualquer fundamento sólido e, a meu ver, parece uma versão não-católica da "sucessão apostólica" -, ou que 2) sua origem está exclusivamente associada aos anabatistas (às vezes chamados de "biblicistas"), que foram protagonistas da denominada "Reforma Radical" e que, embora tenham sido também perseguidos por outros protestantes, defendiam algumas doutrinas estranhas e até mesmo místicas/gnósticas, ou ainda que 3) se originaram a partir de dois grupos teologicamente distintos: os "batistas gerais" e os "batistas particulares". Os "batistas gerais" fundaram sua primeira igreja no início do séc. XVII (1609-1610), sendo adeptos de uma confissão mais alinhada ao pensamento remonstrante/arminiano e com certas influências anabatistas e, por outro lado, os "batistas particulares", de confissão reformada/calvinista, fundaram sua primeira igreja alguns anos depois - neste caso, ambos os movimentos se organizaram na Holanda e, sobretudo, na Inglaterra. Portanto, dentre as únicas opções viáveis para a origem dos cristãos batistas, restam somente a posição 2 e/ou a posição 3, de tal modo que os defensores da posição 2 tendem a ser bastante opositores da fé reformada (sobretudo do calvinismo), ao passo que os que adotam a posição 3 demonstram uma compreensão mais honesta e abrangente da identidade batista, levando em conta tanto seus elementos anabatistas, arminianos e, em particular, sua notável base calvinista, visto que os "batistas particulares" se tornariam o segmento mais forte, duradouro e de confessionalidade mais fundamentada. 


Desse modo, o grande problema em questão aqui é: em grande medida, os cristãos batistas dos dias atuais desconhecem quase que totalmente a sua real identidade e, como resultado de variadas concepções equivocadas, falaciosas e destituídas de fundamentação histórica, desprezam com infeliz ignorância muito do que há de mais belo em suas raízes. Para exemplificar isso, posso citar dois momentos nos quais vi esse problema de forma explícita.

Numa dessas ocasiões, durante uma pregação de domingo, o pastor afirmou, com convicção, que "os batistas não são protestantes, mas surgiram a partir dos 'anabatistas biblicistas'" (o que não é verdade - já que os próprios anabatistas eram "reformados" em algum sentido - e, por isso mesmo, tal afirmação jamais deveria ter sido dita num culto solene). Na outra, durante um encontro de "Escola Bíblica Dominical" (o nome que se dá, em muitas igrejas evangélicas, ao tempo de estudo mais detalhado da doutrina cristã que ocorre aos domingos) sobre os temas "salvação e eleição", diversos impropérios e calúnias foram proferidos a respeito do conhecido teólogo francês João Calvino logo após o tema "eleição" ser mencionado e, mesmo que tenha havido intervenções que salientaram a necessidade de seriedade e humildade ao se tratar de temas difíceis e de fatos/personagens históricos distantes de nossa época, possivelmente tais idéias distorcidas e inverídicas continuaram na mente de muitos que ali estavam. Assim, é exatamente pelo fato de que eu amo a igreja (i.e., amo os que professam a mesma fé que a minha) e, especialmente, os meus irmãos batistas, que fico extremamente indignado e, ao mesmo tempo, triste, pois sei que tal sentimento não é apenas meu e, nos casos em que isso ocorra em nossas próprias comunidades de fé, a raiva e a tristeza se unem à sensação de impotência, visto que muitos desses conceitos errados já se tornaram "verdades inquestionáveis", a tal ponto que nem mesmo o testemunho das Escrituras parece trazer o devido convencimento desses pecados. Logo, se este for o caso, talvez tais corações possam estar seriamente endurecidos e, infelizmente, a apostasia pode estar bem próxima, às portas.

Contudo, todos nós sabemos que um único pecado nunca é, em última análise, um "único pecado" - ele sempre traz outros 'minions' ou 'comparsas' consigo e, desse modo, o mal que foi desencadeado a partir de "palavras frívolas" ou "irrefletidas" se torna uma faísca acesa no meio de uma grande floresta, cujos incêndios de pecados adicionais se espalham por toda parte e, finalmente, o mal inicial piora até o ponto em que se torna incontrolável. Ora, o mesmo Tiago afirmou isso em sua epístola divinamente inspirada, onde se diz:

<<...A língua é um pequeno órgão do corpo, mas se vangloria de grandes coisas. Vejam como um grande bosque é incendiado por uma simples fagulha!
Assim também, a língua é um fogo; é um mundo de iniquidade. Colocada entre os membros do nosso corpo, contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma inflamada pelo inferno...>> [Tiago 3, vs. 5-6]


O texto bíblico acima está situado num contexto de advertência contra o "desejo de se tornar mestre", visto que os que almejam tais posições serão julgados de modo mais severo (Tg. 3, vs. 1). Portanto, a mensagem que se segue é adequadamente aplicada aos que usam do púlpito para ensinar/pregar bem como aos que estão responsáveis pelo ensino religioso (catequese/discipulado). Dessa forma, é primordialmente a essas pessoas que o autor divinamente inspirado dirige algumas das palavras mais ásperas e implacáveis de toda a Escritura, as quais devem perturbar a todos os que levam Deus a sério. Ora, o texto mostra que o homem é capaz de domar os cavalos com freios (bem como todos os demais animais), conduzir grandes navios usando um pequeno leme (ou "timão", para homenagear o Corinthians!), todavia nenhum homem, por mais eloqüente e temperante que seja, é capaz de domar a língua, a qual é chamada de "mal irrefreável" e está "cheia de veneno mortífero", visto que com ela "bendizemos a Deus, o Pai" e, simultaneamente, "amaldiçoamos os homens, feitos à imagem de Deus" (vs. 3-4 e 7-9). 

Isto é, nós carregamos conosco uma arma mais destrutiva do que bombas nucleares, ou quaisquer "vírus criados em laboratório" para promover pandemias (ou "fraudemias", ou "plandemias", como vimos nos últimos anos) e até mesmo do que exércitos de máquinas assassinas e, por isso mesmo, deveríamos ser "prontos a ouvir e tardios para falar", conforme disse o rei-sábio: "...você viu alguém que é precipitado em suas palavras? Há mais esperança para um tolo do que para ele..." (Provérbios 29, vs. 20). Nesse ínterim, maior peso possuem as seguintes palavras do próprio Cristo, que afirmou: "...Raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração... E eu digo que, no Dia do Juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado..." (Mateus 12, vs. 34 e 36). 

Diante disso, que fim nos aguarda se usamos nossa língua de forma leviana e maliciosa, embora aparentemos santidade e zelo doutrinário? Uma leitura cuidadosa dos Salmos (do qual muitos pensam ser um "livro-amuleto" para se deixar aberto na sala, enquanto a realidade é bem diferente) mostra, com clareza, que Deus é implacavelmente "intolerante" com tais pecados (Salmo 12:3-4; Salmo 50:16-21; Salmo 52:4-5; Salmo 55:9; Salmo 59:5, 7-8, 10-13; Salmo 64:7-8 etc.). Além disso, até quando muitos dentre nós se vangloriarão da própria imbecilidade ou má formação intelectual por preguiça de estudar a história (sobretudo a nossa história, as nossas origens e identidade - falo aos cristãos batistas) ou teimosia em abrir mão de idéias mentirosas sobre Deus, a Bíblia, a salvação, a teologia e os personagens da História Eclesiástica? De fato, desde que o pecado entrou no mundo, a ignorância e a insensatez são o nosso "cartão de visitas", porém a exibição da histeria e da burrice como virtudes se tornou quase que onipresente em nossos dias (sobretudo por causa do acesso imediato à informação e à internet), o que infelizmente não deixou as igrejas incólumes. Logo, o que mais necessitamos é de "libertação de uma falsa piedade" por meio do "conhecimento da verdade" (tanto nas Escrituras, quanto por meio de outras fontes documentais), pois é Cristo que diz: "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8, vs. 32). 


Dito isso, como os "santos ignorantes do pau oco" aqui mencionados podem ser libertados, na prática, da condição em que se encontram?

De um lado, é preciso reconhecer que o Cristianismo não surgiu a partir das denominações cristãs mais recentes (nos últimos 50-100 anos), nem há 500 anos (por mais que o bom legado da Reforma deva ser devidamente celebrado) ou mesmo na Idade Média, o que mostra que Deus tem conduzido o Seu povo e preservado a Sua verdade ao longo do tempo sem precisar de nenhuma ajuda nossa (pelo menos até a nossa época). Desse modo, deve-se também compreender que muitas das verdades e princípios inegociáveis de fé que professamos (como protestantes/evangélicos) também foram consolidados muitos antes de qualquer um de nós nascer - ora, será que doutrinas como a da Trindade e a de Jesus Cristo como plenamente Deus e plenamente homem foram definidas nas letras dos hinos do Cantor Cristão (ou na Confissão de Fé de Westminster)? Por tudo isso, um dos meios indispensáveis para vencer essa "santa ignorância" é estudar a história do Cristianismo por meio de fontes realmente confiáveis, levando sempre em conta que "os fatos não se importam com nossos sentimentos" e "não são flexíveis" - i.e., as verdades concernentes à história humana e, particularmente, à história da Igreja, são o que são e, por isso, não devem estar sujeitas a qualquer espécie de manipulação, seja de romanistas pseudo-intelectuais ou de batistas subjetivistas, tanto de reformados 'neopuritanos' quanto de arminianos libertários. Parafraseando C. S. Lewis, não é Deus que deveria estar no banco dos réus, mas unicamente aqueles que acham que tem algum direito ou prerrogativa diante Dele.  

Nesse sentido, é preciso que abandonemos, urgentemente, as noções erradas de que 1) "João Calvino matou Miguel Serveto" porque era o "ditador de Genebra", o "fanático que eliminava quem discordava dele" - na moral, de onde surgem idéias tão estúpidas e por que, mesmo sendo estúpidas, tais idéias acham terreno fértil na mente de cristãos sinceros? -, 2) a doutrina da eleição soberana faz do homem um robô autômato, que não tem vontade própria e, por isso, não pode ser responsabilizado pelos seus atos, 3) os batistas não têm nenhuma relação com a Reforma Protestante e 4) se "somente a Bíblia" é a nossa regra de fé e prática (e é mesmo!), nada que esteja fora dela é necessário para o crente, de modo que basta ele ter a Bíblia na mão e saber ler para interpretá-la corretamente (ou seja, a clássica confusão entre o "Sola Scriptura" e o "Nuda Scriptura"). 

Com respeito à citação 1, Calvino nunca teve status de cidadão genebrino até perto de sua morte, foi expulso da cidade por ser zeloso da pureza da igreja e da concessão da Ceia a não-convertidos e, mesmo após ter voltado à cidade, ele nunca foi "político" (sic) como já ouvi por aí (ah, só Deus para me dar paciência!) e, quanto a Serveto, até procurou fazer algo para atenuar a sua punição (vale lembrar que Serveto foi um herege e, naquele contexto, a heresia era um crime punido com a pena capital), a qual foi aplicada pelo conselho de Genebra e não por Calvino. No tocante à afirmação 2, embora seja uma discussão mais detalhada, a melhor resposta está no fato de que a Bíblia ensina tanto a soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas (a qual se baseia em Seus decretos e em Sua providência) quanto à responsabilidade humana (ou arbítrio humano), de forma que as duas coisas coexistem sem que se anulem mutuamente - em outras palavras, nós nos movemos, vivemos e existimos, mas tudo isso é feito em Deus e por meio Dele (Atos 17, vs. 28). Por outro lado, a afirmação 3 já foi refutada acima no texto e, com relação à afirmação 4, é salutar esclarecer que o "Sola Scriptura" significa que "a Bíblia é a nossa única fonte de REVELAÇÃO e a nossa única autoridade INFALÍVEL, INERRANTE e FINAL", o que é diferente do "Nuda Scriptura", que significa que "nada além da Bíblia tem importância para o crente e, assim, deve ser ignorado no que se refere à fé e à conduta". De fato, muitos crentes (como os tais "santos ignorantes do pau oco") confundem o Sola Scriptura com o Nuda Scriptura e, desse modo, dão motivos para as acusações levianas de romanistas e, igualmente, deixam de desfrutar de uma herança rica e valiosa de credos, confissões, catecismos e demais escritos cristãos acumulados ao longo dos séculos. Isto é, o cristão evangélico/protestante de verdade deve olhar para toda a boa tradição cristã (a saber, aquela endossada pelas Escrituras) e dizer "eu tomo posse!" ou "essa herança é minha!", visto que o nosso amigo Tiago também disse que "toda boa dádiva e todo dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em Quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg. 1, vs. 17) bem como que "a sabedoria que vem do alto" é "cheia de bons frutos" (Tg. 3, vs. 17). 


Finalmente, vale reiterar que há algo mais importante do que conhecer as verdades sobre a história da igreja (e, em particular, do protestantismo e seus desdobramentos), a saber: conhecer as Escrituras e, por meio delas, Àquele que nelas é revelado/se revela. Sabendo-se que o ser humano sempre foi fascinado pelo conhecimento e pelo que ele permite alcançar (a propósito, o pecado original, no Éden, está essencialmente ligado a um desejo ilícito por conhecimento e poder), se faz necessário reafirmar que ninguém acha/achará favor ou graça diante de Deus pelo simples fato de "estudar a Patrística e a teologia histórica", ou por "desenvolver uma vida intelectual" e não ser um "analfabeto funcional", ou ainda por entender de "escolasticismo" (tanto medieval como protestante). Dessa forma, numa época em que hordas de "Enzos inteligentinhos" e demais "salvadores da Civilização Ocidental" infestam o mundo (especialmente a internet) e vomitam a sua empáfia e soberba para quem tem paciência de ver e ouvir (vide Salmo 12, vs. 8), os cristãos verdadeiros devem se lembrar do que Jesus Cristo disse certa vez: 

<<...Graças Te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, pois ocultaste estas coisas aos sábios e eruditos e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim o quiseste...>> [Lucas 10, vs. 21] 

Esse trecho das Escrituras apresenta um momento de exultação de Jesus, no qual Ele se alegrou intensamente no Espírito Santo, cujo contexto confere um significado ainda maior à Sua afirmação, tendo em vista que a razão do júbilo de Jesus estava na liberdade divina de dar a conhecer os mistérios e privilégios do reino de Deus a quem não tinha importância, nem erudição nem qualquer mérito próprio - tudo isso de modo soberano e gracioso. Na seqüência do texto isso é ratificado, pois Jesus afirma que "...ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar..." (vide vs. 22). Isto é, o genuíno conhecimento de Deus não é adquirido por meio de "cursos de vida virtuosa" no Instagram, ou pela mediação de um "magistério supostamente infalível" (sic) ou de "neo-templários que fedem a leite com pera", bem como não advém da "autonomia hermenêutica" (pela qual todos acham que podem interpretar as Escrituras sem respeitar o que elas de fato dizem) ou da mentalidade "nem Armínio nem Calvino estão na Bíblia", mas provém única e tão-somente de Deus, o Deus trino, o Pai-Filho-Espírito Santo, conforme nos foi revelado nas Sagradas Escrituras, as quais nos são desveladas pela ação do próprio Espírito, de tal modo que somos levados a ver o Filho e crer nEle para a vida eterna e, assim, somos reconciliados por meio Dele com o Pai, outrora nosso inimigo (João 6, vs. 44-45; João 6, vs. 40; Romanos 5, vs. 10-11). 

Portanto, se alguém aprender a respeito da história eclesiástica, do depositum fidei (o "depósito da fé", o acúmulo da tradição etc.), dos grandes credos, catecismos e confissões de fé e, mesmo assim, não experimentar a vida de Deus em seu ser, esse também será um "santo ignorante do pau oco", pois antes de tudo 1) não será, de fato, um santo, mas apenas terá uma "falsa aparência de santidade" e 2) por isso mesmo, será orgulhoso, desprezará os outros e se gloriará no que deve trazer vergonha (Filipenses 3, vs. 18-19). Que Deus me livre desse autoengano - ou melhor, nos livre! - ao me/nos levar aos pés dAquele que, da parte de Deus, foi feito para todos os que nEle crêem "sabedoria, justiça, santificação e redenção": o Cristo crucificado (1 Coríntios 10, vs. 30). 


E quanto a você? Você pode reconhecer em si algum comportamento ou postura que te faria comparável a um "santo do pau oco" - ou seja, algum tipo de "bondade aparente" que apenas esconde uma "maldade real"?

Se você se identifica como um evangélico/protestante (em particular, como batista): havia em você algum grau de ignorância com relação à sua própria identidade e, conseqüentemente, um desprezo ao que deve ser valorizado em nossa história?

Finalmente, em quem temos buscado o real conhecimento de Deus? Nos "instagrammers" de "vida perfeita" (com 12 filhos, que treinam todo dia às 5 da manhã, que sabem latim, grego e inglês antigo, que fazem aula de piano e canto gregoriano e lêem 257 livros clássicos por ano nas suas línguas originais)? Em nossos próprios achismos e especulações teológicas e interpretativas da Bíblia? Na idolatria de nossas tradições e confessionalidade? Ou já entendemos que só conheceremos a Deus verdadeiramente se Cristo O revelar para nós? 




Pelo privilégio de ser alvo da auto-revelação Dele, 




Soli Deo Gloria!

sexta-feira, 7 de abril de 2023

La Vera Forza della Vera Vita: uma oração de Páscoa

<<Todos os homens são fracos,
Mas não tenhas a ninguém por mais fraco
Além de ti mesmo>>.

Assim disse outrora um monge sábio,
Cujas palavras devem ser relembradas,
Porquanto a vileza entre nós é exaltada
E, por isso, os soberbos caminham livremente.

Sobre isso falaram os antigos profetas
Em face da impiedade dominante,
Pela qual muitos armavam ciladas
A fim de derramar sangue inocente. 

"Quem é senhor sobre nós?" - eles dizem,
"Será que Deus nos vê?" - assim inquirem.
Em sua prosperidade julgam-se seguros
E, erguendo contra os céus os punhos,
Blasfemam de Ti, que lhes dás o fôlego.
Levanta-Te, Senhor, e estende o Teu braço,
Para que os aflitos sejam confortados
E, assim, os "fortes" sejam humilhados. 


<<Deus falou isso uma vez, duas vezes ouvi: 
'Todo o poder pertence a Mim'.>>

De todas as verdades que repudiamos,
Esta seja, talvez, a mais odiada,
Uma vez que, desde o primeiro pecado,
Tal é a autonomia que temos desejado.
Embora feitos à semelhança do Criador,
Demos ouvidos às "lisonjas da serpente"
E, num ato de rebelião insolente,
Cobiçamos o que não nos era permitido. 

Procurando mais glória, recebemos vergonha; 
Ao buscarmos mais força, restou-nos a fraqueza -
Miseráveis, pois, juntamente nos tornamos,
E para longe de Ti nos afastamos,
Perdendo de vista toda verdade e beleza.

Essa tem sido a nossa história:  
Buscar a plenitude sem descanso nem sucesso,
Visto que a procuramos em nós mesmos
Ao invés de olharmos para o alto.

Desde a torre que alcançaria os céus
Cujo intento foi, de repente, interrompido,
Aos notáveis impérios do mundo antigo
Dos quais restam tão-somente ruínas
- Ou, quando muito, grandes edifícios -,
Temos anelado para nós um nome
A fim de nunca sermos esquecidos.
Contudo, és Tu que dizes quem somos
E, assim, nos revelas nossa insuficiência,
Para que só de Ti supliquemos graça
Pela qual nos concedes tudo o que nos falta.


<<...Pois quando sou fraco,
Então é que sou forte...>>

Essa foi a confissão de um homem
Que, ao receber conhecimento sobrenatural,
Foi afligido por um "mensageiro do mal",
Para que, então, não se envaidecesse.

Tendo seu insistente pedido recusado,
Ouviu a voz que o deixou alarmado:
"A minha graça é a tua suficiência,
E meu poder se aperfeiçoa na impotência". 
Eis que dizes o mesmo também a nós,
Ainda tão propensos à altivez e à vaidade,
Para que nos gloriemos em nossa debilidade
E, assim, sejamos fortes em Tua força. 


<<...Senhor, exalta-Te na Tua força,
e então cantaremos e louvaremos o Teu poder...>>

Este tem sido o clamor 
De Teus filhos desde dias passados,
O qual começaste a responder
Por meio de muitos atos poderosos
Que a história tem testemunhado.

Nenhum destes, porém, foi mais glorioso
Do que a vinda do Deus encarnado,
Pela qual a justiça e a paz se beijaram
E a bondade e a verdade se encontraram.
Seja o ósculo, seja a união,
Pelos quais se deu tal reconciliação
Deram-se num único e mesmo lugar
- Um madeiro suspenso, divino altar -,
Cujo sacrifício o próprio Deus ofertou
Para que houvesse real propiciação.

É certo que muitos de Teus servos, ó Deus,
Da sua fraqueza tiraram forças,
E, assim, fecharam a boca de leões
E derrotaram inimigos em batalha.
Outros, porém, não foram livrados das perdas,
Da perseguição e até da própria morte 
E, apesar disso, não negaram Tua Palavra. 
Maior heroísmo, contudo, se vê Naquele
Que abateu potestades "sem espada ou canhão",
Vencendo 'mais inimigos' em Sua morte
Do que durante Sua vida de submissão. 

Eis <<a verdadeira Força da verdadeira Vida>>,
Cuja vontade soberana  « fino la morte sfida »,
De modo que, numa manhã de domingo,
Veio a levantar-se para nunca mais morrer. 
Essa é a "Força santamente obstinada",
Rendida apenas à missão que lhe foi dada:
Vir ao mundo para salvar os pecadores,
Quando estes nada podiam fazer.
Contemplemos a nossa única “via d’uscita!”

Faz-nos ouvir, pois, o sussurro suave
Da Tua voz que nos tira da caverna,
E conduz-nos pelos caminhos que traçaste
Para que os sigamos com perseverança.
Nesse mundo todos somos peregrinos,
Não possuindo pátria certa aqui
Mas, com os olhos voltados para Ti,
Buscamos aquela que há de vir.

Que caminhemos, firmes, até aquele Dia,
Quando finalmente estaremos "em casa",
De modo que veremos "quanta vida ainda temos",
Na qual tudo será eterna bem-aventurança.




Soli Deo Gloria!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Antífonas ao "Verbo Antigo" - um escrito de Natal

A Ti, ó Deus, que ouves as orações,
Quero dedicar essas breves palavras.
Sei que acolhes a quem Te busca
Por fé e com coração quebrantado,
Ainda que "alcatéias de juristocratas"
Nos queiram totalmente censurados.
Aceita, pois, estes versos suplicantes,
Advindos de um coração inquieto, porém confiante. 


  Achega-Te a nós, Sabedoria Eterna,
E desce do alto para nos encontrar,
Concedendo-nos os Teus bons frutos
A fim de sermos pacificadores e justos.
Tu foste formada desde a eternidade
    E, antes que houvesse mundo, nasceste;
Estavas presente na criação dos céus,
Bem como do horizonte, dos abismos e seus limites.
És o Arquiteto do Senhor, que em Ti se deleita,
E Tu, em resposta, Nele te alegras,
Assim como em todas as Suas obras.
Que guardemos, pois, os Teus caminhos
Para que sejamos bem-aventurados,
E, tendo verdadeiramente Te encontrado,
Acharemos a vida e seremos favorecidos.

Guarda-nos junto a Ti, ó Adonai, 
Pois és nosso Deus e possuidor,
Uma vez que nos compraste por alto preço
Através da morte de Teu Filho Unigênito. 
Tens guiado aqueles aos quais remiste
Desde os dias antigos até hoje,
E, como um pastor zeloso e fiel,
Nunca abandonarás quem a Ti pertence. 
Visita-nos, pois, com Tua salvação,
Estendendo-nos o Teu braço forte,
Visto que muitos são os adversários
Que, continuamente, procuram a nossa morte.
Levanta-Te, Senhor, e julga com eqüidade
A todos que contra Ti se rebelam,
E protege-nos com Tua verdade,
Pela qual para sempre nos libertaste. 

Ó Raiz de Jessé, Filho de Davi,
Que brotaste como um renovo,
Sê o estandarte em nossas batalhas,
Trazendo descanso para nossas almas.
Sobre Ti está o Espírito do Senhor
E, assim, a prudência e o discernimento;
De Ti provém todo conselho e fortaleza,
Bem como todos os tesouros do conhecimento.
Ensina-nos, por graça, o Teu temor,
A fim de não vivermos segundo a aparência
Mas, conforme a Tua justiça,
Andarmos firmes em nossa viva esperança.
Diante de Ti os poderosos se calarão
E o Teu nome as nações invocarão,
Pois delas Tu és o grande "Desejado"
E, muito em breve, voltarás - como fora anunciado. 


A nosso mundo quebrado e imerso no pecado
Traz redenção, Libertador dos cativos,
Posto que tens a Chave de Davi
Para abrires e fechares o que for de Teu agrado.
Nas Tuas mãos também estão
As chaves da morte e do inferno,
De modo que somente Teu é o poder
De decretar o nosso destino
Segundo o Teu beneplácito eterno.
Ó Tu, que vives pelos séculos dos séculos
E que és a Porta de Tuas ovelhas,
Conduz o Teu povo sob o Teu cetro
Para que a Ti sejamos obedientes,
E, ao amar a retidão e odiar a iniqüidade,
Demos testemunho de Tua graça onipotente. 

Envia-nos a Tua Luz, ó Estrela do Nascente,
E faz-nos contemplar o Teu esplendor,
Para que adentremos o lugar onde habitas 
E, ante a Tua face, tenhamos plena alegria.
Tu brilhas como o sol em seu fulgor
E, como herói, percorres toda a terra;
Assim, dá-nos a conhecer a Tua glória,
Sem linguagem, qualquer som ou discurso,
Manifestando-Te até os confins do mundo.
Contudo, maior glória avistamos ao olhar
Atentamente para o Salvador crucificado,
Que no Calvário outrora foi levantado,
A fim de atrair a Si os piores pecadores. 
Resplandece, pois, sobre nós com bondade,
Para dissipar as trevas e as sombras da morte
E, assim, mudarás para sempre a nossa sorte. 

Venha o Teu reino, ó Rei das nações,
Pois estamos cansados de ser desprezados
Pelos soberbos, que a Ti têm afrontado,
Mas cuja condenação não tarda.
És a Pedra Angular, em que firmamos os pés,
E sobre a qual temos casa segura,
Pois, embora rejeitada pelos "construtores",
Para o Senhor és eleita e preciosa.
Em Ti há redenção para todos os povos,
Posto que na cruz desfizeste a inimizade
E, reunindo judeus e gentios num só corpo,
Começaste a criar uma nova humanidade. 
Tuas obras são grandes e admiráveis,
Teus caminhos, justos e verdadeiros;
Assim, todos Te temerão e Te adorarão,
Quando salvares os que do pó formaste
Para Ti mesmo, conforme predestinaste. 


Santo de Israel, que és grande no meio de nós,
A Ti louvamos, nossa força e salvação,
Pois desviaste de nós a Tua ira
E nos deste real consolação.
Proclamamos às nações os Teus feitos,
E notificamos Tuas obras gloriosas,
Para que saibam que só Tu és exaltado
E, com alegria, no mundo sejas celebrado.
Tu nos foste dado como um sinal do céu
A quem, outrora, não Te deu ouvidos -
"A virgem conceberia, dando à luz um Filho,
O qual seria chamado Emanuel". 
Veio, enfim, a "plenitude dos tempos"
E Te fizeste carne, para habitar entre nós;
Em Ti enxergamos a glória do Pai,
Visto que és cheio de graça e verdade,
Cuja contemplação é a nossa felicidade.

Ó vem, ó vem, Emanuel,
Tu que ascendeste ao mais alto céu
Para preencher todas as coisas!
Nosso Rei, Juiz e Legislador,
Sê dos povos o único Salvador,
Pois, sem Ti, somos todos sem forças.
Verbo antigo, Palavra viva,
Guia-nos por Teu caminho,
Raiando sobre nós com Tua Luz - 
Assim, a noite chegará ao fim
E, em breve, um novo dia alvorecerá. 
Ali não haverá morte, nem qualquer dor,
Nem mais lágrimas, choro ou pranto,
Pois toda maldição terá sido vencida
Por Aquele que julgará o mundo com justiça.
Maranata! 



Soli Deo Gloria!

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Dos "santos" que não têm a "medida da maldade"...

Após uma publicação mais branda e poética, creio que é hora de fazer novamente o que me apetece: lançar minha indignação por escrito, visto que não posso lançá-la sobre quem tenho vontade. Logo, mãos à obra - e que meu computador me ajude!

Seguindo um modelo que, por vezes, aparece por aqui, esse texto será baseado numa música da Legião Urbana chamada "Há Tempos" (em particular, num dos seus diversos trechos que podem instilar reflexões em qualquer um que conceda a devida atenção à letra), de forma a relacionar o conteúdo da música, o momento atual do país e a recordação de mais um 31 de outubro - o Dia da Reforma Protestante. Os versos em questão dizem:

"...E há tempos nem os 'santos' / Têm ao certo a medida da maldade..."

A pergunta que pretendo responder aqui é: qual a relação de tais versos (e da canção como um todo) com a realidade recente do Brasil e a Reforma Protestante? Leia até o fim e descubra! 


Os santos e a maldade. 

Pode-se definir "santo" como 1) "aquilo que não possui mácula ou contaminação" (i.e., no sentido de algo puro) ou, em termos mais religiosos, 2) "santo" é tanto uma designação conferida a alguém cuja vida é reconhecida como "exemplo de devoção" - o que é mais comum nas tradições católico-romana, cristã ortodoxa, copta etc. - quanto 3) "algo/alguém que foi separado de uma condição ordinária/comum para um uso específico e superior". Portanto, quando se utiliza a palavra "santo" ou "santos" para qualificar coisas ou pessoas, o que normalmente se tem em mente é que aquela coisa/pessoa é 1/2) considerada sem defeito, possui um tipo de "dignidade espiritual" ou é irrepreensível bem como que 3) essa coisa/pessoa foi dedicada/consagrada para um fim religioso ou divino. Mais particularmente, esse(s) vocábulo(s) é/são característico(s) das religiões monoteístas (Judaísmo, Islamismo e, notadamente, o Cristianismo) e, dessa maneira, o texto estará restrito ao contexto cristão e, por isso, será dirigido diretamente aos cristãos - embora, talvez, possa ser útil a qualquer leitor mais benevolente. 

Por outro lado, "maldade" é 1) o 'atributo próprio de quem é mau ou perverso' ou 2) 'aquilo que é em si mesmo leviano, doloso e intencionalmente contrário ao que é bom e justo". Portanto, para se falar apropriadamente em 'maldade', é imprescindível que haja um referencial absoluto de "bondade" que sirva de fundamento para a correta compreensão dessa realidade. Conseqüentemente, se todos dentre nós, até mesmo os mais excêntricos e relativistas, sabem na prática o que é a maldade e se lhe opõem quando são por ela atingidos (ou quando assim o sentem), a conclusão mais razoável é que, indubitavelmente, tal 'referencial de bondade' existe - ainda que uma grande parte de nós não seja corajosa e suficientemente humilde para admitir isso. 

Ditas essas coisas, o que seria a "medida da maldade" da qual os "santos" estariam desprovidos? 


Nas chamadas "ciências exatas" (p. ex., matemática, física, química etc.), bem como nas engenharias ou nas "ciências econômicas", o conceito de "medida" é basilar e recorrente - seja em cálculos de Geometria Plana (Euclidiana), na caracterização de grandezas vetoriais, em Estequiometria de Reações, na otimização operacional de uma plataforma petrolífera ou no ajuste do 'Orçamento Geral da União'. Nesse sentido, a existência de instrumentos adequados e/ou de equações e formulações matemáticas apropriadas é fundamental para que as "medidas" correspondam à realidade observada ou ao alvo desejado. De modo análogo, para que possamos compreender corretamente as realidades social, política, cultural e espiritual nas quais estamos, também é necessário possuirmos as devidas ferramentas que nos possibilitem adquirir o conhecimento dessas realidades, pois, caso não as tenhamos, seremos parte de um dos mais graves problemas de nossa geração: a falta do correto "senso das proporções" no trato com o todo da realidade e suas diferentes esferas. 

A esse respeito, poder-se-ia definir como "senso de proporções" a "percepção adequada do valor e/ou gravidade relativos de dois ou mais entes/elementos presentes na realidade em que se está inserido" ou, de forma mais simples, seria a "capacidade de avaliar com precisão as diversas situações com as quais lidamos, de tal modo a reagir de acordo com a natureza delas". Por exemplo, se um pai vê seu filho de 5 anos desobedecendo à mãe quanto a alguma ajuda doméstica, a atitude proporcional desse pai deve ser corrigir o filho e guiá-lo à obediência (sendo até mais duro, se necessário) mas, se esse mesmo filho, agora com 18 anos, está armado e ameaça matar a própria mãe, a única reação proporcionalmente apropriada é usar de toda a força necessária para impedir que o filho cometa um crime - incluso o direito de usar uma bela "Winchester 22" em legítima defesa! Logo, se em certo sentido toda morte é algo ruim, o que seria mais hediondo: a possível morte de um meliante capaz de atentar contra a própria mãe ou a morte de uma mãe inocente nas mãos de um filho inescrupuloso? A resposta é óbvia mas, visto que em nosso mundo o óbvio não é somente ofensivo (mas igualmente inacessível!), deve-se ratificar que a 'morte da mãe' é o mal a ser impedido a todo custo - a não ser para quem gosta de bandidos (como a tal de Deolane, a "advogada" amiguinha do Lula) ou já é um deles (a exemplo do próprio Lula e dos membros de sua organização criminosa disfarçada de partido político). 

Falando nisso... será que, depois desse parágrafo, eu serei intimado pelo TSE? Aguardemos. 


É preciso admitir que, infelizmente, a perda do "senso das proporções" tem caracterizado cada segmento da sociedade, de modo que os próprios ambientes cristãos (e, particularmente, o meio protestante) foram atingidos por este grande mal - e isso para vergonha minha. No entanto, como pode ser razoável que os que professam seguir Aquele "em Quem todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão escondidos" (Colossenses 2, vs. 3) e que "dá sabedoria a todo o que Lhe pede, sem lançar em rosto" (Tiago 1, vs. 5) pensem e se comportem de forma irrefletida - ou mesmo estúpida? 

É exatamente aqui, nessa resposta, que a canção mencionada, a realidade recente do Brasil e a Reforma Protestante se encontram. Vamos adiante! 

Há pouco mais de 500 anos (precisamente, há 505 anos, no dia 31/10/1517), ocorreu o episódio que se tornou o marco inicial da Reforma Protestante: a publicação das famosas "95 Teses" por Martinho Lutero na porta da Igreja do Castelo (Schlosskirche) em Wittenberg/Alemanha. Embora o ambiente que possibilitou a eclosão da Reforma já estivesse sendo preparado desde os séculos XIV e XV, foi apenas no séc. XVI que o movimento protestante se consolidou, visto que a Igreja Romana reagiu com veemência e hostilidade à iniciativa de Lutero quanto a uma "reforma espiritual interna" (como era seu desejo) e, como resultado, aqueles que estavam "protestando" em favor dessas mudanças ficariam conhecidos como "protestantes" a partir de 1529-1530. Nesse sentido, vale salientar que um dos principais legados da Reforma foi o resgate da supremacia das Sagradas Escrituras (em contraste com a Tradição e a própria Igreja) como a "regra de fé e prática" suficiente e a autoridade última para o cristão, cujos desdobramentos transformariam para sempre a 'Civilização Ocidental' e, conseqüentemente, outras partes do mundo. Logo, dentre tantos conceitos, princípios e/ou doutrinas restauradas pelos reformadores, um(a) é absolutamente indispensável para entendermos porque "há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade": a depravação total ou corrupção radical. 

A doutrina da "depravação total" (ou corrupção radical) define que, com a entrada do pecado no mundo a partir da desobediência de Adão e Eva, todos nós fomos feitos pecadores ou "nos solidarizamos com o primeiro casal" em seu estado de queda e ruína [Romanos 5, vs. 12]. Desse modo, o pecado deles também é "nosso" e, em decorrência disso, tanto a culpa e a maldição lançadas sobre Adão como a subseqüente corrupção da natureza humana tornaram-se nossa "herança". Tal herança não significa, porém, que nós somos tão maus quanto poderíamos ser (na prática), mas que todas as dimensões e faculdades humanas estão terrivelmente golpeadas pelo pecado, a ponto de que, sem a intervenção de Deus, ninguém pode sequer dar-se conta da real extensão dos seus efeitos hediondos - seja em si mesmo, seja ao seu redor. Assim, lançando mão de somente alguns breves trechos das Escrituras, podemos entender que "...o homem é impuro e corrupto, e bebe iniquidade como água..." [Jó 15, vs. 16] bem como que "...não há nenhum justo, nem um sequer... não há quem entenda ou busque a Deus, nem ninguém que faça o bem..." [Romanos 3, vs. 10-12]. Isto é, ainda que sejamos imagem e semelhança de Deus, o estrago que o pecado nos infligiu é sobremodo horrível e humanamente irreversível. 


Como, então, essa doutrina pode ser útil para a compreensão do momento atual do Brasil e, em particular, da comunidade cristã/evangélica brasileira? 

Primeiramente, devo reconhecer que o problema mais urgente e delicado do meio protestante/evangélico nacional é o "analfabetismo bíblico" resultante da ausência de uma pregação fiel e ousada (associada a um testemunho firme e vibrante), o que tem produzido uma forma de cristianismo "insípida", "débil", "acovardada" e "conformada com o mundo". Na outra face da mesma moeda, pode-se destacar outro tipo de analfabetismo (a saber, o funcional), o qual decorre de um processo longo e articulado de "subversão psicológica e engenharia social", planejado e aplicado de maneira massificada e intencional no mundo (especialmente no Ocidente) exatamente para atingir os fins citados, a saber: 1) a perversão do imaginário e da própria capacidade de raciocinar logicamente e, simultaneamente, 2) remodelar a sociedade de tal maneira que o processo de revolução não possa ser posteriormente revertido (ou mesmo percebido). De fato, não há descrição melhor para tal fenômeno que aquela feita por um de seus maiores proponentes (o filósofo italiano Antonio Gramsci): "um poder onipresente e invisível, tal qual um imperativo divino". 

Dessarte, conclui-se que a) a deficiência de conhecimento bíblico adequado implica o alto índice de ignorância com respeito ao conhecimento de nós mesmos e da nossa pecaminosidade e b) o próprio êxito da subversão social supracitada evidencia que a "depravação total" é uma verdade incontestável, posto que sinaliza quão facilmente somos corrompidos em nossos pensamentos e visões acerca da realidade e, inevitavelmente, desencaminhados em nossa conduta. 

Sendo mais direto, "nunca antes na história desse país" - conforme o bordão de certo "descondenado" que deveria estar em prisão perpétua... (agora sim, sem dúvida, eu serei censurado pelos "editores do Brasil" ou cancelado por militantes histéricos e até pelos "crentinos") - houve tanta exibição de falsa virtude, tanta exaltação à ignorância e à burrice, tanta canalhice "em nome da democracia" e, obviamente, o sepultamento do bom senso e da defesa da verdade sob o disfarce da "moderação" e da "superação das polarizações". Não é possível elencar de forma exaustiva as inúmeras razões históricas e filosóficas que ratificam o abismo moral e ético existente entre as duas correntes políticas representadas na "disputa eleitoral" (sic) em curso, mas o simples fato de que um dos lados está implementando a censura total (e até prévia) dos seus oponentes - a tal ponto que as verdades censuradas são classificadas como "desordem informacional" ou "manipulação discursiva" - deveria ser suficiente para que todo brasileiro com o mínimo de vergonha na cara se opusesse a qualquer tirania mascarada de "estado democrático de direito". Contudo, os últimos anos (de 2020 até aqui) estão servindo para provar, de modo notório, que a "sem-vergonhice" humana (sobretudo dos que chamo carinhosamente de "tutti crentinni"), diferentemente da minha paciência ou do meu cartão de crédito, não tem limites - mas, se você ainda discorda, você está errado. 


Dentre os diversos absurdos que podem ser vistos por aí, alguns de que me lembro são 1) "vamos repetir: proibir a 'mentira' não é censura", 2) a "idolatria política" (i.e., o 'bolsonarismo') está tomando conta das igrejas", 3) "a igreja não é lugar para se falar de politica, pois o reino de Jesus não é desse mundo" e 4) "não precisamos nos preocupar com o futuro do país, pois Deus está no controle de todas as coisas". Espero ser capaz de, em poucas palavras, dar uma resposta bíblica e satisfatória a cada uma dessas falácias. Sigamos! 

Com respeito à falácia 1, deve-se questionar: QUEM define o que é mentira e o que é censura? Para os que estão mais atentos aos movimentos políticos dos últimos 250-300 anos (em especial desde o início do séc. XX), não é novidade que os que desejam "mandar no mundo" (i.e., que querem usurpar o lugar de Deus, o Qual define como as coisas são) desejam igualmente "controlar a linguagem e a informação", de modo que a 'verdade' e a 'mentira' passam a ser tão-somente convenções que mudam conforme os interesses de quem dita as regras do jogo - isto é, "se você me incomoda e ameaça meus planos, você é antidemocrático e eu vou censurá-lo... mas é para defender a democracia!". No tocante à falácia 2, vale ressaltar que eu, como cristão, estou ciente da realidade da idolatria e, por isso, sei que todos somos vulneráveis a cairmos nela em determinado grau - ou seja, não importa em qual espectro político o cristão se situe, ele está sujeito a superestimar idéias ou figuras políticas ao ponto de pôr nelas a sua esperança. Contudo, o simples posicionamento favorável a um dos lados (e, em particular, ao atual presidente) não é, necessariamente, um ato de idolatria e, não obstante isso, sabe-se que o pensamento alinhado à esquerda tem sido hegemônico nas últimas décadas (até mesmo nas igrejas), de tal sorte que certos "dogmas ideológicos" foram elevados ao patamar de "doutrina" sem que houvesse qualquer contraponto (p. ex., o 'pacifismo desarmamentista' e a 'guerra à masculinidade/feminilidade' decorrente do feminismo). Trocando em miúdos, o argumento da "idolatria política" é o novo "não julgueis", usado por quem quer esconder sua ignorância e seu pecado sob os auspícios de uma falsa piedade - logo, quanto a estes, eu só quero distância, pois é isso que as Escrituras ensinam (2 Timóteo 3, vs. 5b). 

Além disso, a falácia 3 pode ser refutada com base no fato de que, se "não há nenhum centímetro quadrado, em todos os domínios da existência humana, sobre os quais Cristo, que é Senhor de tudo, não diga: 'é Meu'", Ele também é, por direito, o Senhor sobre a política, de maneira que a) tanto os que recebem o encargo do poder civil devem exercê-lo como um serviço a Deus para coibir o mal e louvar o bem (Romanos 13, vs. 1-5) quanto 2) nenhum cristão tem o direito de pensar e agir politicamente fora da Palavra de Deus e de Sua autoridade (Romanos 6, vs. 16-18). Portanto, todo que se declara 'cristão' mas "interage na pólis" como um ateu (ou, no mínimo, um dualista que divide a vida em "secular' e "espiritual") precisa voltar a crer na Bíblia que leva consigo a cada domingo ou, mais que isso, precisa aprender a ler e a guardar o que leu. Finalmente, a falácia 4 está fundamentada numa idéia falsa da providência divina, segundo a qual as coisas "serão como devem ser" independentemente do que fizermos. É evidente que Deus é soberano e sempre realiza a Sua vontade, mas isso não significa que nossas ações (ou nossa omissão) não tenha(m) conseqüências - visto que Deus também age através de meios humanos e/ou naturais. Será que Deus não estaria no controle da Venezuela, da Argentina e da Colômbia, por exemplo? Todavia, qual é a situação atual desses países após suas escolhas políticas mais recentes? Por tudo isso, enquanto ainda é (aparentemente) possível escolhermos (se é que haja uma escolha que seja respeitada na 'republiqueta do TSE/STF') com sabedoria e o mínimo de sensatez, temos o dever de tomar a melhor decisão - pois, assim como aprendemos nos grandes dilemas da literatura, "não decidir já é decidir". 


Após todas essas considerações, mediante as quais podemos observar diferentes evidências dos efeitos da "depravação total" (mais especificamente, do chamado "pecado remanescente"), a expectativa que permanece é: haveria alguma solução para essa "maldade" da qual, há tempos, nem os "santos" têm sido capazes de se livrar? 

Em primeiro lugar, há uma justa preocupação por parte de uma parcela da comunidade cristã brasileira em não dar razões adicionais para que o nome de Deus seja ainda mais blasfemado entre os ímpios (Romanos 2, vs. 24), especialmente quanto à "politização partidária dos púlpitos" (que é bastante reprovável). No entanto, embora eu também me oponha tenazmente a qualquer espécie de "profanação" de nossos púlpitos (falo como protestante) para fins político-partidários, a ausência de um entendimento bíblico concernente ao testemunho cristão na esfera pública (o que requer, obrigatoriamente, a correta instrução das comunidades de fé a esse respeito) implica(rá) 1) a mistura inapropriada entre a igreja de Cristo e o "poder temporal" - como ocorreu na Igreja Romana Medieval, o que foi condenado pelos reformadores - ou 2) uma separação tal entre a Igreja e a pólis de forma que não haja mais voz profética na sociedade e, assim, o Estado se torne autônomo até constituir-se "divino", a exemplo do rei absolutista francês que disse "L'état c'est moi!" ou, adaptando à nossa realidade, "a democracia sou eu!". Ou seja, uma vez que vivemos num mundo caído e deteriorado pelo pecado, temos o dever de agir como instrumentos de Deus para que Ele, através de nós, restrinja o mal e promova o bem nas instâncias política e social, porém sem corromper a fé e a prática cristãs por motivos políticos. 

Por outro lado, esse fenômeno de tentar "salvaguardar a igreja" das críticas e reprovações externas pode trazer consigo a idéia mentirosa de que a honra e a pureza dela dependem, em último grau, de nossos esforços para preservá-las. Veja bem, criatura (ou, como diz a professora Cíntia Chagas, "filho de Deus!..."): NÃO É VOCÊ, nem sou eu, nem ninguém que possui o poder de conservar a igreja santa e sem defeito, mas única e exclusivamente Jesus Cristo, que é o Senhor e Cabeça da Igreja, sendo igualmente o seu Salvador. Com que petulância, pois, podemos arrogar para nós tais méritos e prerrogativas? A partir de que momento passamos a crer que nossos textões, vídeos, reels, threads e/ou carrosséis de stories/status substituíram a Cristo e Sua obra como meios de santificação em favor da igreja (vide Efésios 5, vs. 25-27)? Serei claro: se o nosso maior afã ou obsessão tem sido tentar "salvar a igreja do descrédito e escárnio públicos" (por acreditarmos que ela, sem nós, sucumbirá(ia) diante de seus opositores), estaremos nos opondo ao próprio Cristo ao buscar assumir o lugar que pertence apenas a Ele - i.e., agiremos como "anticristos" enquanto julgamos estar servindo a Cristo. Vamos repetir para que não haja mais dúvidas: Jesus é o único Salvador da Igreja e, se sou parte dela, não é a igreja que precisa de mim para permanecer, mas eu que necessito de Cristo para permanecer nela e, acima de tudo, NEle. 


Desse modo, conclui-se que a solução para "todos os santos que já não possuem a correta medida da maldade", cujos jovens "adoecem" juntamente com uma humanidade imersa em pecado, da qual "o encanto está cada vez mais ausente" e onde os "sorrisos enferrujados" apenas indicam a degeneração escondida nos corações é a mesma "velha verdade" redescoberta na Reforma, a qual foi expressa com magistral beleza na Tese 62 de Lutero, onde se lê:

O verdadeiro tesouro da Igreja de Cristo é o sacrossanto Evangelho da glória e da graça de Deus.

Mas em que consistiria esse "sacrossanto Evangelho da glória e da graça de Deus"? 

Sabendo-se que não é viável oferecer uma explicação detalhada, apenas direi que o Evangelho a) começa com Deus e a revelação que Ele deu de Si mesmo na Criação e, em especial, nas Escrituras (Salmo 19), por meio da qual b) chegamos ao conhecimento de nós próprios e de nossa condição de pecado (Romanos 3, vs. 9-20), o que pode nos conduzir, mediante a ação do Espírito Santo, à c) consciência de que devemos dar a devida resposta à intimação divina ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo (Atos 17, vs. 30-31), visto que Ele julgará o mundo com justiça no Dia determinado por Seu Pai. Em outras palavras, a mensagem específica do Evangelho, que "abriu as portas do Paraíso" a um Lutero outrora angustiado em sua jornada de "auto-justificação", afirma que "Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras" (1 Coríntios 15, vs. 3-4), de forma que todo aquele que crê em Jesus Cristo é/será justificado/declarado "justo" perante Deus ou, usando as palavras do profeta Joel, "...todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo..." (Joel 2, vs. 32a).

Além disso, a Tese 62 de Lutero atribui ao Evangelho os termos "sacrossanto", "glória" e "graça", dos quais se deduz a sua sublimidade intrínseca - i.e., ele é singularmente puro e santo -, o peso e a dignidade manifestadas por meio dele e, finalmente, a constrangedora doçura do que nos é ofertado nele. Ou seja, é por meio do Evangelho que a justiça de Deus é revelada (Romanos 1, vs. 17) em favor de todo o que crê, de sorte que "o resplendor da glória divina" pôde (e pode) ser plenamente contemplado na pessoa de Jesus, o Nazareno, O qual "encarnou e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade" (João 1, vs. 14), pelas quais somos "libertados do domínio do pecado" (Romanos 6, vs. 14) bem como santificados a fim de darmos fruto para Deus (João 17, vs. 17 e Romanos 7, vs. 4b). Logo, se muitos dentre os "santos" não têm tido "a justa medida da maldade", talvez o Evangelho esteja sendo esquecido por eles - ou, pior que isso, eles jamais o conheceram verdadeiramente, o que os tornaria ímpios ou "lobos em pele de cordeiro" (Mateus 7, vs. 15-23). Livre-me Deus de ser achado entre os tais!


Finalmente, às portas do 2° turno das "eleições" no Brasil (com muitas 'aspas'), ainda resta um lembrete fundamental que deve ser guardado na mente por todo que se reconhece "cristão": ter a "correta medida da maldade" também significa saber que, no fim das contas, não existe equivalência de forças entre o "mal" e o "bem" - ou melhor, entre Deus e satanás, Cristo e o mundo e entre a graça divina e o pecado. Nesse sentido, o universo não é o palco de uma "disputa entre iguais" - como se a oposição do diabo em relação a Deus fosse uma espécie de "Barcelona x Real Madrid" ou "Brasil x Argentina", onde não há favoritismo e qualquer um tem as mesmas chances de vitória -, mas o "teatro da glória de Deus" (como dissera Calvino). Como resultado, até o pecado e o próprio satanás agem "nos limites de Deus" ou, segundo uma citação relacionada a Lutero, "o diabo é o 'diabo de Deus'; ele é como um cão raivoso, mas é Deus quem controla a coleira". Assim, vale recordar as palavras do rei Davi, quando disse:

"...Por que as nações se enfurecem, e os povos tramam em vão? [...]
Aquele que está sentado nos céus se ri; o Senhor zomba deles. 
Então Ele os repreende na Sua ira e os aterroriza no Seu furor, dizendo: Eu mesmo constituí o Meu rei em Sião, Meu santo monte..."
- Salmo 2, vs. 1, 4-6

Ora, se Deus zomba de quem se levanta contra Ele e, desse modo, aterroriza os Seus inimigos, os que O temem devem manter o coração pacificado apesar do crescimento do mal na sociedade e de seu triunfo aparente. Cristo já venceu a morte, ascendeu aos céus, reina à direita de Deus Pai (mas ainda não plenamente) e, muito em breve, virá outra vez para consumar o Seu reino (começando no Milênio - sim, sou um calvinista milenarista! - e continuando na "eternidade futura"). Nessa consumação, todos os Seus adversários serão destruídos e o Seu domínio será eterno.  

Por fim, embora o atual estado de coisas seja marcado pelos efeitos deletérios do pecado, a graça de Deus sempre pode ser "mais abundante" (ver Romanos 5, vs. 20) que eles. O antigo pastor puritano Richard Sibbes dizia que "sempre há mais misericórdia em Cristo do que pecado em nós", sinalizando que 1) Deus é mais voluntarioso em nos conceder perdão do que nós somos para buscá-lo e 2) que, no "senso das proporções", as dádivas de Deus para nós sempre suplantam nossas ofensas a Ele. Tais benefícios, porém, só podem ser desfrutados por quem se arrepende verdadeiramente de seus pecados e crê em Cristo e, por isso mesmo, não espere até o dia 30 para dar o passo mais importante de sua vida - pois, diferentemente de um governo que deixa marcas numa sociedade que podem durar apenas por gerações, a nossa posição diante de Cristo define o nosso destino eterno. 


Se você leu até aqui, restam somente algumas perguntas/considerações finais:

No tocante às questões políticas, tire a "prova dos 9", investigue a verdadeira história das diferentes idéias e movimentos existentes no mundo atual e responda: qual deles(as) são/têm sido melhores para promover o "florescimento humano" e, sobretudo, a glória de Deus?

Com base nesse entendimento, como deve ser o voto no próximo domingo? Embora essa seja uma decisão de foro íntimo, para um cristão não deve existir "autonomia" ou "livre pensamento" fora dos limites da Escritura - ora, Cristo é ou não o nosso Senhor e Rei? 

Por último, e ainda mais importante: se você não acredita em Jesus como Filho de Deus e Salvador do mundo, até quando permanecerá sem levar isso a sério? Você realmente deseja apostar a Sua eternidade em vez de dar ouvidos à voz de Quem veio ao mundo para salvar pecadores como você e eu?  




Pela alegria de ser liberto de toda maldade NEle,




Soli Deo Gloria!