terça-feira, 30 de junho de 2020

Richiesta d'un uomo stanco - uma oração esperançosa

A Ti, que habitas nos céus,
Elevo minha alma e meus olhos.

Embora perturbado e, por vezes, abatido,
Creio que por Ti serei ouvido 
Pois, embora não saiba pedir como convém,
Posso confiar na mediação de Teu Filho.

Eu tenho sido um "homem cansado".

Pesa-me aos ombros a "falsa ciência" que ilude
Assim como a futilidade que distrai;
E, diante da multiplicação da iniquidade,
Suplico-Te: até quando, Senhor? Salvai!

Ainda que nossos pecados nos separem de Ti,
Não Te emudeças quando clamarmos;
Tua "ausência" é para nós como um inferno
Pois, privados de Ti, quem pode ser de fato feliz?
Faz minha alma serena sossegar 
Com as palavras que tinhas p'ra calar o mar -
Assim, aquietar-me-ei como uma criança,
Sob o abrigo do seio materno,
Figura humana de Teus braços eternos. 

Deuteronomy 33:27 KJV

Muitas vezes, porém, também fico cansado de mim mesmo.

Não se trata de baixa auto-estima
Nem qualquer vitimismo ou autopiedade,
Mas uma santa e ardente expectação 
De ser, enfim, libertado da própria maldade.
Atenta Tu para a angústia e a inquietação
De minha alma, qual parturiente,
Que anseia pelo Dia cada vez mais iminente
No qual toda escravidão e corrupção
Se converterá em uma gloriosa liberdade.

Não mais violência e destruição públicas
Nem cobiças ou perversões privadas;
Não mais tiranias em nome de nosso "bem-estar",
Ou "crimes sem castigo" 
Seguidos do "castigo sem crime" 
- Dostoiévski que o diga! -
E nem revoluções baseadas em ódio e divisão;
Mas, sim, a restauração das coisas criadas
Em um reino firmado em justiça e retidão.
Não mais desejo de "tomar vingança"
Pelas injúrias ou qualquer outro mal sofrido,
Nem qualquer intento de "reparação"
Mesmo quando se é enganado ou traído;
Apenas uma permanente e serena paz -
Por finalmente se "estar em par com Deus" -
Diante da qual todo temor será destituído.

Tu tornarás a compadecer-te de nós
E nos alegrarás pelos dias em que nos afligiste
E, dos anos em que vimos o mal,
Não mais nos lembraremos,
Posto que "aquilo que é mortal
Será revestido de imortalidade"
E que, como és, nós Te contemplaremos,
Para que nos satisfaçamos em Tua bondade.



Ajuda-me a aguardar por Ti em silêncio
Ainda que, lá fora, 
Tudo seja caos e confusão.
Eu não sei calar, mas deixa-me ouvir-Te,
Pois me dizes lá do alto: "sê valente,
Eu te ajudo e estendo-te a mão".

Eu não procuro "grandes coisas"
Nem tenho "sonhos grandes demais";
Hoje quero apenas o que me reservas
Em Tua "doce e amarga providência",
Pela qual "tornas nosso mal em bem"
E trabalhas em favor de quem em Ti espera. 
Concede-me o que Te peço
Para que eu Te honre com o que me pedes,
Pois, auxiliado por Teu braço forte,
Minha fraqueza será subjugada
E Tu sustentarás a minha sorte.

Não quero perder tempo com coisas inúteis,
Mas desejo caminhar nos caminhos que traçaste.

Embora seja assediado por muitos inimigos,
E inquietado pela sensação do tempo perdido
- Além de não ser mais "tão jovem", 
Pelo que sou curiosamente grato -,
Sei que estás ao lado desse Teu peregrino
Ao longo de sua longa jornada,
Cujo cansaço é por Ti tornado renovo,
Assim como fazes com as águias.
Tu me conduzes à sombra de Tuas asas
Fazendo-me correr a corrida que me confiaste,
Para que, assim, eu ande em Tua Luz
Até que a minha redenção seja consumada.

Jesaja 40 31 – samyysandra.com

Volta, Senhor! 
Quando nos consolarás?
Estamos fartos de tanto desprezo;
Porventura não nos vivificarás?

O futuro me é incerto, mas eu sei,
Que para aqueles que Tu chamaste,
Tu trabalharás para o seu bem.
Quem poderá, então, nos separar,
De Teu amor, o qual é antigo,
Visto que em graça nos escolheste
Antes da criação do mundo?
Tu és o Deus de toda consolação,
E, assim, nos confortas em nossa aflição,
Pois, embora sejas excelso e supremo,
Tu atentas para o humilde
Ao passo que resistes ao soberbo.

E agora, o que eu espero?

Não possuo ou preciso de outra esperança
Senão aquela que me assegura
Que, um dia, os reinos desse mundo
Passarão às mãos de Teu Filho Amado
De uma vez por todas e para sempre.
Ditosa certeza é saber que o que prometes
Tu sempre o cumpres e o cumprirás,
Pois és Fiel, diferentemente de nós,
Por muitas vezes traiçoeiros e desleais.

Ouve-nos, ó Deus da nossa salvação,
E fortalece-nos na força de Teu poder,
Para que, enquanto esse Dia não vem
- No qual 'todo mal será bem' -,
Tenhamos nosso olhar voltado para Ti
E, na esperança da glória que nos aguarda,
Perseveremos em seguir-Te até o fim

Maranata!





Soli Deo Gloria!

sábado, 30 de maio de 2020

"There where 2 and 2 always makes a 5" ou "A sabedoria dos neófitos"...

Este é um texto no qual não pretendo ser agradável.

De fato, estou ciente de que, quando a fúria e a raiva assumem o controle dos pensamentos e sentimentos de alguém, os resultados normalmente são desastrosos - todavia, ao menos dessa vez, é até bom que sejam desastrosos mesmo, mas somente para aqueles em relação aos quais esse texto vier a calhar. 

Desse modo, vale salientar que existem situações em que a "diplomacia" é apenas o disfarce para uma covardia patética, a moderação nas palavras não é nada mais do que "bom-mocismo estúpido de homens de geléia" e, finalmente, a "prudência e a sofisticação" constituem unicamente um pretexto canalha para a "apoteose da vigarice", a "soberba da mediocridade" e, claro, o cerceamento de nossas consciências manipuláveis e, conseqüentemente, de nossa liberdade.

Embora meu nome não seja Aslam, eu também não sou domesticado. 

Logo, se algum leitor (se é que esse blog ainda possua leitores) ou visitante que estiver navegando por este blog é do tipo que "palavras machucam" e/ou que "esbraveja purpurina" quando protesta contra os "discursos de ódio" e a "truculência" da sociedade, é melhor sair daqui para fazer vídeos no Tik Tok ou assistir vídeos do MBL. Ora, a realidade é dura, o "universo não tem a obrigação de conspirar a favor" de seus caprichos infantis [mesmo que eu não acredite nessas conspirações mencionadas] e você não é especial - apesar de você ainda acreditar nessa idiotice

Lo característico del momento es que el alma vulgar, sabiéndose ...

Sem delongas, é importante explicar, em primeiro lugar, o significado do título que escolhi para essa postagem. 

Creio que qualquer um que conhece mais a fundo o que chamarei aqui de "rock psicodélico britânico dos anos 2000" se lembrará do álbum "Hail to the Thief" (ou "Saúdem o ladrão!", cuja palavra "Hail" é a correspondente inglesa da palavra "Heil" do alemão, usada na época de Hitler) da banda inglesa Radiohead e, assim, saberá que o título é uma combinação de alusões a duas canções do álbum: "2 + 2 = 5" e "There there". Masalém dessas duas canções, há também uma menção à canção "Neófito" da Banda Resgate. Dessa maneira, o objetivo desse post é, ao lançar mão de determinados trechos de cada uma dessas músicas, expressar as minhas mais recentes indignações, e isso sem a certeza de que haverá qualquer parcimônia ao longo dos próximos parágrafos - como disse, pode ser bem oportuno que minhas palavras produzam um "choque de realidade" nos poucos que as lerem ou, parafraseando alguns versos de uma das canções citadas, que elas sejam como "acidentes ambulantes prontos a acontecer"

Portanto, vamos ao que interessa e que, de toda sorte, haja bom proveito no que for escrito. Em outros termos, seja Deus gracioso para comigo e faça bom uso desse "gêiser de emoções e idéias" que precisa explodir do fundo desse meu coração indignado e, enfim, rasgar o chão que o suprime. 

Saiba como ocorre a formação de um gêiser | Mundo Intrigante

Os primeiros versos que queria destacar são da música "2 + 2 = 5", os quais dizem:


"Are you such a dreamer 
To put the world to rights?
I'll stay home forever
Where two and two always makes a five..."

O trecho traduzido quer dizer "...Você é tão sonhador / A ponto de colocar o mundo nos eixos? / Eu ficarei em casa para sempre / Onde dois mais dois sempre somam cinco...". O autor da música se dirige a um interlocutor [ou ouvinte] hipotético e faz uma pergunta que, implicitamente, parece dizer que a possibilidade desse nosso mundo "entrar nos eixos" é coisa de "sonhador" - nesse caso, de modo um tanto jocoso. Embora tal destinatário possa, como na letra da canção "Imagine" do John Lennon, se enxergar como "um sonhador, mas não o único" - e isso de modo positivo -, na letra mencionada, porém, pode-se ver que esse desejo ou busca de "consertar o mundo" ou "colocá-lo de volta nos trilhos" parece ser algo associado a uma espécie de utopia ou ilusão, de modo que tal luta não parece fazer sentido, a não ser na mente desses "sonhadores". 

Em contrapartida, o compositor da música faz uma afirmação - dentro da licença poética à qual ele se permite - um tanto curiosa e (nesse momento exato em que estamos) bastante irônica, ao dizer que "ficará em casa para sempre", pois ali é o lugar "onde 2 + 2 é sempre igual a cinco". Isto é, de modo alegórico (ou não, talvez), ele diz que ficará para sempre no lugar onde o que normalmente seria absurdo passa a ser o certo [como na soma supracitada]. Ora, numa época em que até a matemática, que é uma das modalidades mais incríveis do conhecimento humano, já tem sido tratada como "construção social", de tal sorte que as convenções de sua linguagem, que outrora eram reflexos das percepções da realidade material, agora são vistas como "imposições" ou somente constructos que precisam ser questionados [ou mesmo abandonados/superados], "dois mais dois sempre ser igual a cinco" acaba sendo uma simples expressão de uma nova mentalidade - a qual não apenas tem colocado em xeque a matemática como sempre a conhecemos, mas tudo quanto existe

Tale Weaver # 55 Making Sense of Nonsense – Agrotive | mindlovemisery

Nesse sentido, a grande ironia se dá no fato de que temos ouvido, pelos quatro cantos do mundo, o novo mantra global do "fique em casa" - ou "quédense en casa"/espanhol, ou "rimanete a casa"/italiano, ou "restez chez vous"/francês, ou "stay home and save lives"/inglês - e, como resultado, estamos sendo induzidos a "ficar em casa para sempre" ao ponto de começarmos a cultivar na mente os nossos absurdos [como no 2 + 2 = 5] e, na pior das hipóteses, sermos levados a um estado de loucura tal que muitos já têm dado cabo da própria vida. Ainda que eu, de fato, reconheça o problema envolvendo a realidade do coronavírus chinês e as questões relativas à sua letalidade - e, obviamente, lamento as vidas que já foram ceifadas nos últimos meses -, é importante ressaltar que a vida real não é tão simples quanto gostaríamos que ela fosse e, especialmente, nós devemos começar a despertar de nossa letargia intelectual (e espiritual, sobretudo) a fim de considerar a maldade humana em suas reais proporções. Quanto a isso, o que creio ser importante destacar é que "a verdade normalmente é inverossímil", de modo que quando somos confrontados com possibilidades que nos parecem "absurdas demais" para serem verdadeiras, quase sempre nós repetimos, como papagaios adestrados, que tais coisas são "teorias da conspiração" ou, por outro lado, que aqueles que questionam a "autoridade da ciência e o consenso científico" são "negacionistas", cujos termos usualmente não passam de falácias estúpidas a fim de "silenciar o oponente" e lançá-lo na "espiral do silêncio", simplesmente porque "opiniões conspiracionistas" podem incomodar ou mesmo porque nunca é bom ter de se dar conta da própria ignorância e burrice. 

Como se pode ver, não é objetivo desse texto descrever exemplos práticos de verdades factuais que são tratadas como "teorias da conspiração" ou "negacionismo científico" - o espaço é curto e, além disso, eu não ouso tentar mostrar coisas como sendo verdades concretas sem ter a devida seriedade e/ou convicção para tal. Todavia, eu pretendo simplesmente chamar a atenção para o fato de que, como o autor dos versos acima, enquanto temos "ficado em casa indefinidamente", podemos estar concedendo lugar em nossa mente para todo tipo de insanidade, insensatez e estultícia [basta olharmos o feed de notícias ou a timeline de qualquer rede social e veremos a explosão de memes ridículos, comparações esdrúxulas, analogias patéticas, desrespeito inveterado e mesmo o compartilhamento de desinformação decorrentes do total desprezo pelo conhecimento], de maneira que precisamos parar, definitivamente, com a necessidade de parecermos os "inteligentinhos" da internet (seja nos grupos de discussão do WhatsApp ou Telegram, na querida "praça de guerra" do Twitter, nos textões do Facebook ou nas stories do Instagram) e começar a levar a vida a sério. Ou seja, é hora de abandonar a "sabedoria da lacração" e estudar, colocando as próprias idéias à prova, "suspeitando de si mesmo e não da verdade", se dispondo a deixar-se ensinar por quem sabe mais e, finalmente, sair da caverna cujas sombras insistem em nos fazer acreditar: "o que você não conhece não existe"

O MITO DA CAVERNA - TÊTE-À-TÊTE

Em outro trecho da música, temos os seguintes versos:


"...It's the devil's way now
There's no way out 
You can scream it, you can shout
It's too late now
Because you have not been paying attention..."

Os versos podem ser traduzidos da seguinte maneira: "...Agora é o diabo quem manda / Não há mais saída / Você pode gritar, você pode bradar / Agora é tarde demais / Porque você não está prestando atenção...". Você pode estar um tanto assustado com o verso que mencionei e pensando: como assim? Um blog de um cristão citando uma música que diz que "o diabo é que manda"? Calma! Eu tentarei elucidar ou, ao menos, procurar esclarecer o que entendo que o autor da canção tentou dizer (sem, obviamente, ter certeza das suas convicções pessoais, mas dentro da liberdade literária) com relação a essa estrofe e, assim, concatenar essa explicação com o que já foi exposto anteriormente. 

Em poucas palavras, acredito que o autor esteja descrevendo, numa linguagem provavelmente alegórica, uma situação para a qual não existe mais solução, de forma que não adianta lamentar, chorar ou se desesperar pois, como pode-se concluir, um mal personificado está com o controle nas mãos e "é tarde demais" para se fazer qualquer coisa - tudo isso como resultado da distração, de um entorpecimento para aquela realidade ou, nas palavras da música, porque "não se estava prestando atenção". Logo, em certo sentido, eu concordo com o autor pois, diante do que foi abordado nos parágrafos acima, eu ouso afirmar que "o diabo tem mandado" em muita coisa ao nosso redor, de modo que muitas vezes eu tenho concluído que já não há saída alguma para tal realidade. Na verdade, esse texto que ora escrevo é um grito silencioso de alguém que está cansado de levantar a voz (ou de verbalizá-la em seus poucos escritos) e que, a cada dia, se convence de que pode ser "tarde demais" para ser ouvido - ou para ser lido. Minha única esperança - se é que é razoável ter alguma em face de tudo isso - é que, ao menos de minha parte, eu me conserve atento, com os olhos devidamente abertos e, dessa maneira, não seja "tarde demais para mim". 

Fadiga e cansaço constantes podem ser sintomas de hepatite A, B ou ...

Isto posto, o que julgo ser mais pertinente é ratificar que, no "admirável mundo novo" dos "inteligentinhos", dos "guardiães da saúde pública e da vida humana", dos "paladinos da responsabilidade social", daqueles que estão "acima dos extremos" e de dicotomias como "fé x ciência" e que se consagram o mais novo "sacerdócio" possuidor das "verdades" e dos "consensos epistêmicos", quaisquer vozes que sejam dissonantes em relação a seus discursos revestidos de uma falsa autoridade estão sendo automaticamente silenciadas através de mentiras, espetáculos de "burrice presunçosa" e rotulações por vezes espúrias e desprezíveis. Nesse sentido, destacam-se expressões como "conspiracionista", "negacionista" e outras mais "elaboradas e igualmente terminadas em -ista" - as quais passam a constituir, em parâmetros "pokémônicos", a evolução mais recente da novilíngua sobre a qual George Orwell "profetizou" há algumas décadas -, de modo que é suficiente que surja, por exemplo, algum conjunto de informações contrárias ao "establishment científico" (já não basta ter que suportar o "establishment político"!) para que, até em ambientes onde é possível obter conhecimentos valiosos, se observe a ausência de perspicácia para notar as armadilhas de um "novo Iluminismo", de uma "idolatria repaginada da racionalidade" ou de uma "Nuova 'Scienza Nuova'". 

Mas em que isso se manifestaria na prática?

Tomando com exemplo a questão da doença causada pelo coronavírus chinês, temos sido bombardeados de maneira mais do que tóxica - seja com carros de som que repetem o "mantra do terror" do "vá pra casa, fique em casa e, se for sair, use máscara", seja em todos os jornais e programas de TV, seja nas redes sociais etc. - a respeito do assunto e, como é de se esperar, tal tortura (que tem sido usada como arma de guerra psicológica) causa cansaço, sensação de pavor e até mesmo pânico e depressão [nos piores casos]. Entretanto, apesar desses fatores mais negativos, muita informação responsável tem sido difundida, tanto no tocante à responsabilidade de se tomar os cuidados necessários nos devidos contextos e, particularmente, quanto àquilo que não tem atraído a atenção devida da maioria de nós: a real origem e a causa da "pandemia", a gama incontável de crimes escusos e perversos que já estão sendo cometidos por todo o mundo em nome do "fique em casa e salve vidas" - como o fechamento infundado de comércios, prisões arbitrárias em praças, praias e parques, confisco dos únicos recursos pelos quais muitos trabalhadores informais sustentam suas famílias, hospitais de campanha vazios e que estão sendo usados apenas como um meio de roubar o erário público, além das demais restrições tirânicas de liberdade (especialmente a liberdade religiosa) - e, o mais importante, a teia dos prováveis reais interesses a ela associados

Todavia, visto que a nossa sociedade é a "sociedade do torpor", a tal ponto que "o óbvio é cada vez mais ofensivo" aos "elegantemente estúpidos", posso testificar, à semelhança do Mito da Caverna, que muitos dos que permanecem pensando que as "sombras na parede" são a única realidade existente, ao serem alertados por aqueles que, pela providência divina, chegaram ao conhecimento da "verdade verdadeira" [conforme dizia Francis Schaeffer] concernente a essas questões, têm desejado destruir os que lhe revelam a ignorância. Logo, é possível que alguém deseje até me matar ao ler esse post, mas, seja como for, se eu estiver do lado da verdade, vale a pena morrer por ela. Eu jamais temerei quem poderá apenas matar o meu corpo, mas não tem poder algum contra a minha alma - nem de manipulá-la, muito menos de destruí-la. 

Matthew 10 28 Photograph by Rick Bartrand

Considerando agora a música "There There", há um pequeno trecho que é muito significativo, o qual diz:


"Just 'cause you feel it, doesn't mean it is there..."
ou
"Só porque você sente isso, não significa que isso está lá..."

Em outros textos passados, acredito que já destaquei a supervalorização dos sentimentos - ou sentimentalismo - predominante em nossa sociedade e, por isso, não irei tratar novamente desse assunto. Logo, sabendo-se da realidade do Homo sentimentalis, essa pequena frase expressa o que há de mais necessário dentro do que já tem sido dito aqui: nossos sentimentos não são a "causa primária das coisas reais" ou, mais acuradamente, não é porque sentimos determinada coisa [por mais intensas e verdadeiras que tais emoções nos pareçam] que tal coisa é real ou se torna parte da realidade. De fato, nossos afetos e inclinações têm frutos na realidade [e normalmente modelam a maneira como encaramos e/ou modificamos certos aspectos de nossa vida concreta], porém a nossa confiança exacerbada no nosso "taco emotivo/intuitivo/analítico" é, muitas vezes, como "algo construído sobre a areia" e, como se sabe, "não é prudente tentar edificar uma casa sobre ela". 

Em termos práticos, olhando para o que já foi mostrado antes, creio que as últimas gerações [dos últimos 200 ou 250 anos, mas principalmente nos últimos 60 anos] possuem como característica identitária [ou definidora] o que esses versos dizem: estamos cada vez mais convencidos de que tudo o que sentimos ser verdadeiro ou razoável necessariamente precisa ser real e, independentemente de sê-lo ou não, estamos "matando e morrendo" em nome dessas "convicções" - especialmente no campo virtual, o que não deixa de ser ironicamente curioso. Ou seja, a nossa timeline/feed de cada dia constitui-se o nosso "admirável mundo novo", no qual distopias e subversões psicológicas compõem a "nova normalidade" [nome bonito para o "totalitarismo comportamental global" já em curso - eu sei que você provavelmente não acredita em tal possibilidade, contudo isso apenas acentua a plausibilidade do argumento], a qual é o novo "sonho dourado" [ou seria vermelho?] de todos os que não fazem outra coisa além da "política Pink e Cérebro": tentar dominar o mundo [i.e., controlar tudo e todos, exceto a própria maldade].

3 Ways HR Is Defining the New Normal - HR Daily Advisor

É pertinente esclarecer, dessa maneira, que o que foi chamado de "novo normal/nova normalidade" se refere a um conceito relacionado a uma espécie de mudança massificada no comportamento e atitudes da sociedade como um todo frente a sugestões que [supostamente] seriam "para a nossa segurança", "para o bem comum", "em nome da saúde da população", para promover o "estado democrático de direito" ou mesmo "com base na ciência". O século XX foi testemunha do início da aplicação abrangente de várias táticas de experimentos sociais e, sem muita dificuldade, podemos ver o poder avassalador que essas técnicas têm exercido por todo o mundo [p. ex., o universo queer e questões como a do trans-humanismo]. No nosso século XXI, essas estratégias certamente estão sendo reformuladas e melhoradas (por assim dizer) a fim de serem mais eficazes e com muitas conseqüências irreversíveis e, infelizmente, a maioria das pessoas [incluindo os "admiráveis lamentáveis inteligentinhos"] não conseguem perceber o que está diante de seus olhos, à semelhança do episódio da cura do cego de nascença relatado no Evangelho segundo João, onde Jesus Cristo, após o momento em que o homem curado O reconhece como o Messias/Cristo, diz aos fariseus que eles eram "cegos" por presumirem de si mesmos que "somente eles enxergavam" [João 9:39-41]. 

Nesse sentido, talvez não haja nada mais esclarecedor do que as duas próximas citações do escritor/pensador marxista esloveno Slavoj Žižek, retiradas do livro "Pandemia: COVID-19 e a reinvenção do comunismo", publicado esse ano:

"O coronavírus também nos estimulará a reinventar o comunismo com base na confiança do povo e na CIÊNCIA";

e

"O que quero dizer quando falo em comunismo? Para entender, basta ler as declarações públicas da Organização Mundial da Saúde (OMS)".

Dessas duas frases conclui-se que a) o comunismo está mais vivo do que nunca - embora muitos idiotas pensem que a queda da URSS simbolizou o seu fim, o que salienta o mal intrínseco à predileção para a ignorância -, b) ele sempre está em processo de mudança interna conforme for conveniente para o seu fortalecimento e sobrevivência pois, como se atribui a Hegel, "a dialética é a sistematização da contradição" e c) suas expressões mais factuais estão nas organizações internacionais todo-poderosas [que ninguém elegeu, cujos escritórios nunca serão conhecidos pela população em geral, mas que ainda assim estão ditando os rumos políticos das nações mediante a usurpação das soberanias nacionais] que só querem "o nosso bem", "a nossa saúde", "cuidar da nossa segurança sanitária" ou outro benefício bonitinho que emociona e comove as afeições dos incautos, sejam estes acadêmicos ou não, sejam inteligentinhos ou sem erudição. Em suma, este "novo normal" pode ser entendido como a cegueira estúpida e quase total para o que de fato existe juntamente com a convicção insolente de que nossas ilusões pueris e histéricas são mais reais do que a própria realidade - mas, como vimos, "não é porque sentimos que está lá" e, igualmente, "não é porque não sentimos que não está". 

China's Communists Rewrite the Rules for Foreign Businesses - The ...

Diante disso, o meu desejo é ter o que chamarei de "sabedoria dos neófitos"

Como assim "sabedoria dos neófitos"?
Não é um contrassenso relacionar os termos "neófito" e "sabedoria" numa mesma frase de um modo onde há acordo e não oposição?

De fato, quem é "neófito"νεόφυτονpalavra de origem grega formada pelos elementos "neo"/novo e "phyton"/planta, o que indica que o "neófito" é como uma "planta recém-nascida" e que, por isso, não cresceu e não amadureceu - normalmente não está numa condição ideal de sabedoria, pois esta vem com a experiência, o que remonta à frase de Tomás de Aquino, que dizia: "veritas filia temporis" ou "a verdade é filha do tempo". Logo, lançando mão de uma "sistematização de contraditórios", pretendo caminhar para o final. 

Para isso, vou usar algumas porções da canção "Neófito" da Banda Resgate, como mostrado a seguir:


"...Não há mais nada que me prenda
Ao que eu não quero mais fazer
Eles confundem ilusão com liberdade
Se dizem 'sim', se dizem livres, mas não podem dizer 'não'
Fazem de conta que a imitação é de verdade
Tanta teoria pra me embriagar
Ninguém me entende, mas vou continuar...
[...]
"...Não há loucura quando os loucos já confundem os normais
Eles comparam o dinheiro com a vida
Se compram sempre, mas se vendem
Nada sobra pra contar
Fazem de conta que a opção não escraviza
Mas eu não posso parar de falar
O que os meus olhos não cansam de enxergar..."

Plantas Novas Na Terra, Conceito Da Vida Nova Foto de Stock ...

Sem muitos rodeios, creio que o autor da canção fala do mesmo tipo de pessoa que vive como se "2 + 2 fosse igual a 5" quando se refere aos que "confundem ilusão com liberdade", pois eles "se dizem livres mas não podem dizer não" [o que denota uma falsa liberdade, já que parecem obrigados a dizer sempre 'sim' - seja a quem for] e "fazem de conta que a imitação é de verdade". Isto é, à semelhança dos habitantes de Nínive dos tempos do profeta Jonas, essas são pessoas que "não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda" [Jonas 4, vs. 11] e que, por isso mesmo, trocam o verdadeiro pelo falso e o real pelo ilusório. Entretanto, mesmo que seja essa a situação, parece-me que o engano e a tolice exercem uma persuasão quase que hipnótica na maioria delas, de tal maneira que essa insensatez deve suprimir a realidade para assumir o seu lugar como um tipo de "anti-realidade" [anti não apenas por ser contrária, mas também por ser usurpadora do que não lhe pertence], assim como no caso em que as Escrituras falam a respeito do "Homem do Pecado" ou "Iníquo" [popularmente conhecido como "o Anticristo", vide 2 Tessalonicenses 2], cujo espírito já está em ação desde os tempos dos apóstolos e que, desde então, tanto tem procurado se opor a Cristo quanto roubar Sua primazia e glória - o que fará mais notoriamente em sua manifestação futura e [como tem se configurado] cada vez mais iminente

Além disso, a música fala de "loucos que já confundem os normais" e que "fazem de conta que a opção não escraviza". Esse exemplo pode ser associado ao que foi dito daqueles que "só porque sentem algo, acreditam que tal coisa está ali", pois estes se comportam como loucos, uma vez que o universo de suas impressões, sensações e afetos se torna o único universo possível para eles, uma espécie de "universo ao lado", o qual precisa ser concretizado e reconhecido como a "verdadeira realidade", enquanto aprendemos dos antigos que o intelecto e as afeições humanas devem se adequar à realidade como ela éo que os medievais chamavam de "mens adaequatio ad rem" ou "mente adequada à coisa". Logo, sabendo-se que "cada cabeça é um mundo", o que se segue é o caos generalizado, pois cada um vai lutar pelo triunfo de seu "próprio universo paralelo" e, mesmo que muitos desses universos sejam bem parecidos entre si, nunca serão totalmente iguais - ou seja, esse "multiverso" de opções de "novos tipos de realidade", embora encarado como uma prova de "libertação" ou "emancipação", se mostra como uma evidência da escravidão dessas pessoas a uma mentalidade reducionista, conforme o silogismo de que "o homem é a medida de todas as coisas; eu sou um homem; logo, eu sou a medida de todas as coisas" - mesmo que hoje, para muito além do pensamento kantiano, nada mais deve ter definição alguma. Em suma, nos tornamos escravos de nossas próprias idéias libertadoras

Finalmente, apesar de "tanta teoria pra me embriagar", eu "não posso parar de falar do que os meus olhos não cansam de enxergar" e, mesmo que ninguém me entenda, eu vou continuar.

Você procura a luz ou encontra um motivo para viver na escuridão ...

Qual seria, então, essa "sabedoria dos neófitos"? Quem seriam os "neófitos sábios"?

Não há melhor registro escrito sobre essa sabedoria do que o Salmo 131, como segue:


"Senhor, o meu coração não é orgulhoso
E os meus olhos não são arrogantes.
Não me envolvo com coisas grandiosas
Nem maravilhosas demais para mim.

De fato, acalmei e tranquilizei a minha alma
Sou como uma criança recém-amamentada por sua mãe;
assim é a minha alma para comigo.

Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre".

Diante de um mundo tal como descrevi nesse texto até aqui - um mundo de caos, desordem, loucura, estultícia, vulgaridade, estupidez, perversidade, auto-engano, burrice prepotente e ódio à verdade e ao conhecimento [o que se resume na inimizade e na rejeição a Deus e à Sua Palavra] -, a única alternativa que me resta é desejar ser como esse salmista: um homem de coração humilde e sem olhos altivos [i.e., consciente de sua própria miserabilidade e que, por isso, não olha para a realidade como se o próprio olhar determinasse o que está fora de si mas, ao contrário, reconhece que tudo começa a partir do que já lhe foi dado] e que também "não se envolve com coisas grandiosas" [ou seja, não fala do que não compreende, não faz textão sobre o que nunca estudou ou não conhece apropriadamente, não considera inverossímil aquilo que lhe parece "psicopatia conspiratória" e não compartilha memes como se fossem "reflexões sérias sobre qualquer coisa"], mas simplesmente se aquieta como faz o bebê logo após terminar de mamar ao dormir tranquilamente nos braços de sua mãe. Isso me basta. 

Em verdade, desejar isso é algo difícil para um colérico que não aguenta mais ver tantos imbecis cheios de empáfia falando asneiras "em nome da ciência" ou de sua "lacração política", porém, como o mesmo salmista afirma, minha esperança está "no Senhor, desde agora e para sempre", tanto para vencer e subjugar a ira e a raiva pecaminosas quanto para qualquer outro pecado até que, enfim, "o que é corruptível se revista de incorruptibilidade e o que é mortal se revista de imortalidade".

Full of Eyes on Twitter: "1 Corinthians 1:21, “For since, in the ...

Essa tal "sabedoria dos neófitos" é, portanto, uma sabedoria mansa e humilde, sendo consciente de que diante Daquele em quem reside toda verdadeira sabedoria não há ninguém que não seja aluno (i.e., desprovido de luz), aprendiz e discípulo, cuja glória está em "ser como o seu Mestre". Sem qualquer dúvida, Aquele de quem toda sabedoria emana é o mesmo de quem se diz que "todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão Nele escondidos", o qual tem um nome e se chama Jesus Cristo, o Filho de Deus, eternamente gerado do Pai e manifesto na plenitude dos tempos ao nascer de mulher para ser fazer carne, habitar entre nós e, pela Sua vida sem pecado, Sua morte na cruz, Sua ressurreição vitoriosa ao terceiro dia e Sua ascensão aos céus, resgatar o Seu povo escolhido de seus pecados e, na consumação dos séculos, restaurar todas as coisas para estabelecer a Nova Criação. Ele é o "manso e humilde de coração" de quem todos devemos aprender a fim de que nossa sabedoria seja de fato verdadeira e digna de ser apreciada, pois fora Dele toda inteligência é burrice e toda sabedoria é insensatez, de maneira que qualquer "aparência de sabedoria" perecerá com o uso, pois não passará de ensino e cogitação humana. 

Por tudo isso, uma vez que Cristo está "à direita de Deus Pai todo-poderoso" - como lemos no Credo Apostólico -, como poderemos receber essa sabedoria divina? 

Nesse caso, as palavras de Cristo registradas por João são o nosso real consolo, pois Ele disse que "não nos deixaria órfãos" e que nos "enviaria outro Consolador, para ficar conosco para sempre" [João 14, vs. 16 e 18]. Esse "outro Consolador" é um "outro da mesma natureza que Cristo" [conforme o termo grego "αλλός" ou "allós" usado no texto, significando "outro do mesmo tipo"] e, por isso, é um "Consolador divino", o Espírito Santo, prometido por Cristo e enviado por Ele ao Seu povo num domingo como este, o Dia de Pentecostes, o qual na época dos israelitas do Antigo Testamento era parte do período de celebração das colheitas da terra mas, desde o episódio do Cenáculo relatado em Atos dos Apóstolos, se tornou o marco de início da Igreja Cristã, quando o apóstolo Pedro pregou ousadamente sobre Jesus Cristo e milhares de pessoas foram "colhidas" por Deus para o Seu reino. De fato, é esse mesmo Espírito que nos regenera e nos faz crer em Cristo como Salvador e Senhor ao nos convencer do pecado, é Ele que também "nos guia em toda a verdade ao nos lembrar tudo o que o Senhor nos disse" e, assim, somente por meio Dele é que poderemos ser "neófitos sábios", cientes de nossa inteligência humilhada de tal sorte que não buscaremos qualquer sabedoria fora Daquele que é chamado de "Sabedoria de Deus", a Qual não foi conhecida dos poderosos deste século, mas que foi constituída como "nossa sabedoria" de acordo com a vontade de Deus, a fim de que "quem se gloriar, glorie-se no Senhor" [1 Coríntios 1, vs. 31]. 

Veni Creator Spiritus (With images) | Holy spirit art, Vintage ...

Nesse Dia de Pentecostes, quando relembramos a vinda do Espírito Santo para habitar para sempre com os que pertencem a Cristo, eu oro junto com os cristãos do passado e digo "Veni, Creator Spiritus!" ou "Vem, ó Espírito, Divino Criador, entre nós morar", pois, assim como diz uma das canções aqui citadas, "...Heaven sent You to me..." ou "...o Céu Te enviou para mim...". Que Companhia doce e gloriosa! Habita, então, conosco, pois dessa maneira nós receberemos de Tua eterna e infalível sabedoria, pela qual saberemos como e por onde caminhar e, mesmo que "não tenhamos luz alguma", confiaremos somente em Ti para que, por Ti transformados à imagem do Filho, possamos habitar Contigo e louvar-Te para sempre




Pela alegria e certeza de ser habitação do Eterno,




Soli Deo Gloria!

domingo, 12 de abril de 2020

"Se non si potesse mai morire" - uma oração para a Páscoa

Eis a Quinta-feira.

A hora se aproxima
Em que o Servo Sofredor 
- Aquele que o Eterno escolheu
E sobre Quem está Seu deleite e amor -
Passará a sua última noite
Antes de Seu sofrimento e morte.
O Homem de dores aguarda
Com ansiedade e inquietação
O momento de "comer a Páscoa"
Com aqueles que O seguiam,
Aos quais com ternura e graça
Também chamou de "amigos".

A noite é vinda, a Mesa está posta,
Mas, enquanto partilhavam do pão e do vinho,
Como que de modo surpreendente,
Ele afirma em tristeza solene:
"Um de vocês me trairá".
O traidor, então, é revelado,
O qual saiu celeremente do Cenáculo
Para "fazer depressa" o que lhe estava designado.

Tendo os onze remanescentes consigo,
Ele lhes confia as Suas palavras finais,
Pelas quais lhes concede a Sua paz
Embora a Sua alma estivesse no pó e na cinza.
"Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida"
E "não os deixarei órfãos".
"Permaneçam em Mim e no Meu amor"
E, assim, "vocês darão muito fruto".
A antiga festa,
Celebrada com pães asmos e ervas amargas,
Daria lugar à verdadeira Páscoa,
Em que o Cordeiro de Deus seria morto,
"Provando a ira amarga" do Seu Deus e Pai
Para "tirar os pecados de Seu povo" -
Não apenas naquele ano 
- Como o era no "Yom Kippur" -,
Mas de uma vez para sempre.

Jesus predicts his betrayal - Wikipedia

Era chegada a Sexta-feira.

Na jornada rumo ao Getsêmani 
- o "Jardim de prensar azeitonas e uvas" -,
A "Videira verdadeira" dava passos resolutos
Para ser "prensada" sob intensa angústia
E suportar desprezo, zombarias e insultos.

Derramando orações, suor e lágrimas
Perante Aquele que O podia livrar da aflição,
Foi ouvido, apesar do Seu terrível destino,
Devido à sua reverente submissão.
Sendo Filho, aprendeu pelo sofrimento
A obedecer até o fim,
Para que, pela Sua justiça e virtude,
Redimisse aqueles que, desprovidos de bondade,
Fizessem Dele a fonte de Sua salvação.

No chamado "Dia da Preparação",
O Criador que Se fizera criatura,
O "Preparador" e Sustentador de tudo o que existe,
Com um beijo foi traído,
Sendo abandonado por Seus amigos
E então julgado como um malfeitor.
Todavia, Ele não estava ali de mau grado,
Nem mesmo houvera sido subjugado -
Ora, Sua vida seria dada de livre vontade,
Conforme o eterno mandado do Pai
Para o resgate de Sua posteridade. 

"Meu Deus, Meu Deus,
Por que me desamparaste?"

Eis o brado mais misterioso e horrendo,
Pois, como outrora já se dissera,
Como pode, ao mesmo tempo,
 Deus ser abandonado por Deus?
As cadeias do inferno chegavam à terra,
Sendo exibidas no "Lugar da Caveira",
Onde a morte, supostamente, triunfava,
Enquanto o Autor da Vida agonizava,
Sob a fúria divina e ao escurecer dos céus.
Até a luz do dia preferiu se esconder
Quando o Sol da Justiça estava a padecer,
Sofrendo a punição que nos era merecida,
Outorgando-nos, desse modo, a Sua própria vida,
Para que, assim como Ele mesmo,
Nunca mais viéssemos a morrer
Mas, sim, desfrutar de gozo real e eterno

File:Brooklyn Museum - My God My God why hast thou forsaken me ...

O dia seguinte era "Sábado".

Antes do chamado "Dia de descanso",
O Filho de Deus era sepultado,
Tendo seu sepulcro "com os ímpios e ricos"
Embora não tivesse cometido pecado.
À semelhança de todo "filho de Adão",
Experimentou a morte e a sepultura,
Descendo "às partes mais baixas da terra"
[Como jamais fizera qualquer criatura]
A fim de habitar a "região do silêncio"
De onde, naturalmente, não mais se retorna.

Àqueles que com ele tinham caminhado
Restavam o lamento e o pranto,
Pois "...quando um homem morre
...acaso tornará a viver?"
Eis que o Cristo jazia, solitário,
Como "um homem que já não tem forças",
Um "cadáver ao seu túmulo relegado"
Do qual ninguém mais se lembra. 
Acaso, ó Deus, "as Tuas maravilhas
São mostradas diante dos mortos
Para que estes se levantem e Te louvem?"
Como poderiam Teus prodígios serem vistos
Na região de trevas e sombra da morte
Bem como os Teus atos de justiça
Onde tudo é esquecimento e má sorte?

Tomando empréstimo de uma canção pop italiana,
Creio que o clamor das mulheres ante o sepulcro -
E de todos aqueles que ali se sentiam amedrontados,
Uma vez que Seu Mestre lhes fora "tirado" -
Poderia ser "ah, se non si potesse mai morire!"

Ora, se fosse possível "nunca mais morrer",
Poder-se-ia, então, "desaparecer durante um abraço"
Ou mesmo "ver as estrelas num dia de sol",
"Nascendo novamente a cada mês" 
Para "sentir de novo a doçura do amor dos pais",
Até o ponto de "dormir no escuro sem mais medo"
Enquanto "lá fora começasse um temporal".

No entanto, o "Domingo estava se aproximando",
E isso mudaria tudo no final.

Holy Saturday: "As Secure as You Know How" - Street Psalms

"Hoje" é "Domingo de manhã".

Estando ainda escuro, eis que aquelas mulheres,
Com boa disposição e valiosas especiarias,
Dirigem-se ao sepulcro do Senhor
Para continuar a cuidar de Seu corpo inerte. 
Porém, lhes aguardava uma grande surpresa -
A pedra houvera sido removida
E o túmulo estava vazio,
Conforme as palavras de dois seres resplandecentes:
"Por que buscam entre os mortos a Quem vive?"

Cumpriam-se, assim, as Escrituras,
Segundo as quais Ele ressurgiria
Ao primeiro raiar do Terceiro Dia,
Vindicando a Sua filiação divina.

Cristo ressuscitou! Verdadeiramente ressuscitou!

O Rei dos judeus anteriormente zombado,
Desprezado pelo povo e, tal qual verme, caluniado,
Sobre a morte havia triunfado.
Bendita aquela manhã em Jerusalém,
Na qual o Príncipe da Paz se levantou
Para "nunca mais morrer"
E, assim, garantir a mesma esperança
A todo aquele que nele crer.

Ele não foi "deixado nas profundezas do Sheol"
Nem mesmo viu qualquer corrupção,
Mas "seu corpo repousara seguro"
Até a "Eucatástrofe da ressurreição".
Bendito és, ó Deus, pois mostraste grande poder,
Ao reergueres o Teu filho de entre os mortos,
Primícia dos que hoje dormem
Esperando a redenção de seus corpos.

Essa é também a minha expectativa confiante,
Visto que aqui não tenho pátria permanente
E, assim, anelo pela "Cidade Celestial",
Na qual não entrará pecado ou coisa semelhante -
Nossos corpos de humilhação serão, então, transformados,
Sendo ao Seu corpo glorioso conformados
Para que se complete o triunfo contra todo mal.

"Exultem, poderes celestes,
Exultem, coros de anjos,
Pois Jesus Cristo, o nosso Rei, ressuscitou!"
Eis a "brilhante Estrela da Manhã",
A Qual jamais conhecerá ocaso,
Posto que nos alumiará para sempre.  

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Soli Deo Gloria! 

domingo, 29 de março de 2020

L.O.L or "Lent onto lockdown"...

Eis que retorno aqui mais uma vez.

Como todos estão bem cientes, uma boa parte do mundo está de "quarentena" devido às questões relacionadas ao novo coronavírus chinês - não vou entrar em quaisquer méritos sobre o que é verdade ou desinformação a esse respeito e nem discutir demasiado a respeito das reais conseqüências desse fenômeno [seja na saúde, seja na estabilidade econômica] - e, portanto, estamos basicamente reclusos em nossas casas.

Por isso, tenho tido mais tempo para ler, estudar outros assuntos distintos de minhas atribuições acadêmicas e, conseqüentemente, de refletir sobre esse momento atual em que estamos inseridos. Espero, portanto [como sempre expresso aqui], ser bem-sucedido em mais uma postagem. 

Curiosidade. A origem da quarentena na cidade de Veneza

Inicialmente, o título desse texto expressa um trocadilho do acróstico inglês L.O.L (i.e, "Laughing out loud", o que em português seria algo como "rindo muito alto") e o seu título real, que é "Lent onto lockdown" ou "Quaresma para a quarentena", dado o fato da coincidência do início desse período de isolamento social com essa estação do Calendário Litúrgico cristão. No entanto, esse texto não será ou pretende ser divertido, visto que tratará de coisas que demandam uma solene seriedade. 

A origem da "quarentena" remonta à Idade Média (mais precisamente, aos séculos XIV e XV) e se deu na Itália (região de Veneza), num contexto de uma sequência de pestes que ocorreram na Dalmácia - atual região da Península Balcânica (Croácia, Eslovênia, Sérvia etc.). Nesse caso, os viajantes que chegavam nos portos e que vinham dessas áreas atingidas eram colocados sob reclusão e afastados dos demais por um período de, por exemplo, quarenta dias - daí o nome "quarentena" ou "quarantena" (em italiano ou no dialeto vêneto). Essa técnica se tornou, dessa maneira, uma alternativa útil para o combate ou contenção de epidemias/pandemias desde essa época, a qual permanece sendo aplicada em nossos dias [como temos vivenciado]. 

Por outro lado, a Quaresma se refere ao período de quarenta dias - da Quarta-Feira de Cinzas até o início da Semana Santa, antecedendo a Páscoa - e tem sua origem na expressão latina <<Quadragesima Dies>> ou "Quadragésimo Dia". A Quaresma é uma estação  litúrgica observada por católicos romanos e por grupos de outras tradições [a exemplo dos luteranos, cristãos ortodoxos e anglicanos], e se caracteriza pela ênfase na penitência e na preparação para seguir os passos de Jesus Cristo na Sua tentação, Seu sofrimento até chegar à cruz. Desse modo, procura-se considerar o pecado e a morte como realidades inescapáveis da existência humana, a fim de se avaliar as limitações  e falhas inerentes ao ser humano, tanto diante da eternidade quanto do próprio Deus. Curiosamente, a Quaresma desse ano está sendo acompanhada de uma "quarentena inesperada e abrangente", na qual temos ainda mais motivos para reconhecer a realidade árdua que nos cerca - vírus desconhecido, muitas mortes, caos sócio-econômico, incertezas, pânico, insegurança etc. -, o que confirma as palavras do apóstolo Paulo de que "...a forma presente deste mundo está passando..." [1 Coríntios 7, vs. 31] e também dos Salmos, onde lemos que Deus "...reduz o homem ao pó e diz: voltem, filhos dos homens!..." [Salmo 90, vs. 3].

Quaresma, o que é? Origem e significado do período

Feitas essas observações, a pergunta que procurarei responder - ou, ao menos, esclarecer dentro do possível - é: quais lições podemos aprender a partir da "aparente coincidência" entre o período quaresmal desse ano com a quarentena? 

Em outras palavras, quais as razões para se refletir a respeito de "Lent onto lockdown"?

No tocante à quarentena, sabe-se que ela tem sido aplicada de formas diferentes, sendo localizada ou parcial em alguns lugares (dando prioridade aos grupos de risco e aos que já contraíram o vírus e necessitam de tratamento) e, em outros locais (na maioria dos casos), mais abrangente e irrestrita - ou seja, isolamento vertical e horizontal, respectivamente. De maneira geral, em virtude do modo pelo qual as notícias têm sido divulgadas nos principais veículos de comunicação [o que chamarei aqui de "mídia mainstream"], uma grande parte dos países do mundo tem adotado o modo de "quarentena total", o que tem acarretado a interdição de atividades acadêmicas, culturais, de lazer e até mesmo algumas mais indispensáveis, a exemplo do transporte de alimentos para os mercados, setores de transações econômicas (como casas lotéricas, onde se pagam as contas do mês e muitas pessoas mais carentes recebem o dinheiro para o sustento da família) e certas fábricas ou indústrias. Dessa forma, pode-se notar que [para o bem ou para o mal, seja como for] a propaganda feita pela mídia mainstream exerce um poder avassalador sobre o comportamento humano, seja daqueles que estão investidos de autoridade sobre nações e povos (os quais, obviamente, podem também ser aliados dos mesmos propagandistas ou os seus promotores) bem como da população em geral que, num processo quase que "coercitivamente natural", adota as orientações dadas por essas autoridades - independentemente se tais diretrizes são boas ou ruins, verdadeiras ou mentirosas. 

Nesse sentido, vale ressaltar algo muito importante: situações complexas, em que se faz necessário elaborar/tomar decisões arriscadas [quaisquer que sejam], não devem ser avaliadas sem o mínimo de honestidade intelectual e de sobriedade. Particularmente no contexto brasileiro desses últimos dias, o que tenho visto é uma avalanche de opiniões estúpidas, estapafúrdias, histéricas, infantis e passionais [até de pessoas bem-intencionadas e de bom coração/caráter, e isso de todos os "lados" ou "âmbitos" das visões políticas] entre as quais se vêem raros lampejos de maior sensatez e de busca pela verdade. Como já dissera no início, não tenho por objetivo defender ou fazer apologia de alguma perspectiva em específico, mas apenas salientar a realidade de que, como dissera o sábio Salomão, "...o tolo não tem prazer no entendimento, mas sim em expor os seus pensamentos..." [Provérbios 18, vs. 2], o que poderia ser auspiciosamente parafraseado como "...o idiota não se importa em aprender as coisas como elas são, mas sim em postar textões no Facebook, status no WhatsApp, stories no Instagram e frases imbecis no Twitter..." pois, como lemos no Sermão do Monte, os que buscam "ser vistos e glorificados pelos homens já recebem destes a sua recompensa", contudo nada receberão do Pai "que vê em secreto". Na verdade, os que dizem ou se consideram mais esclarecidos [especialmente aqueles que não querem ser "rotulados" ou "estigmatizados", posto que são "superiores"] devem dar exemplo e mostrar que realmente são instruídos e, portanto, capazes de auxiliar os seus semelhantes, a fim de irem além de verborragias inúteis para produzirem bons frutos. 

Filosofando: A Busca da Verdade 

Por outro lado, existe um aspecto ainda mais essencial do que o discutido no parágrafo anterior [falo mais diretamente aos cristãos]: nós - digo "nós" porque também sou um cristão - precisamos parar, imediatamente, de vomitar nossa estultícia e burrice nas redes sociais em troca de likes e/ou retweets para, em contrapartida, começarmos a chorar. Ora, se nos julgamos cristãos, confessamos que temos a Bíblia como nossa autoridade última em matéria de fé e conduta - o "Sola Scriptura" não é apenas um "slogan legal" a ser usado a cada 31 de outubro, não é? Conseqüentemente, se lermos as Escrituras com o mínimo de zelo razoável, perceberemos que em todos os momentos em que houve calamidade e desolação [particularmente com o povo de Israel no Antigo Testamento], aqueles que fielmente temiam e serviam a Deus foram impelidos por Ele ao arrependimento de pecados, ao lamento, ao pranto, ao jejum e às orações e súplicas pela misericórdia divina. Apenas como exemplos, destaco o momento em que os israelitas clamaram a Deus para serem libertados da escravidão no Egito [Êxodo 2, vs. 23-25], as orações de Daniel (por causa do pecado de Israel) e de Neemias (em prol da reconstrução de Jerusalém e do retorno à Terra Prometida) - conforme Daniel 9, vs. 4-19 e Neemias 1, vs. 4-9 -, o jejum da rainha Ester em favor da preservação dos judeus na Pérsia [Ester 4, vs. 12-17], os inúmeros salmos de lamentação em que os sentimentos dos seus compositores são expostos visceralmente e, obviamente, o livro das Lamentações de Jeremias, que relata a dor do profeta pela destruição de seu povo e sua terra causada pelos caldeus/babilônicos. De fato, é mais do que pertinente mencionar um trecho do profeta Joel (capítulo 2), onde se lê:

"...Agora, porém, diz o Senhor, "convertam-se a mim de todo o coração, com jejum, lamento e pranto.
Rasguem o seu coração e não as suas vestes. Voltem-se para o Senhor, o seu Deus, pois Ele é misericordioso e compassivo, longânimo e rico em benignidade..." 
[Joel 2, vs. 12-13]

Blessed Is She's tweet - "Even now, says the LORD,⠀ return to me ...

O profeta Joel anunciou sua mensagem num ambiente de desolação e miséria social [qualquer semelhança seria mera coincidência?] - neste caso, o mal havia sido causado por pragas nas colheitas, pelas quais toda a prosperidade do povo havia sido consumida. Todavia, o que lemos nessa passagem não mostra que a vontade de Deus para seu povo era "reclamar da falta de humanidade dos governantes" nem mesmo "denunciar sua ignorância a respeito de calamidades naturais", mas sim chorar - e chorar muito. Na verdade, a ordem de Deus era não somente chorar, mas jejuar, rasgar o coração [i.e., sentir a miséria dentro de si, e não apenas do lado de fora, nas aparências] e voltar-se para Ele, o que indica claramente que aqueles que se enxergam como "povo de Deus" e que já estão com os olhos secos necessitam urgentemente de arrepender-se de seus pecados e retornarem ao caminho certo - ou seja, a Ele. Dessa maneira, vêm a calhar a citação atribuída a Leonard Ravenhill, que dissera que "...devemos nos arrepender por não vermos mais arrependimento entre nós, bem como chorar por não haver mais lágrimas em nossos olhos...", o que foi atestado em outros termos por José Ortega y Gasset na célebre frase "...quiero llorar, pero no tengo lágrimas..." e por Renato Russo na música "Índios", cuja letra termina com os versos


"...Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui...",

os quais podem, ironicamente, constituir uma descrição precisa de nosso cristianismo de "militância virtual", mas desprovido de piedade e contrição. Estamos doentes por querer "mostrar que temos razão" e não somos mais capazes de chorar as mazelas que nos cercam e, menos ainda, as nossas próprias misérias

Curiosamente, temos até usado (com certo sarcasmo) o trecho em que o apóstolo Tiago diz "...limpem as mãos, pecadores..." [Tiago 4, vs. 8] em referência a esses tempos de cuidado com a higiene e prevenção ao contágio do vírus, mas estamos desprezando completamente o resto do mesmo versículo, em que se lê "...e vocês, que são de mente dividida [ou duplo ânimo], purifiquem o coração...". Nesse nosso mundo de filtros de aplicativos de fotos e vídeos, vivemos mais do que nunca entorpecidos pelo desejo compulsivo de "parecer ser" ao invés de simplesmente "ser o que é necessário ser, mesmo que ninguém note" e, como resultado, estamos todos "ficando em casa", "usando o álcool em gel" nas mãos e seguindo as demais recomendações do Ministério da Saúde [que são muito válidas e devem ser acatadas, sem dúvida] para nos resguardar da doença ao mesmo tempo em que não estamos guardando aquilo que deve ser guardado "acima de todas as coisas", de sorte que as "fontes de nossa vida" podem estar sendo contaminadas pelo nosso pecado remanescente, cuja correnteza tem desaguado em cada post, story, status e tweet que temos compartilhado. É hora de abandonarmos nossas iniqüidades disfarçadas sob as fantasias de "preocupação com a humanidade" e de "neutralidade política" para "...sentir as nossas misérias, lamentar e chorar, convertendo o nosso riso em pranto e a nossa alegria em tristeza..." [Tiago 4, vs. 9] até que, humilhados diante do Senhor, Ele tenha compaixão de nós e nos exalte. 

Why B Mad on Twitter: "JAMES 4:9 Lament And Mourn And Weep! Let ...

Tendo isso em mente, pode-se perceber que o cerne do chamado desses profetas à compunção e ao quebrantamento em face das calamidades - como temos experimentado nessa "quarentena" - é parte essencial do espírito da "Quaresma", uma vez que esta antecede o clímax do ministério de Jesus: a Sua paixão, morte e ressurreição. Por tudo isso, não há momento mais oportuno para se exercitar a humilhação e a penitência (falo no sentido de arrependimento e lamento pelos pecados, e não de auto-flagelação ou algo similar) do que este - a "Quaresma da Quarentena"

Para isso, lançarei mão dos registros de outro profeta [ainda mais desconhecido que Joel]: Habacuque. Não se sabe muito sobre as suas origens, porém é provável que ele tenha realizado o seu ministério entre os períodos de dominação assíria e babilônica sobre o povo de Israel [sobre as tribos do norte e do sul, respectivamente]. No entanto, o que mais nos interessa para esse texto é que nas primeiras palavras do livro aparece o seguinte excerto:

"Até quando, Senhor, clamarei por socorro sem que Tu ouças?" [Habacuque 1, vs. 2]

"Até quando, Senhor?" Essa é uma pergunta carregada de significado e sentimento, pois expressa a profunda angústia e inquietação decorrente de uma situação suficientemente calamitosa para ser resolvida pela força do próprio braço. Essa mesma indagação aparece muitas vezes nos Salmos [especialmente nos penitenciais e de lamentação], como escreveu Moisés no Salmo 90:

Volta-Te, Senhor! Até quando será assim? Tem compaixão dos Teus servos! 
Alegra-nos pelos dias em que nos afligiste, pelos anos em que tanto sofremos.  
[Salmo 90, vs. 13-14]

Creio que, em ambos os contextos, tanto Moisés quanto Habacuque estavam vivenciando ou (no mínimo) refletindo a respeito de circunstâncias marcadas por intensa aflição e sofrimento - p. ex., nos cativeiros assírio e babilônico supracitados - e, diante de tais desolações, a única alternativa aceitável e viável era recorrer a Deus e à Sua benevolência. Entretanto, não se vê aqui um tipo de súplica descabida, tola ou impertinente, pois o salmista afirma que o próprio Deus os havia afligido [evidenciando a percepção da vontade soberana de Deus até sobre o mal], ainda que também manifeste a dor e a triste sensação do "abandono" e do "silêncio" divinos. Ou seja, a postura de alguém que entende que deve buscar o auxílio de Deus frente às tribulações deve combinar uma submissão consciente à Sua providência, porém sem deixar de lado a sinceridade de coração e a transparência nas palavras. 

A lament for a painful week: How long, o Lord? - RMN+ | Seeking ...

No mesmo sentido, existem outras palavras do profeta Habacuque que são ainda mais oportunas para a minha tentativa de justificar o "Lent onto Lockdown", como mostrado a seguir:

"...Senhor, ouvi falar de Tua fama; tremo diante dos Teus atos, Senhor. Realiza de novo, em nossa época, as mesmas obras, faze-as conhecidas em nosso tempo; na Tua ira, lembra-Te da misericórdia..." [Habacuque 3, vs. 2]

Esse capítulo do livro do profeta é uma oração. Ele começa reconhecendo expressamente que, ao ouvir sobre Deus e Seus feitos, foi tomado de temor e, movido por esse temor, implora que Deus "realize novamente as mesmas obras de outrora" ou, em outras traduções, que Ele "avive a Sua obra". Avivamento - eis uma palavra tão controvertida em nossos dias e tão mal-compreendida, pois normalmente associa-se esse termo com "histeria", "barulho", "confusão litúrgica" [até resultantes de manipulações psicológicas e/ou hipnóticas] ou mesmo a "engajamento social", "relevância cultural" e coisas afins. Sem entrar nesses tópicos em particular, o que quero sublinhar é que  "avivamento é algo que somente Deus pode produzir/trazer/operar" - se fosse diferente, não seria preciso orar por isso - e, destarte, não é possível desejar um avivamento genuíno sem que esse desejo seja fruto de um real conhecimento de Deus e de Suas obras pois, sem esse conhecimento, nossa tendência sempre será considerar verdadeiro o que na verdade é falso. Logo, se o "avivamento" é falso, ele não vem de Deus, mas sim daquele que é o pai da mentira - i.e., satanás, de quem lemos que "...se transfigura em anjo de luz..." [2 Coríntios 11, vs. 14]. 

Finalmente, a última porção com que gostaria de gastar as últimas linhas desse texto é o final do verso mostrado acima: "...na Tua ira, lembra-Te da misericórdia...". Deus é um Deus irado [segundo o Salmo 7, Ele "...sente indignação todos os dias..."], no entanto parece ser mais fácil se dar conta desse atributo divino em momentos de aflição ou quando entendemos que Deus repreende ou exerce juízo por causa de nossos pecados. Portanto, quando o profeta pede para que Deus "se lembre da misericórdia" mesmo em meio à Sua própria ira, ele traz um ensino único, presente apenas nas páginas da Bíblia/das Escrituras: a misericórdia de Deus e a ira de Deus são atributos que, embora se manifestem normalmente em direções opostas, podem existir [e de fato existem] paralelamente ou mesmo serem "dois lados de uma mesma moeda" - e isso tem tudo a ver com "Quaresma"

Jesus Is Nailed à cruz fotografia editorial. Ilustração de ...

Daqui a poucos dias a "Quaresma" chegará ao fim para que comece a "Semana Santa" - a semana dos últimos dias de Jesus. Nessa "estação litúrgica" atual, encoraja-se a reflexão constante a respeito da miséria humana e da morte como implicações do pecado, o qual seria posteriormente carregado pelo próprio Jesus "...em Seu corpo sobre o madeiro...", conforme as palavras do apóstolo Pedro. 

É exatamente aqui, quando dirigimos nossos pensamentos ao Cristo crucificado, que contemplamos a perfeita expressão da harmonia da ira e da misericórdia de Deus, a qual foi expressa belamente pelo salmista, quando disse "...a justiça e a paz se beijaram..." [Salmo 85, vs. 10]. Ora, Deus, o Pai, estava aplicando a justa punição [ou salário, de acordo com Romanos 6, vs. 23] pelo(s) nosso(s) pecado(s) sobre Seu próprio Filho, "...o Filho amado, em quem tinha Seu prazer..." [Mateus 3, vs. 17], em vez de aplicá-la sobre aqueles que realmente mereciam recebê-la [começando por mim], de sorte que, mediante um único ato, num único dia - dia de trevas e também de luz, dia de dor mas também de salvação -, uniu plenamente todo o Seu ódio irredutível ao pecado ao Seu imensurável amor por homens maus e perversos, pois "...Deus prova o Seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores..." [Romanos 5, vs. 8]. 

Isto é, Jesus Cristo, o Filho de Deus enviado ao mundo, carregou sobre Si mesmo todos os tipos de mazelas, dores e sofrimentos decorrentes do pecado. Na verdade, Ele não somente "...levou sobre Si as nossas enfermidades...", suportou as decepções e calúnias ou quaisquer outras aflições típicas de nossa vida terrena, mas sim o "esquecimento de Seu Pai" [como lemos no seu brado "...Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?..."] e, em última instância, o próprio inferno - o que poderia ser mais terrível, assustador, horripilante e desesperador para Aquele que desde a eternidade desfrutou apenas do amor e do deleite de Seu Pai do que a sensação de se ver como que "abandonado" por Ele? 

Por fim, em certo sentido, aquelas orações e lamentos dos salmistas e profetas que clamavam "...Até quando, Senhor? Te esquecerás de mim para sempre?..." [Salmo 13, vs. 1] encontram seu sentido pleno na pessoa de Jesus Cristo - Aquele que sempre era ouvido pelo Pai [vide João 11, vs. 41-42] até o momento do Getsêmani, quando não foi possível "passar de si o cálice" até que tudo culminou em Seu sofrimento no Calvário -, o Qual certamente viveu uma espécie de experiência de "inferno eterno", pois somente um Salvador que substitui o pecador e sofre plena e eternamente a punição por ele merecida pode dar vida eterna àqueles pelos quais Ele entregou a Sua vida. Desse modo, podemos voltar nosso olhar para Cristo, o Servo Sofredor, o Amigo dos Pecadores, o Salvador Gentil, o Redentor Vitorioso, e Nele encontrarmos consolo e esperança em meio a falências, perdas, pandemias, pânico, insegurança e mesmo diante da própria morte, pois já sabemos como a Semana Santa termina - Ele ressuscita para não mais morrer, pois "...era impossível que a morte o retivesse..." [Atos 2, vs. 24] e, assim, Ele apenas aguarda o momento em que a própria morte será derrotada a fim de que "...todos os Seus inimigos sejam postos debaixo de Seus pés..." [1 Coríntios 15, vs. 25-26]. 

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Como nós temos lidado com as incontáveis informações que ouvimos? Somos como que "Marias que vão com as outras" ou exercitamos sensatez e prudência?

E quanto a nossas "verborragias virtuais"? 
Quando é que vamos parar de ostentar a nossa tolice em público para praticar a humildade e, acima de tudo, para começarmos a chorar e a lamentar as misérias de fora e de dentro de nós?

Finalmente, diante dessa tentativa de relacionar a tradição da "Quaresma" com a "Quarentena" concomitante, qual será a nossa resposta ao que Deus fez por nós em Jesus Cristo? 
Passaremos mais uma Semana Santa apenas não comendo carne vermelha sem nos alimentarmos do "pão da vida"? Além disso, desfrutaremos a Páscoa pensando nos coelhinhos e comprando ovos de chocolate "via delivery" sem nos importarmos com o Cordeiro que foi morto por causa de nossos pecados? 





Pela certeza da ressurreição passada e pela esperança da futura,




Soli Deo Gloria!