domingo, 30 de agosto de 2020

Are we human or are we killers?

Após cerca de dois meses ausente, acredito que preciso escrever novamente. 

E, como freqüentemente acontece, esse deverá ser mais um texto que eu não gostaria de ter de produzir, uma vez que seus motivos têm me indignado há muito - e não somente a mim, mas a muitos outros em tantos lugares do mundo e, acima de tudo, certamente são alvo da ira divina, a qual, sem a menor dúvida, é infinitamente mais feroz e implacável do que qualquer manifestação humana análoga. 

Eu não sei se conseguirei manter a sobriedade até o fim do texto mas, apesar de avisar de antemão aos prováveis poucos leitores dessa eminente possibilidade, peço a Deus - de quem vem o domínio próprio e a mansidão que não me são inatas - que me ajude a ser sereno. Todavia, como nem toda cólera é em si mesma ruim ou reprovável, aqueles que (porventura) continuarem a leitura devem estar preparados. 

Anger is fire for creativity — so it's time to let it burn |

O tema desse texto tem sua inspiração em uma música da banda britânica The Killers - acho que já ficou visível que eu gosto de músicas que vêm das "terras da rainha" - chamada "Human" (que significa, como pode-se notar, "Humano"). Dessa maneira, sabendo-se que o título dado ao post significa (traduzido do inglês) "Nós somos humanos ou nós somos assassinos/matadores?", eu procurarei responder a essa pergunta a partir de alguns trechos da letra buscando relacioná-los com as razões da indignação e da fúria citadas nos parágrafos acima. Logo, sem mais demora, vamos ao que realmente interessa. 

Primeiramente, é importante entender corretamente o que significa ser "humano" pois, como se pode ver, nossa época é quase que majoritariamente caracterizada pela absoluta ignorância ou perversão deliberada do "humano" - seja do conceito, seja do próprio ente humano concreto - e, por isso, é indispensável que saibamos o que é ser "humano" antes de respondermos à pergunta do texto. Nesse sentido e de modo mais simplificado, as alternativas principais para a questão "o que é o ser humano?" são 1) o ser humano é produto de processos evolutivos que começaram em formas de vida "inferiores" e que, ao longo do tempo, conduziram ao estado da atual espécie que conhecemos (denominada Homo sapiens sapiens) sem que houvesse intervenções externas aos mecanismos naturais (particularmente, de natureza inteligente ou transcendente) e 2) o ser humano é produto da ação de um ente inteligente e relacional (ou, no mínimo, de vários entes), de modo que esse(s) agente(s) exterior(es) pôs/puseram no ser humano marcas ou traços de si mesmo(s) ou elementos que apontam para si mesmo(s). Isto é, o ser humano é resultado de processos naturais não-guiados ou é resultado de uma criação intencional (seja por ação de vários entes/deuses - como nas tradições ditas pagãs ou politeístas - ou de um único Deus - como no Judaísmo, no Islamismo e no Cristianismo). 

Creation vs. Evolution Resources - Life, Hope & Truth

De fato, existem algumas variantes dessas duas visões majoritárias supracitadas - as quais procuram construir modelos de integração entre a idéia de criação divina e a mediação de fenômenos/mecanismos que possam ser entendidos de acordo com as teorias evolutivas, a exemplo do denominado "criacionismo evolucionário" -, mas esse texto não tem o objetivo de se aprofundar nesses desdobramentos. Portanto, com base no que já foi exposto, a depender de qual daquelas alternativas nós adotamos como verdadeira a respeito do que realmente somos, a nossa autoconsciência e, conseqüentemente, a nossa relação com os outros, com a realidade que nos cerca e (em última instância) com Deus (ou com o "transcendente" ou "metafísico") será radicalmente distinta em comparação com os mesmos aspectos naqueles que adotam a possibilidade oposta à nossa. Ou seja, se "quase toda a soma de nosso conhecimento, que de fato se deva julgar como verdadeiro e sólido, consiste no conhecimento de Deus e no conhecimento de nós mesmos" - como dissera o teólogo francês João Calvino -, se não soubermos ao menos quem de fato somos [e, sobretudo, se desprezamos o conhecimento de Deus] certamente viveremos no auto-engano e, como resultado, nos destruiremos mutuamente - assim como tudo o que estiver a nosso alcance.

Dessa forma, quais seriam as conseqüências concretas da adoção de ambas as perspectivas? Quais são as marcas deixadas pelos "humanos" que sabem o que realmente é o "ser humano"? Por outro lado, quais seriam os frutos produzidos por aqueles que possuírem um conceito maculado sobre si mesmos?

Are We Who We Say We Are? - Path Interactive

Embora talvez não seja o modo mais fácil, eu tentarei responder às perguntas do último parágrafo à luz da questão central do texto ao lançar mão de versos da música já mencionada, a qual em um de seus trechos diz:

"...There is no message we're receiving / Let me know if your heart is still beating..."

ou

"...Não há nenhuma mensagem que estejamos recebendo / Deixe-me saber se o seu coração ainda está batendo..."

A imagem que me vem à mente ao pensar nesse trecho à luz das perguntas que pretendo responder é a de "ausência de sinais ou evidências de vida" em um interlocutor hipotético pois, nessa situação fictícia, quem está em busca desses vestígios "não recebeu qualquer mensagem" e, por isso, deseja saber se o coração desse interlocutor "ainda está batendo" - i.e., se ainda há ali algum "sinal vital". Partindo dessa figura, o que podemos dizer sobre nós, os humanos, em nossos dias? 

Em primeiro lugar, diferentemente do caso mostrado na letra da música, nossa época é de tal natureza que as "mensagens", as "narrativas", os "discursos" e a "linguagem engajada" se tornaram o elemento central da dinâmica e da organização sociais de um modo jamais visto ou concebido nos séculos anteriores, de forma que o que não falta são "mensagens" de todos os tipos e para "todos os gostos" [so to speak]. Nesse contexto, onde diversas vozes se levantam para proclamar suas "mensagens" e "narrativas" aos quatro cantos do mundo - cujo alcance é praticamente ilimitado e está à distância de um click -, todos querem, de alguma maneira, serem ouvidos e notados a fim de que seus discursos sejam acolhidos ou, como tem sido cada vez mais freqüente, passem a ser norteadores do modus vivendi daqueles que (supostamente - ou mesmo obrigatoriamente) devem dar ouvidos ao que está sendo falado. Dito isso, apesar de que, na prática, fosse esperado que todas as diferentes "mensagens" que os diferentes "humanos" podem transmitir (ou têm transmitido) fossem igualmente consideradas como dignas de serem ouvidas [ao menos a priori], o que se tem visto é o "cancelamento" de todo e qualquer "discurso" ou "conteúdo" que seja considerado [por quem?] como "ofensivo", de incitação ao ódio", "preconceituoso" ou "sensível" - e, infelizmente, não somente dos discursos em si, mas inclusive daqueles cujos discursos são censurados nesses termos, de modo que muitos corações já não estão mais batendo, seja por causa de uma "boca racista" calada com tiros "à queima roupa", por ser um "menino branco pisando na grama do meu jardim", por se defender tratamentos profiláticos "anticientíficos" e "negacionistas" (sic) e, claro, porque não se pode criticar aqueles que são "editores de um país inteiro, de uma nação inteira, de um povo inteiro"

The Economics Of Leading In The Age Of The Cancel Culture

Em outros termos, a recente "cultura do cancelamento" apenas põe uma máscara [infeliz coincidência?] sobre as reais intenções de seus promotores, os quais, na medida em que possuem os meios de ação para implementá-las, não hesitarão (como já é patente) em "cancelar" concretamente/fisicamente todo aquele que (supostamente ou de fato) represente qualquer elemento ou aspecto da realidade odiado pelo "cancelador", como a aparência física [mas somente se for branco(a), de olhos claros, magro(a) e bonito(a)], as ponderações no campo científico [vulgo "negacionismo"], determinadas origens étnicas [como judeus ou os uigures no noroeste chinês, por exemplo], a prosperidade financeira [a alheia, obviamente] ou as crenças religiosas [i.e., o cristianismo]. Desse modo, não tem sido apenas os corações dos "cancelados" sob a tirania sanguinária dos "canceladores" - que se espalham como ervas-daninhas de modo cada vez mais organizado, inclusa a retaguarda dos poderosos que os patrocinam - que "não estão mais batendo" pois, sob outro ponto de vista, todo "humano" que não consegue mais conceber a sua existência fora dos parâmetros do "ódio radical a tudo quanto existe" [exceto a si mesmo e aos seus caprichos estúpidos e impiedosos disfarçados de "direitos"] já não tem mais dentro de si um "coeur qui bat" e, portanto, está cada vez mais anti-humano - embora possa até pensar ser parte da vanguarda de uma "nova humanidade". 

Na verdade, se pensarmos na definição do que é o "humano" a partir do conceito de "coração" - como nas abordagens baseadas na tradição neocalvinista holandesa, a qual em última análise é fundamentalmente bíblica -, não há como não mencionar versículos bíblicos correspondentes, como mostrado a seguir:

"Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida". [Provérbios 4, vs. 23] 

"Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem poderá conhecê-lo?" [Jeremias 17, vs. 9]

Ao considerarmos estes versos das Escrituras, duas são as conclusões centrais: 1) a nossa "vida como ela é" ou quem somos como "humanos" flui do coração e 2) esse coração, que é a fonte da vida como um todo, é enganoso e terrivelmente perverso, de tal sorte que nenhum de nós, humanos, por mais perspicaz que seja, por mais culto e erudito, por mais que reflita sobre os mistérios da vida (ontológica e metafisicamente), pode [nem poderá] conhecer plenamente a si mesmo [e igualmente ao outro]. Logo, recordando os versos já citados da música, a situação de nosso coração é de tal sorte desordenada que, por nossa própria conta, jamais seremos capazes de acessar as reais "mensagens" que nos revelariam o que somos ipsis literis e, como resultado, nunca perceberemos que os corações dos humanos, sem exceção, já "pararam de bater" desde que nos rebelamos contra Aquele "em quem está a Fonte da Vida" e "em cuja Luz nós vemos a luz" - ou seja, embora "vivos", estamos simultaneamente mortos, posto que deliberadamente passamos a viver em oposição ao Criador, o Qual formou os corações dos "humanos", conhece as nossas obras e mesmo os "segredos dos homens", os quais serão finalmente revelados no tempo determinado "segundo o Evangelho", uma vez que está escrito que "não há nada oculto que não venha a ser revelado" [Lucas 12, vs. 2]. 

Portanto, uma vez compreendido o que de fato é o "humano" - uma criatura feita à imagem de seu Criador, inicialmente boa e sem máculas em nenhuma de suas faculdades e dimensões [ainda que limitada e dependente], mas que caiu desse estado em direção ao que é chamado de "depravação total" ou "corrupção radical" -, podemos finalmente buscar responder à indagação central desse texto. 

Para isso, insiro a seguir alguns trechos de outra música conhecida como "Humanos" [originalmente intitulada "Até quando?"] do Oficina G3 - banda cristã brasileira de rock -, onde se diz:

"...Humanos que em amor gostam muito de falar / Mas nunca fazem nada pra demonstrar

Humanos que pedem paz em toda a terra / Mas que a buscam com armas e tanques de guerra

[...]

Humanos que só falam e fazem muito pouco / Humanos que só julgam e se enxergam pouco

Humanos que em Deus gostam muito de falar / Mas não O conhecem e nem O querem aceitar..."

Humanos - Oficina G3 by marcelvalente_ on SoundCloud - Hear the world's  sounds

Como se vê, a mensagem desses versos é bem direta: nós, os humanos, somos [quase sempre] "belos hipócritas" - embora não haja beleza alguma na hipocrisia -, atuando nos palcos e plataformas em que ocupamos espaço [sejam concretas ou 'virtuais'], ao mostrar um "discurso superficialmente bonito e emocionalmente apelativo" enquanto, simultaneamente, negamos com nossos atos o que declaramos com nossas palavras [ou stories, status, vídeos, tweets etc.]. Não são necessários mais do que 2 neurônios para se reconhecer que os mesmos dentre nós que mobilizam causas - normalmente expressas em hashtags - em nome do "amor", da "paz" e do combate a qualquer idéia ou conceito terminado em "-ismo" [ou outro sufixo qualquer] são aqueles que depredam o patrimônio público, destroem monumentos históricos, incendeiam catedrais, saqueiam lojas de avenidas inteiras [como a Champs-Élysées em Paris ou a 5th Avenue em NYC], estabelecem zonas proibidas ao acesso policial e a não-residentes [vide o caso de Seattle há algumas semanas e as zonas mais islamizadas na Europa] e, como não poderia deixar de ser, até fazem festas em navios de luxo às margens do Mediterrâneo com patrocínio de "dinheiro público" (sic) - embora também matem animais domésticos para consumo próprio, assediem e violentem mulheres indefesas, agridam covardemente qualquer pessoa que seja considerado um "desafeto" ou "inimigo" e, sempre que podem, os matam impiedosamente

Gostamos de "falar de amor" mas nossos atos são cheios de ódio; erguemos palavras de ordem tais como "No Justice, No Peace" ["Sem Justiça, Sem Paz"] e empreendemos guerras injustas afirmando lutar pelo bem comum; colocamo-nos acima de tudo e de todos [i.e., fazemos uma auto-deificação] e sentenciamos tudo o que nos cerca e que "nos ofende" à categoria do que "não pode existir" e, sobretudo, usamos até o nome de Deus (ainda que cada vez mais raramente) para justificar as atrocidades que praticamos, o que mostra uma absoluta ignorância sobre quem Ele realmente é - um Ente santo e que não tem qualquer deleite no pecado e no mal - e sobre o que Ele demanda de Suas criaturas racionais - o temor a Seu nome e a obediência aos Seus mandamentos, dentre os quais consta "não tomar o Seu nome em vão" [conforme Êxodo 20, vs. 7]. Diante desse quadro, vêm a calhar a pergunta fundamental do refrão da mesma música anterior: "...quando vamos viver a vontade do Deus Pai - de viver Seu amor e de vivermos em paz?..." ou, de outra forma, "quando deixaremos de ser 'matadores' ou 'canceladores' e voltaremos a ser, de verdade, 'humanos'"?

Fear of God - Wikipedia

Ao refletir sobre como responder a essa inquietação, a primeira coisa que creio ser importante elencar é que eu, como talvez nunca antes, não tenho passado um dia sequer sem me enfurecer com a avalanche de crimes, impiedade, violência, cinismo, demagogia, dissimulação, tirania, ódio ressentido e impunidade que, embora seja parte da realidade humana desde o Pecado Original, tem se espalhado como joio pelos "campos do mundo", de tal maneira que, caso eu tivesse poder para acabar com (ou pelo menos atenuar) essa situação, certamente perderia a conta de quantas cabeças seriam fuziladas pelas minhas próprias mãos - melhor, quantas vezes eu usaria uma boa espada templária [até porque guilhotina é coisa de revolucionário esquerdista que se inspira no "siècle des lumières"] para enviar ao inferno todos aqueles que vivem para servir aquele para quem o inferno foi preparado [vide Mateus 25, vs. 41 e João 8, vs. 38, 41 e 44]. Nesse ínterim, se alguém que chegou até essa parte do texto se espantou com o que acabei de escrever, saiba que do seu coraçãozinho podem sair [e saem, pois assim disse Jesus Cristo conforme registrado por Mateus (cp. 15, vs. 18-19) e Marcos (cp. 7, vs. 20-22)] os mesmos maus pensamentos e desígnios - ainda que você esteja convencido da ilusão de que é uma "boa pessoa". De fato, graças a Deus, eu não tenho [e provavelmente jamais terei] os meios de ação que me possibilitariam fazer essa "justiça com as próprias mãos" supracitada, pois esta seria, na verdade, injusta, uma vez que "a ira do homem não produz a justiça de Deus" [Tiago 2, vs. 20]. 

Nesse sentido, se atentarmos honestamente para o que realmente somos capazes de sentir, maquinar, desejar, cobiçar, arquitetar e, em última instância, de realizar, seremos compelidos a admitir que, à semelhança dos "canceladores" [mantidas as devidas proporções, quando necessário], também somos humanos "desumanizados", cuja Imago Dei foi contaminada pelo pecado em todas as suas faculdades. Embora saibamos em nossa consciência que há um único Deus, Criador e Sustentador de tudo quanto existe e para quem são todas as coisas, deliberadamente não O glorificamos tal como Ele é e nos entregamos a vãos raciocínios que nos tornam insensatos, corrompemos a Sua glória consoante a imagem de Suas criaturas e transformamos a Sua verdade em mentira para prestar às criaturas a adoração devida somente a Ele e, por fim, desprezamos o Seu conhecimento [Romanos 1, vs. 21-22, 23, 25 e 28], pelo que o próprio Deus, de forma "soberanamente irônica", nos deixa "seguir os nossos próprios conselhos de acordo com nosso coração obstinado" [Salmo 81, vs. 12] ao ponto de pensarmos que, enfim, "nos libertamos da 'tirania' de um Deus caprichoso, egoísta, mau e repressor". Contudo, como dissera C. S. Lewis, esse é o tipo de pessoa a quem Deus, no fim de tudo, diz/dirá "seja feita a vontade de vocês", indicando que Deus, ao unir Seu livre-arbítrio [livre-arbítrio existe, mas só Deus tem!] e as causas secundárias [aqui a maldade humana] sujeitas à Sua providência, faz exatamente o que tais "humanos" mais anseiam: a total privação da fruição de Deus para, em troca, ter de suportar [se é que seja possível] o Seu implacável juízo

Por tudo isso, será que a única expectativa possível é a de que tudo "andará de mau a pior" e, assim, jamais conseguiremos nos libertar [ou ser libertados] desse estado lastimável? Ou será que, como certa vez um poeta cantou, "a humanidade é desumana, mas ainda temos chance"?

Why it is always too early and when u speak then it is too late ?!! | exp  of the day

Para responder a essa dúvida, vou me basear em outro pequeno trecho da primeira música aqui destacada [Human], onde se pode ler:

"...My sign is vital, my hands are coldAnd I'm on my knees looking for the answer..."

Que traduzido é:

"...Meu sinal é vital, minhas mãos estão frias / E eu estou de joelhos procurando a resposta..."

Mais do que nunca, eu posso me apropriar destes versos como se eu mesmo os tivesse escrito, pois há um bom tempo eu me reconheço e me sinto como esse compositor: alguém que, embora ainda esteja vivo, está como que "com as mãos frias" num dia típico no inverno europeu ou na América do Norte, querendo apenas um lugar acolhedor para se sentir aquecido e, de preferência, para ficar bem longe de tudo - e de quase todos. Não obstante a imagem anterior das "mãos frias", o que de fato tem se esfriado em mim [e com razoável freqüência] é a predileção para "olhar com bons olhos" [i.e., com alguma medida de altruísmo] para o mundo; todavia, diferentemente dos melancólicos, tal frieza normalmente se tem manifestado não mediante desilusão ou niilismo, mas [como um bom colérico] através de recorrentes desejos de retribuição ou compensação à luz do "olho por olho e dente por dente" - o qual, embora seja um princípio bíblico, não deve ser usado como subterfúgio para a vingança e pecados similares [ver Mateus 5, vs. 38-42].

Em outras palavras, a cada notícia de saque, roubo, assassinato a sangue frio, estupro, aborto [em toda e qualquer situação, visto que sempre é um assassinato de um humano indefeso], destruição de estátuas e monumentos históricos, atentados ao pudor, assédio, exploração da miséria para fins escusos, incêndios criminosos, ataques terroristas de toda espécie, censura, abuso de autoridade ou qualquer outro ato criminoso, meu sentimento mais comum têm sido o de anelar ardentemente o "cancelamento de todos os canceladores" - ou mesmo de fazê-lo. Eu tenho estado cansado - como escrevi na publicação anterior - de toda essa desgraça que nos tem sufocado diariamente [assim como fazem as focinheiras que ainda temos sido obrigados a usar sem qualquer comprovação concreta de eficácia mas, unicamente, por causa da "ciência, ci-êêência, ci-êêêêênciaaaa!"] e, diante da fúria de cada dia, muitas vezes não consigo enxergar que os "canceladores" e tutti quanti [sem vista grossa em relação às iniquidades deles] ainda são "imagem e semelhança de Deus" e, simultaneamente, acabo cometendo [incluso o senso das proporções reais] os mesmos pecados deles, uma vez que me comporto como um "cancelador potencial" por [felizmente] não possuir o poder de ser um "cancelador efetivo". Nesse sentido, são pertinentes as palavras do apóstolo Paulo quando escreveu que "...feliz é aquele que não se condena naquilo que aprova..." [Romanos 14, vs. 22].

15 Antonyms for « approval »

No entanto, não é somente pela frieza crua e ácida que esses versos têm sido apropriados por mim ultimamente, mas sobretudo porque, em meio às constantes indignações e aos desejos de "dar um fim definitivo à parafernália distópica" que tem sido a marca desse ano, eu me vejo prostrado, consciente de minha impotência, enquanto busco descobrir como responder às questões básicas desse texto: somos humanos ou somos matadores/canceladores/assassinos? Quais são as características dos que procuram viver como "verdadeiramente humanos"? E, finalmente, será que há esperança de redenção para nossa "humanidade desumana"

A figura evocada pelo letrista me conduz à idéia de oração, pois quem "está de joelhos atrás de respostas" adota [ou, no mínimo, demonstra] uma atitude "orante". Desse modo, eu posso me apropriar de algumas palavras que compõem o mais belo e transparente "Livro de Orações" da história - i.e., os Salmos -, dentre os quais destacarei os seguintes trechos:

"Ó Tu que ouves a oração, a Ti virão todos os homens.

Quando os nossos pecados pesavam sobre nós, Tu mesmo fizeste propiciação por nossas transgressões.

[...] Tu nos respondes com temíveis feitos de justiça, ó Deus, nosso Salvador, esperança de todos os confins da terra e dos mais distantes mares. [...]

Tu acalmas o bramido dos mares, o bramido de suas ondas e o tumulto das nações.

Tremem os habitantes das terras distantes diante das Tuas maravilhas; do nascente ao poente despertas canções de alegria". [Salmo 65, vs. 2, 3, 5, 7 e 8]

A primeira mensagem que o salmo nos traz é: Deus é aqui chamado como "Aquele que ouve a oração". Logo, se alguém que "está de joelhos e procurando respostas" as têm buscado do/no Deus verdadeiro, ele as encontrará. Além disso, está escrito que "todos os homens virão até Deus", indicando que é para Ele que todos nós devemos nos dirigir quando estamos aflitos, sem esperança, enfurecidos com a prevalência do mal no mundo [como no meu caso] e, especialmente, quando reconhecemos e sentimos o fardo de nossos pecados, pois quando estes "pesam sobre nós", o próprio Deus age de modo favorável para conosco e perdoa as nossas transgressões. O salmo também mostra que Deus responde àqueles que O buscam "com temíveis feitos de justiça" e, assim, se mostra como o "nosso Salvador" e "esperança de todos os confins da terra" , implicando que Ele não está "passando de largo" quando contempla o mal [a exemplo do sacerdote e do levita na parábola do Bom Samaritano] e, segundo o Seu desígnio, atende às orações dos aflitos, desamparados, indignados e arrependidos trazendo salvação e juízo - e isso por toda a terra. Finalmente, o salmista afirma que Deus é quem "acalma a força das ondas do mar" [Jesus fez isso literalmente por duas vezes nos Evangelhos, cujos episódios ratificam a Sua divindade] e faz o mesmo com o "tumulto das nações" - nada poderia ser mais consolador para esse ano! -, de sorte que tais demostrações de poder produzem, ao mesmo tempo, temor e canções de alegria em todos aqueles que vêem as Suas obras. 

Top 7 Bible Verses About Answered Prayer | Jack Wellman

Conseqüentemente, o que me resta é dar a devida atenção às palavras do salmista a cada vez que 'estiver de joelhos procurando as respostas', particularmente quanto a "ser paciente na tribulação" [seja em face do mal externo, seja diante do pecado remanescente] e a "alegrar-se na esperança" [tanto a de que Deus tem 'misericórdias novas' todos os dias quanto à da restauração final de todas as coisas]. O Deus que se revela nas páginas da Bíblia não é um 'deus morto' e imóvel - Ele é "Deus de vivos, pois para Ele todos vivem" [Lucas 20, vs. 38] - e portanto, como dizem os versos de uma canção de que gosto muito, Ele é "eterno mas não distante". Ele ouve a oração daqueles que verdadeiramente O invocam e, como também dizem as Escrituras, "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" [Romanos 10, vs. 13 - vide Joel 2, vs. 32] - salvo não pela eficácia da própria oração ou súplica, mas pelo poder Daquele que é/foi invocado, O qual resolveu "salvar os que crêem por meio da loucura da pregação" [1 Coríntios 1, vs. 21], a qual nada proclama senão "Jesus Cristo, e este crucificado", Aquele que é o "poder de Deus e a sabedoria de Deus" para todos os "humanos", tanto "judeus como gentios". Desse mesmo Cristo, assim como é dito no salmo exposto, se diz que "em Seu nome as nações porão a sua esperança" [Mateus 12, vs. 21], pois está escrito que "Ele é a propiciação - i.e., a satisfação da justiça de Deus pela qual Ele nos mostra Seu favor devido ao aplacamento de Sua ira - pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas pelos do mundo inteiro" [1 João 2, vs. 2]. Ou seja, Jesus Cristo é anunciado como sendo um Salvador "de facto" e não um "Salvador potencial", pois, se Ele é a propiciação que Deus estabeleceu para redimir pecadores, todos os pecadores que são alvo desse favor triunfante de Deus serão redimidos por Ele. 

Por fim, e talvez a parte mais importante da conclusão, a Bíblia diz que, em Jesus Cristo, Deus estabeleceu/começou a constituir a "verdadeira nova humanidade" - não aquela do "homem soviético", nem a do "übermensch" (super-homem) de Nietzsche ou qualquer idéia totalitária e bestial (talvez como um prenúncio das obras da Besta do Apocalipse) referente ao "trans-humanismo" -, mas uma humanidade cuja identidade [que foi pervertida na "alma mater do 'novo paganismo' de nossos dias"] não está em nada senão no próprio Cristo, como está escrito:

"...Ele é a nossa paz, O Qual de ambos os povos fez um só e, em Seu corpo, derrubou a barreira de separação que estava no meio [a inimizade],

Anulando em Seu corpo a Lei dos mandamentos expressa em ordenanças, para que dos dois (judeus e gentios) criasse em Si mesmo uma nova humanidade, fazendo a paz,

E reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por meio da cruz, destruindo a inimizade por meio dela..." [Efésios 2, vs. 14-16]

One New Humanity – Roots Covenant Church

Ora, se Deus, em Cristo Jesus, está estabelecendo uma 'nova humanidade' - a qual é a Sua Igreja, o Corpo de Cristo - através da união de judeus - o povo da aliança, a quem Deus inicialmente se revelou e por meio do qual Ele trouxe o Salvador ao mundo, pois "a salvação vem dos judeus" [João 4, vs. 22] - e gentios, é somente pelo conhecimento e mediação do Evangelho que os "humanos desumanizados", perdidos em seus pecados, carentes da glória de Deus e separados uns dos outros, podem ser reconciliados com Deus e com seus semelhantes. Numa época em que tantas militâncias identitárias estão em voga [particularmente a racialista, pela instrumentalização de movimentos como o Black Lives Matter] - e, infelizmente, muitos cristãos têm sido seduzidos por uma retórica supostamente associada à "justiça social" [a qual em última análise não existe, mas isso pode ser assunto para outro texto] mas que, na verdade, é baseada em ódio e desejo de destruir/cancelar tudo o que supostamente é "racista" e "supremacista branco" (sic)] -, nunca foi tão necessário dizer, em alto e bom som [ou escrever EM CAPS LOCK] que, se coisas como o racismo são pecados [o que para mim é óbvio - por sinal, um pecado abominável], a solução é somente o ARREPENDIMENTO acompanhado da FÉ EM CRISTO e NÃO FAZER REVOLUÇÃO. No mais, se você se diz cristão e não concorda com isso, você nem é cristão [embora você não esteja preparado para essa conversa] e precisa se arrepender urgentemente

Por tudo isso, a minha esperança frente a essa situação de maldição na qual ainda estamos (por causa dos efeitos da Queda de Adão - ou, por assim dizer, da queda dos "humanos" em Adão), como não poderia ser diferente, está na doce e consoladora certeza de que, um belo dia - que ditoso dia será! -, "os reinos do mundo passarão a ser de nosso Senhor e do Seu Cristo, e Ele reinará para todo o sempre" [Apocalipse 11, vs. 15]. A partir desse momento não haverá mais nenhum ditador sanguinário, nenhum metacapitalista que use seu dinheiro para perverter nações inteiras pelo fomento de todo tipo de subversão, nenhuma "ditadura sanitária" que acaba com a saúde e a segurança em escala global "em nome da saúde e da segurança globais" e nenhum califado que cortará cabeças dos "infiéis" como sinal do triunfo de um falso monoteísmo, mas somente Cristo, o Rei da glória, "Verdadeiro Deus do Verdadeiro Deus", reinará. Como eu aguardo por isso! 

Esse será o momento da "ira de Deus, o tempo determinado para serem julgados os mortos, para se dar o galardão aos Teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o Teu nome, tanto aos pequenos como aos grandes, e de destruíres os que destroem a terra" [Apocalipse 11, vs. 18]. Nenhuma impiedade deixará de ser apropriadamente punida; nenhum malfeitor deixará de ser condenado pela sua maldade; os "destruidores da terra" [que eu tenho visto todos os dias pelo Twitter] serão destruídos pelo Deus de quem eles blasfemam e de quem zombam e, ao mesmo tempo, todos os que foram salvos por Deus em Cristo, desde os profetas até os últimos santos da história, serão recompensados pelo seu Senhor e, assim, também "reinarão com Ele para todo o sempre" [Apocalipse 22, vs. 5]. Maranata! 

A Guide to Dante's 9 Circles of Hell

Se você foi paciente e chegou até esse final, você já parou para pensar no que realmente significa ser "humano"? Em que está a nossa real identidade? Somos produtos de "processos naturais não-guiados" ou somos criação de um Ente inteligente?

Você reconhece que "o coração de seus problemas é o problema de seu coração"? E, diante disso, também reconhece que precisa receber um coração puro [o qual só pode ser dado por Alguém santo]?

Sabendo que Deus ouve as orações do que O buscam com integridade, você já admitiu que precisa buscá-Lo para encontrar as "respostas" para as "questões últimas" de sua existência?

Finalmente, se você for um cristão, até quando você permanecerá apoiando causas "dissimuladamente injustas" com "máscara" (ou focinheira) de "justiça"? Até quando continuará a pensar que pecados se combatem com 'revolução' e não com a pregação e o testemunho do Evangelho?



Pela certeza de que serei plenamente humano Nele, 



Soli Deo Gloria!

terça-feira, 30 de junho de 2020

Richiesta d'un uomo stanco - uma oração esperançosa

A Ti, que habitas nos céus,
Elevo minha alma e meus olhos.

Embora perturbado e, por vezes, abatido,
Creio que por Ti serei ouvido 
Pois, embora não saiba pedir como convém,
Posso confiar na mediação de Teu Filho.

Eu tenho sido um "homem cansado".

Pesa-me aos ombros a "falsa ciência" que ilude
Assim como a futilidade que distrai;
E, diante da multiplicação da iniquidade,
Suplico-Te: até quando, Senhor? Salvai!

Ainda que nossos pecados nos separem de Ti,
Não Te emudeças quando clamarmos;
Tua "ausência" é para nós como um inferno
Pois, privados de Ti, quem pode ser de fato feliz?
Faz minha alma serena sossegar 
Com as palavras que tinhas p'ra calar o mar -
Assim, aquietar-me-ei como uma criança,
Sob o abrigo do seio materno,
Figura humana de Teus braços eternos. 

Deuteronomy 33:27 KJV

Muitas vezes, porém, também fico cansado de mim mesmo.

Não se trata de baixa auto-estima
Nem qualquer vitimismo ou autopiedade,
Mas uma santa e ardente expectação 
De ser, enfim, libertado da própria maldade.
Atenta Tu para a angústia e a inquietação
De minha alma, qual parturiente,
Que anseia pelo Dia cada vez mais iminente
No qual toda escravidão e corrupção
Se converterá em uma gloriosa liberdade.

Não mais violência e destruição públicas
Nem cobiças ou perversões privadas;
Não mais tiranias em nome de nosso "bem-estar",
Ou "crimes sem castigo" 
Seguidos do "castigo sem crime" 
- Dostoiévski que o diga! -
E nem revoluções baseadas em ódio e divisão;
Mas, sim, a restauração das coisas criadas
Em um reino firmado em justiça e retidão.
Não mais desejo de "tomar vingança"
Pelas injúrias ou qualquer outro mal sofrido,
Nem qualquer intento de "reparação"
Mesmo quando se é enganado ou traído;
Apenas uma permanente e serena paz -
Por finalmente se "estar em par com Deus" -
Diante da qual todo temor será destituído.

Tu tornarás a compadecer-te de nós
E nos alegrarás pelos dias em que nos afligiste
E, dos anos em que vimos o mal,
Não mais nos lembraremos,
Posto que "aquilo que é mortal
Será revestido de imortalidade"
E que, como és, nós Te contemplaremos,
Para que nos satisfaçamos em Tua bondade.



Ajuda-me a aguardar por Ti em silêncio
Ainda que, lá fora, 
Tudo seja caos e confusão.
Eu não sei calar, mas deixa-me ouvir-Te,
Pois me dizes lá do alto: "sê valente,
Eu te ajudo e estendo-te a mão".

Eu não procuro "grandes coisas"
Nem tenho "sonhos grandes demais";
Hoje quero apenas o que me reservas
Em Tua "doce e amarga providência",
Pela qual "tornas nosso mal em bem"
E trabalhas em favor de quem em Ti espera. 
Concede-me o que Te peço
Para que eu Te honre com o que me pedes,
Pois, auxiliado por Teu braço forte,
Minha fraqueza será subjugada
E Tu sustentarás a minha sorte.

Não quero perder tempo com coisas inúteis,
Mas desejo caminhar nos caminhos que traçaste.

Embora seja assediado por muitos inimigos,
E inquietado pela sensação do tempo perdido
- Além de não ser mais "tão jovem", 
Pelo que sou curiosamente grato -,
Sei que estás ao lado desse Teu peregrino
Ao longo de sua longa jornada,
Cujo cansaço é por Ti tornado renovo,
Assim como fazes com as águias.
Tu me conduzes à sombra de Tuas asas
Fazendo-me correr a corrida que me confiaste,
Para que, assim, eu ande em Tua Luz
Até que a minha redenção seja consumada.

Jesaja 40 31 – samyysandra.com

Volta, Senhor! 
Quando nos consolarás?
Estamos fartos de tanto desprezo;
Porventura não nos vivificarás?

O futuro me é incerto, mas eu sei,
Que para aqueles que Tu chamaste,
Tu trabalharás para o seu bem.
Quem poderá, então, nos separar,
De Teu amor, o qual é antigo,
Visto que em graça nos escolheste
Antes da criação do mundo?
Tu és o Deus de toda consolação,
E, assim, nos confortas em nossa aflição,
Pois, embora sejas excelso e supremo,
Tu atentas para o humilde
Ao passo que resistes ao soberbo.

E agora, o que eu espero?

Não possuo ou preciso de outra esperança
Senão aquela que me assegura
Que, um dia, os reinos desse mundo
Passarão às mãos de Teu Filho Amado
De uma vez por todas e para sempre.
Ditosa certeza é saber que o que prometes
Tu sempre o cumpres e o cumprirás,
Pois és Fiel, diferentemente de nós,
Por muitas vezes traiçoeiros e desleais.

Ouve-nos, ó Deus da nossa salvação,
E fortalece-nos na força de Teu poder,
Para que, enquanto esse Dia não vem
- No qual 'todo mal será bem' -,
Tenhamos nosso olhar voltado para Ti
E, na esperança da glória que nos aguarda,
Perseveremos em seguir-Te até o fim

Maranata!





Soli Deo Gloria!

sábado, 30 de maio de 2020

"There where 2 and 2 always makes a 5" ou "A sabedoria dos neófitos"...

Este é um texto no qual não pretendo ser agradável.

De fato, estou ciente de que, quando a fúria e a raiva assumem o controle dos pensamentos e sentimentos de alguém, os resultados normalmente são desastrosos - todavia, ao menos dessa vez, é até bom que sejam desastrosos mesmo, mas somente para aqueles em relação aos quais esse texto vier a calhar. 

Desse modo, vale salientar que existem situações em que a "diplomacia" é apenas o disfarce para uma covardia patética, a moderação nas palavras não é nada mais do que "bom-mocismo estúpido de homens de geléia" e, finalmente, a "prudência e a sofisticação" constituem unicamente um pretexto canalha para a "apoteose da vigarice", a "soberba da mediocridade" e, claro, o cerceamento de nossas consciências manipuláveis e, conseqüentemente, de nossa liberdade.

Embora meu nome não seja Aslam, eu também não sou domesticado. 

Logo, se algum leitor (se é que esse blog ainda possua leitores) ou visitante que estiver navegando por este blog é do tipo que "palavras machucam" e/ou que "esbraveja purpurina" quando protesta contra os "discursos de ódio" e a "truculência" da sociedade, é melhor sair daqui para fazer vídeos no Tik Tok ou assistir vídeos do MBL. Ora, a realidade é dura, o "universo não tem a obrigação de conspirar a favor" de seus caprichos infantis [mesmo que eu não acredite nessas conspirações mencionadas] e você não é especial - apesar de você ainda acreditar nessa idiotice

Lo característico del momento es que el alma vulgar, sabiéndose ...

Sem delongas, é importante explicar, em primeiro lugar, o significado do título que escolhi para essa postagem. 

Creio que qualquer um que conhece mais a fundo o que chamarei aqui de "rock psicodélico britânico dos anos 2000" se lembrará do álbum "Hail to the Thief" (ou "Saúdem o ladrão!", cuja palavra "Hail" é a correspondente inglesa da palavra "Heil" do alemão, usada na época de Hitler) da banda inglesa Radiohead e, assim, saberá que o título é uma combinação de alusões a duas canções do álbum: "2 + 2 = 5" e "There there". Masalém dessas duas canções, há também uma menção à canção "Neófito" da Banda Resgate. Dessa maneira, o objetivo desse post é, ao lançar mão de determinados trechos de cada uma dessas músicas, expressar as minhas mais recentes indignações, e isso sem a certeza de que haverá qualquer parcimônia ao longo dos próximos parágrafos - como disse, pode ser bem oportuno que minhas palavras produzam um "choque de realidade" nos poucos que as lerem ou, parafraseando alguns versos de uma das canções citadas, que elas sejam como "acidentes ambulantes prontos a acontecer"

Portanto, vamos ao que interessa e que, de toda sorte, haja bom proveito no que for escrito. Em outros termos, seja Deus gracioso para comigo e faça bom uso desse "gêiser de emoções e idéias" que precisa explodir do fundo desse meu coração indignado e, enfim, rasgar o chão que o suprime. 

Saiba como ocorre a formação de um gêiser | Mundo Intrigante

Os primeiros versos que queria destacar são da música "2 + 2 = 5", os quais dizem:


"Are you such a dreamer 
To put the world to rights?
I'll stay home forever
Where two and two always makes a five..."

O trecho traduzido quer dizer "...Você é tão sonhador / A ponto de colocar o mundo nos eixos? / Eu ficarei em casa para sempre / Onde dois mais dois sempre somam cinco...". O autor da música se dirige a um interlocutor [ou ouvinte] hipotético e faz uma pergunta que, implicitamente, parece dizer que a possibilidade desse nosso mundo "entrar nos eixos" é coisa de "sonhador" - nesse caso, de modo um tanto jocoso. Embora tal destinatário possa, como na letra da canção "Imagine" do John Lennon, se enxergar como "um sonhador, mas não o único" - e isso de modo positivo -, na letra mencionada, porém, pode-se ver que esse desejo ou busca de "consertar o mundo" ou "colocá-lo de volta nos trilhos" parece ser algo associado a uma espécie de utopia ou ilusão, de modo que tal luta não parece fazer sentido, a não ser na mente desses "sonhadores". 

Em contrapartida, o compositor da música faz uma afirmação - dentro da licença poética à qual ele se permite - um tanto curiosa e (nesse momento exato em que estamos) bastante irônica, ao dizer que "ficará em casa para sempre", pois ali é o lugar "onde 2 + 2 é sempre igual a cinco". Isto é, de modo alegórico (ou não, talvez), ele diz que ficará para sempre no lugar onde o que normalmente seria absurdo passa a ser o certo [como na soma supracitada]. Ora, numa época em que até a matemática, que é uma das modalidades mais incríveis do conhecimento humano, já tem sido tratada como "construção social", de tal sorte que as convenções de sua linguagem, que outrora eram reflexos das percepções da realidade material, agora são vistas como "imposições" ou somente constructos que precisam ser questionados [ou mesmo abandonados/superados], "dois mais dois sempre ser igual a cinco" acaba sendo uma simples expressão de uma nova mentalidade - a qual não apenas tem colocado em xeque a matemática como sempre a conhecemos, mas tudo quanto existe

Tale Weaver # 55 Making Sense of Nonsense – Agrotive | mindlovemisery

Nesse sentido, a grande ironia se dá no fato de que temos ouvido, pelos quatro cantos do mundo, o novo mantra global do "fique em casa" - ou "quédense en casa"/espanhol, ou "rimanete a casa"/italiano, ou "restez chez vous"/francês, ou "stay home and save lives"/inglês - e, como resultado, estamos sendo induzidos a "ficar em casa para sempre" ao ponto de começarmos a cultivar na mente os nossos absurdos [como no 2 + 2 = 5] e, na pior das hipóteses, sermos levados a um estado de loucura tal que muitos já têm dado cabo da própria vida. Ainda que eu, de fato, reconheça o problema envolvendo a realidade do coronavírus chinês e as questões relativas à sua letalidade - e, obviamente, lamento as vidas que já foram ceifadas nos últimos meses -, é importante ressaltar que a vida real não é tão simples quanto gostaríamos que ela fosse e, especialmente, nós devemos começar a despertar de nossa letargia intelectual (e espiritual, sobretudo) a fim de considerar a maldade humana em suas reais proporções. Quanto a isso, o que creio ser importante destacar é que "a verdade normalmente é inverossímil", de modo que quando somos confrontados com possibilidades que nos parecem "absurdas demais" para serem verdadeiras, quase sempre nós repetimos, como papagaios adestrados, que tais coisas são "teorias da conspiração" ou, por outro lado, que aqueles que questionam a "autoridade da ciência e o consenso científico" são "negacionistas", cujos termos usualmente não passam de falácias estúpidas a fim de "silenciar o oponente" e lançá-lo na "espiral do silêncio", simplesmente porque "opiniões conspiracionistas" podem incomodar ou mesmo porque nunca é bom ter de se dar conta da própria ignorância e burrice. 

Como se pode ver, não é objetivo desse texto descrever exemplos práticos de verdades factuais que são tratadas como "teorias da conspiração" ou "negacionismo científico" - o espaço é curto e, além disso, eu não ouso tentar mostrar coisas como sendo verdades concretas sem ter a devida seriedade e/ou convicção para tal. Todavia, eu pretendo simplesmente chamar a atenção para o fato de que, como o autor dos versos acima, enquanto temos "ficado em casa indefinidamente", podemos estar concedendo lugar em nossa mente para todo tipo de insanidade, insensatez e estultícia [basta olharmos o feed de notícias ou a timeline de qualquer rede social e veremos a explosão de memes ridículos, comparações esdrúxulas, analogias patéticas, desrespeito inveterado e mesmo o compartilhamento de desinformação decorrentes do total desprezo pelo conhecimento], de maneira que precisamos parar, definitivamente, com a necessidade de parecermos os "inteligentinhos" da internet (seja nos grupos de discussão do WhatsApp ou Telegram, na querida "praça de guerra" do Twitter, nos textões do Facebook ou nas stories do Instagram) e começar a levar a vida a sério. Ou seja, é hora de abandonar a "sabedoria da lacração" e estudar, colocando as próprias idéias à prova, "suspeitando de si mesmo e não da verdade", se dispondo a deixar-se ensinar por quem sabe mais e, finalmente, sair da caverna cujas sombras insistem em nos fazer acreditar: "o que você não conhece não existe"

O MITO DA CAVERNA - TÊTE-À-TÊTE

Em outro trecho da música, temos os seguintes versos:


"...It's the devil's way now
There's no way out 
You can scream it, you can shout
It's too late now
Because you have not been paying attention..."

Os versos podem ser traduzidos da seguinte maneira: "...Agora é o diabo quem manda / Não há mais saída / Você pode gritar, você pode bradar / Agora é tarde demais / Porque você não está prestando atenção...". Você pode estar um tanto assustado com o verso que mencionei e pensando: como assim? Um blog de um cristão citando uma música que diz que "o diabo é que manda"? Calma! Eu tentarei elucidar ou, ao menos, procurar esclarecer o que entendo que o autor da canção tentou dizer (sem, obviamente, ter certeza das suas convicções pessoais, mas dentro da liberdade literária) com relação a essa estrofe e, assim, concatenar essa explicação com o que já foi exposto anteriormente. 

Em poucas palavras, acredito que o autor esteja descrevendo, numa linguagem provavelmente alegórica, uma situação para a qual não existe mais solução, de forma que não adianta lamentar, chorar ou se desesperar pois, como pode-se concluir, um mal personificado está com o controle nas mãos e "é tarde demais" para se fazer qualquer coisa - tudo isso como resultado da distração, de um entorpecimento para aquela realidade ou, nas palavras da música, porque "não se estava prestando atenção". Logo, em certo sentido, eu concordo com o autor pois, diante do que foi abordado nos parágrafos acima, eu ouso afirmar que "o diabo tem mandado" em muita coisa ao nosso redor, de modo que muitas vezes eu tenho concluído que já não há saída alguma para tal realidade. Na verdade, esse texto que ora escrevo é um grito silencioso de alguém que está cansado de levantar a voz (ou de verbalizá-la em seus poucos escritos) e que, a cada dia, se convence de que pode ser "tarde demais" para ser ouvido - ou para ser lido. Minha única esperança - se é que é razoável ter alguma em face de tudo isso - é que, ao menos de minha parte, eu me conserve atento, com os olhos devidamente abertos e, dessa maneira, não seja "tarde demais para mim". 

Fadiga e cansaço constantes podem ser sintomas de hepatite A, B ou ...

Isto posto, o que julgo ser mais pertinente é ratificar que, no "admirável mundo novo" dos "inteligentinhos", dos "guardiães da saúde pública e da vida humana", dos "paladinos da responsabilidade social", daqueles que estão "acima dos extremos" e de dicotomias como "fé x ciência" e que se consagram o mais novo "sacerdócio" possuidor das "verdades" e dos "consensos epistêmicos", quaisquer vozes que sejam dissonantes em relação a seus discursos revestidos de uma falsa autoridade estão sendo automaticamente silenciadas através de mentiras, espetáculos de "burrice presunçosa" e rotulações por vezes espúrias e desprezíveis. Nesse sentido, destacam-se expressões como "conspiracionista", "negacionista" e outras mais "elaboradas e igualmente terminadas em -ista" - as quais passam a constituir, em parâmetros "pokémônicos", a evolução mais recente da novilíngua sobre a qual George Orwell "profetizou" há algumas décadas -, de modo que é suficiente que surja, por exemplo, algum conjunto de informações contrárias ao "establishment científico" (já não basta ter que suportar o "establishment político"!) para que, até em ambientes onde é possível obter conhecimentos valiosos, se observe a ausência de perspicácia para notar as armadilhas de um "novo Iluminismo", de uma "idolatria repaginada da racionalidade" ou de uma "Nuova 'Scienza Nuova'". 

Mas em que isso se manifestaria na prática?

Tomando com exemplo a questão da doença causada pelo coronavírus chinês, temos sido bombardeados de maneira mais do que tóxica - seja com carros de som que repetem o "mantra do terror" do "vá pra casa, fique em casa e, se for sair, use máscara", seja em todos os jornais e programas de TV, seja nas redes sociais etc. - a respeito do assunto e, como é de se esperar, tal tortura (que tem sido usada como arma de guerra psicológica) causa cansaço, sensação de pavor e até mesmo pânico e depressão [nos piores casos]. Entretanto, apesar desses fatores mais negativos, muita informação responsável tem sido difundida, tanto no tocante à responsabilidade de se tomar os cuidados necessários nos devidos contextos e, particularmente, quanto àquilo que não tem atraído a atenção devida da maioria de nós: a real origem e a causa da "pandemia", a gama incontável de crimes escusos e perversos que já estão sendo cometidos por todo o mundo em nome do "fique em casa e salve vidas" - como o fechamento infundado de comércios, prisões arbitrárias em praças, praias e parques, confisco dos únicos recursos pelos quais muitos trabalhadores informais sustentam suas famílias, hospitais de campanha vazios e que estão sendo usados apenas como um meio de roubar o erário público, além das demais restrições tirânicas de liberdade (especialmente a liberdade religiosa) - e, o mais importante, a teia dos prováveis reais interesses a ela associados

Todavia, visto que a nossa sociedade é a "sociedade do torpor", a tal ponto que "o óbvio é cada vez mais ofensivo" aos "elegantemente estúpidos", posso testificar, à semelhança do Mito da Caverna, que muitos dos que permanecem pensando que as "sombras na parede" são a única realidade existente, ao serem alertados por aqueles que, pela providência divina, chegaram ao conhecimento da "verdade verdadeira" [conforme dizia Francis Schaeffer] concernente a essas questões, têm desejado destruir os que lhe revelam a ignorância. Logo, é possível que alguém deseje até me matar ao ler esse post, mas, seja como for, se eu estiver do lado da verdade, vale a pena morrer por ela. Eu jamais temerei quem poderá apenas matar o meu corpo, mas não tem poder algum contra a minha alma - nem de manipulá-la, muito menos de destruí-la. 

Matthew 10 28 Photograph by Rick Bartrand

Considerando agora a música "There There", há um pequeno trecho que é muito significativo, o qual diz:


"Just 'cause you feel it, doesn't mean it is there..."
ou
"Só porque você sente isso, não significa que isso está lá..."

Em outros textos passados, acredito que já destaquei a supervalorização dos sentimentos - ou sentimentalismo - predominante em nossa sociedade e, por isso, não irei tratar novamente desse assunto. Logo, sabendo-se da realidade do Homo sentimentalis, essa pequena frase expressa o que há de mais necessário dentro do que já tem sido dito aqui: nossos sentimentos não são a "causa primária das coisas reais" ou, mais acuradamente, não é porque sentimos determinada coisa [por mais intensas e verdadeiras que tais emoções nos pareçam] que tal coisa é real ou se torna parte da realidade. De fato, nossos afetos e inclinações têm frutos na realidade [e normalmente modelam a maneira como encaramos e/ou modificamos certos aspectos de nossa vida concreta], porém a nossa confiança exacerbada no nosso "taco emotivo/intuitivo/analítico" é, muitas vezes, como "algo construído sobre a areia" e, como se sabe, "não é prudente tentar edificar uma casa sobre ela". 

Em termos práticos, olhando para o que já foi mostrado antes, creio que as últimas gerações [dos últimos 200 ou 250 anos, mas principalmente nos últimos 60 anos] possuem como característica identitária [ou definidora] o que esses versos dizem: estamos cada vez mais convencidos de que tudo o que sentimos ser verdadeiro ou razoável necessariamente precisa ser real e, independentemente de sê-lo ou não, estamos "matando e morrendo" em nome dessas "convicções" - especialmente no campo virtual, o que não deixa de ser ironicamente curioso. Ou seja, a nossa timeline/feed de cada dia constitui-se o nosso "admirável mundo novo", no qual distopias e subversões psicológicas compõem a "nova normalidade" [nome bonito para o "totalitarismo comportamental global" já em curso - eu sei que você provavelmente não acredita em tal possibilidade, contudo isso apenas acentua a plausibilidade do argumento], a qual é o novo "sonho dourado" [ou seria vermelho?] de todos os que não fazem outra coisa além da "política Pink e Cérebro": tentar dominar o mundo [i.e., controlar tudo e todos, exceto a própria maldade].

3 Ways HR Is Defining the New Normal - HR Daily Advisor

É pertinente esclarecer, dessa maneira, que o que foi chamado de "novo normal/nova normalidade" se refere a um conceito relacionado a uma espécie de mudança massificada no comportamento e atitudes da sociedade como um todo frente a sugestões que [supostamente] seriam "para a nossa segurança", "para o bem comum", "em nome da saúde da população", para promover o "estado democrático de direito" ou mesmo "com base na ciência". O século XX foi testemunha do início da aplicação abrangente de várias táticas de experimentos sociais e, sem muita dificuldade, podemos ver o poder avassalador que essas técnicas têm exercido por todo o mundo [p. ex., o universo queer e questões como a do trans-humanismo]. No nosso século XXI, essas estratégias certamente estão sendo reformuladas e melhoradas (por assim dizer) a fim de serem mais eficazes e com muitas conseqüências irreversíveis e, infelizmente, a maioria das pessoas [incluindo os "admiráveis lamentáveis inteligentinhos"] não conseguem perceber o que está diante de seus olhos, à semelhança do episódio da cura do cego de nascença relatado no Evangelho segundo João, onde Jesus Cristo, após o momento em que o homem curado O reconhece como o Messias/Cristo, diz aos fariseus que eles eram "cegos" por presumirem de si mesmos que "somente eles enxergavam" [João 9:39-41]. 

Nesse sentido, talvez não haja nada mais esclarecedor do que as duas próximas citações do escritor/pensador marxista esloveno Slavoj Žižek, retiradas do livro "Pandemia: COVID-19 e a reinvenção do comunismo", publicado esse ano:

"O coronavírus também nos estimulará a reinventar o comunismo com base na confiança do povo e na CIÊNCIA";

e

"O que quero dizer quando falo em comunismo? Para entender, basta ler as declarações públicas da Organização Mundial da Saúde (OMS)".

Dessas duas frases conclui-se que a) o comunismo está mais vivo do que nunca - embora muitos idiotas pensem que a queda da URSS simbolizou o seu fim, o que salienta o mal intrínseco à predileção para a ignorância -, b) ele sempre está em processo de mudança interna conforme for conveniente para o seu fortalecimento e sobrevivência pois, como se atribui a Hegel, "a dialética é a sistematização da contradição" e c) suas expressões mais factuais estão nas organizações internacionais todo-poderosas [que ninguém elegeu, cujos escritórios nunca serão conhecidos pela população em geral, mas que ainda assim estão ditando os rumos políticos das nações mediante a usurpação das soberanias nacionais] que só querem "o nosso bem", "a nossa saúde", "cuidar da nossa segurança sanitária" ou outro benefício bonitinho que emociona e comove as afeições dos incautos, sejam estes acadêmicos ou não, sejam inteligentinhos ou sem erudição. Em suma, este "novo normal" pode ser entendido como a cegueira estúpida e quase total para o que de fato existe juntamente com a convicção insolente de que nossas ilusões pueris e histéricas são mais reais do que a própria realidade - mas, como vimos, "não é porque sentimos que está lá" e, igualmente, "não é porque não sentimos que não está". 

China's Communists Rewrite the Rules for Foreign Businesses - The ...

Diante disso, o meu desejo é ter o que chamarei de "sabedoria dos neófitos"

Como assim "sabedoria dos neófitos"?
Não é um contrassenso relacionar os termos "neófito" e "sabedoria" numa mesma frase de um modo onde há acordo e não oposição?

De fato, quem é "neófito"νεόφυτονpalavra de origem grega formada pelos elementos "neo"/novo e "phyton"/planta, o que indica que o "neófito" é como uma "planta recém-nascida" e que, por isso, não cresceu e não amadureceu - normalmente não está numa condição ideal de sabedoria, pois esta vem com a experiência, o que remonta à frase de Tomás de Aquino, que dizia: "veritas filia temporis" ou "a verdade é filha do tempo". Logo, lançando mão de uma "sistematização de contraditórios", pretendo caminhar para o final. 

Para isso, vou usar algumas porções da canção "Neófito" da Banda Resgate, como mostrado a seguir:


"...Não há mais nada que me prenda
Ao que eu não quero mais fazer
Eles confundem ilusão com liberdade
Se dizem 'sim', se dizem livres, mas não podem dizer 'não'
Fazem de conta que a imitação é de verdade
Tanta teoria pra me embriagar
Ninguém me entende, mas vou continuar...
[...]
"...Não há loucura quando os loucos já confundem os normais
Eles comparam o dinheiro com a vida
Se compram sempre, mas se vendem
Nada sobra pra contar
Fazem de conta que a opção não escraviza
Mas eu não posso parar de falar
O que os meus olhos não cansam de enxergar..."

Plantas Novas Na Terra, Conceito Da Vida Nova Foto de Stock ...

Sem muitos rodeios, creio que o autor da canção fala do mesmo tipo de pessoa que vive como se "2 + 2 fosse igual a 5" quando se refere aos que "confundem ilusão com liberdade", pois eles "se dizem livres mas não podem dizer não" [o que denota uma falsa liberdade, já que parecem obrigados a dizer sempre 'sim' - seja a quem for] e "fazem de conta que a imitação é de verdade". Isto é, à semelhança dos habitantes de Nínive dos tempos do profeta Jonas, essas são pessoas que "não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda" [Jonas 4, vs. 11] e que, por isso mesmo, trocam o verdadeiro pelo falso e o real pelo ilusório. Entretanto, mesmo que seja essa a situação, parece-me que o engano e a tolice exercem uma persuasão quase que hipnótica na maioria delas, de tal maneira que essa insensatez deve suprimir a realidade para assumir o seu lugar como um tipo de "anti-realidade" [anti não apenas por ser contrária, mas também por ser usurpadora do que não lhe pertence], assim como no caso em que as Escrituras falam a respeito do "Homem do Pecado" ou "Iníquo" [popularmente conhecido como "o Anticristo", vide 2 Tessalonicenses 2], cujo espírito já está em ação desde os tempos dos apóstolos e que, desde então, tanto tem procurado se opor a Cristo quanto roubar Sua primazia e glória - o que fará mais notoriamente em sua manifestação futura e [como tem se configurado] cada vez mais iminente

Além disso, a música fala de "loucos que já confundem os normais" e que "fazem de conta que a opção não escraviza". Esse exemplo pode ser associado ao que foi dito daqueles que "só porque sentem algo, acreditam que tal coisa está ali", pois estes se comportam como loucos, uma vez que o universo de suas impressões, sensações e afetos se torna o único universo possível para eles, uma espécie de "universo ao lado", o qual precisa ser concretizado e reconhecido como a "verdadeira realidade", enquanto aprendemos dos antigos que o intelecto e as afeições humanas devem se adequar à realidade como ela éo que os medievais chamavam de "mens adaequatio ad rem" ou "mente adequada à coisa". Logo, sabendo-se que "cada cabeça é um mundo", o que se segue é o caos generalizado, pois cada um vai lutar pelo triunfo de seu "próprio universo paralelo" e, mesmo que muitos desses universos sejam bem parecidos entre si, nunca serão totalmente iguais - ou seja, esse "multiverso" de opções de "novos tipos de realidade", embora encarado como uma prova de "libertação" ou "emancipação", se mostra como uma evidência da escravidão dessas pessoas a uma mentalidade reducionista, conforme o silogismo de que "o homem é a medida de todas as coisas; eu sou um homem; logo, eu sou a medida de todas as coisas" - mesmo que hoje, para muito além do pensamento kantiano, nada mais deve ter definição alguma. Em suma, nos tornamos escravos de nossas próprias idéias libertadoras

Finalmente, apesar de "tanta teoria pra me embriagar", eu "não posso parar de falar do que os meus olhos não cansam de enxergar" e, mesmo que ninguém me entenda, eu vou continuar.

Você procura a luz ou encontra um motivo para viver na escuridão ...

Qual seria, então, essa "sabedoria dos neófitos"? Quem seriam os "neófitos sábios"?

Não há melhor registro escrito sobre essa sabedoria do que o Salmo 131, como segue:


"Senhor, o meu coração não é orgulhoso
E os meus olhos não são arrogantes.
Não me envolvo com coisas grandiosas
Nem maravilhosas demais para mim.

De fato, acalmei e tranquilizei a minha alma
Sou como uma criança recém-amamentada por sua mãe;
assim é a minha alma para comigo.

Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre".

Diante de um mundo tal como descrevi nesse texto até aqui - um mundo de caos, desordem, loucura, estultícia, vulgaridade, estupidez, perversidade, auto-engano, burrice prepotente e ódio à verdade e ao conhecimento [o que se resume na inimizade e na rejeição a Deus e à Sua Palavra] -, a única alternativa que me resta é desejar ser como esse salmista: um homem de coração humilde e sem olhos altivos [i.e., consciente de sua própria miserabilidade e que, por isso, não olha para a realidade como se o próprio olhar determinasse o que está fora de si mas, ao contrário, reconhece que tudo começa a partir do que já lhe foi dado] e que também "não se envolve com coisas grandiosas" [ou seja, não fala do que não compreende, não faz textão sobre o que nunca estudou ou não conhece apropriadamente, não considera inverossímil aquilo que lhe parece "psicopatia conspiratória" e não compartilha memes como se fossem "reflexões sérias sobre qualquer coisa"], mas simplesmente se aquieta como faz o bebê logo após terminar de mamar ao dormir tranquilamente nos braços de sua mãe. Isso me basta. 

Em verdade, desejar isso é algo difícil para um colérico que não aguenta mais ver tantos imbecis cheios de empáfia falando asneiras "em nome da ciência" ou de sua "lacração política", porém, como o mesmo salmista afirma, minha esperança está "no Senhor, desde agora e para sempre", tanto para vencer e subjugar a ira e a raiva pecaminosas quanto para qualquer outro pecado até que, enfim, "o que é corruptível se revista de incorruptibilidade e o que é mortal se revista de imortalidade".

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Essa tal "sabedoria dos neófitos" é, portanto, uma sabedoria mansa e humilde, sendo consciente de que diante Daquele em quem reside toda verdadeira sabedoria não há ninguém que não seja aluno (i.e., desprovido de luz), aprendiz e discípulo, cuja glória está em "ser como o seu Mestre". Sem qualquer dúvida, Aquele de quem toda sabedoria emana é o mesmo de quem se diz que "todos os tesouros da sabedoria e da ciência estão Nele escondidos", o qual tem um nome e se chama Jesus Cristo, o Filho de Deus, eternamente gerado do Pai e manifesto na plenitude dos tempos ao nascer de mulher para ser fazer carne, habitar entre nós e, pela Sua vida sem pecado, Sua morte na cruz, Sua ressurreição vitoriosa ao terceiro dia e Sua ascensão aos céus, resgatar o Seu povo escolhido de seus pecados e, na consumação dos séculos, restaurar todas as coisas para estabelecer a Nova Criação. Ele é o "manso e humilde de coração" de quem todos devemos aprender a fim de que nossa sabedoria seja de fato verdadeira e digna de ser apreciada, pois fora Dele toda inteligência é burrice e toda sabedoria é insensatez, de maneira que qualquer "aparência de sabedoria" perecerá com o uso, pois não passará de ensino e cogitação humana. 

Por tudo isso, uma vez que Cristo está "à direita de Deus Pai todo-poderoso" - como lemos no Credo Apostólico -, como poderemos receber essa sabedoria divina? 

Nesse caso, as palavras de Cristo registradas por João são o nosso real consolo, pois Ele disse que "não nos deixaria órfãos" e que nos "enviaria outro Consolador, para ficar conosco para sempre" [João 14, vs. 16 e 18]. Esse "outro Consolador" é um "outro da mesma natureza que Cristo" [conforme o termo grego "αλλός" ou "allós" usado no texto, significando "outro do mesmo tipo"] e, por isso, é um "Consolador divino", o Espírito Santo, prometido por Cristo e enviado por Ele ao Seu povo num domingo como este, o Dia de Pentecostes, o qual na época dos israelitas do Antigo Testamento era parte do período de celebração das colheitas da terra mas, desde o episódio do Cenáculo relatado em Atos dos Apóstolos, se tornou o marco de início da Igreja Cristã, quando o apóstolo Pedro pregou ousadamente sobre Jesus Cristo e milhares de pessoas foram "colhidas" por Deus para o Seu reino. De fato, é esse mesmo Espírito que nos regenera e nos faz crer em Cristo como Salvador e Senhor ao nos convencer do pecado, é Ele que também "nos guia em toda a verdade ao nos lembrar tudo o que o Senhor nos disse" e, assim, somente por meio Dele é que poderemos ser "neófitos sábios", cientes de nossa inteligência humilhada de tal sorte que não buscaremos qualquer sabedoria fora Daquele que é chamado de "Sabedoria de Deus", a Qual não foi conhecida dos poderosos deste século, mas que foi constituída como "nossa sabedoria" de acordo com a vontade de Deus, a fim de que "quem se gloriar, glorie-se no Senhor" [1 Coríntios 1, vs. 31]. 

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Nesse Dia de Pentecostes, quando relembramos a vinda do Espírito Santo para habitar para sempre com os que pertencem a Cristo, eu oro junto com os cristãos do passado e digo "Veni, Creator Spiritus!" ou "Vem, ó Espírito, Divino Criador, entre nós morar", pois, assim como diz uma das canções aqui citadas, "...Heaven sent You to me..." ou "...o Céu Te enviou para mim...". Que Companhia doce e gloriosa! Habita, então, conosco, pois dessa maneira nós receberemos de Tua eterna e infalível sabedoria, pela qual saberemos como e por onde caminhar e, mesmo que "não tenhamos luz alguma", confiaremos somente em Ti para que, por Ti transformados à imagem do Filho, possamos habitar Contigo e louvar-Te para sempre




Pela alegria e certeza de ser habitação do Eterno,




Soli Deo Gloria!