sábado, 25 de outubro de 2014

É sempre mais do mesmo?

Mais uma vez, estou por aqui. 

E, novamente, estamos às vésperas de um dia em que novos representantes serão eleitos em alguns estados brasileiros - sem contar, obviamente, o próximo presidente da república.

Enfim, nesse contexto pós-campanha eleitoral, gostaria de expressar minhas ideias a esse respeito, tendo como fundamento a minha liberdade de consciência dentro da esfera dos princípios de vida e conduta que procuro seguir. Logicamente, não agradarei a todos - e não faço a menor questão disso - mas, sinceramente, espero contribuir para a reflexão dos leitores de forma positiva.  


Primeiramente, o título desse post remonta a uma canção da Legião Urbana (mais uma vez eles sendo atuais e pertinentes) chamada "Mais do mesmo", a qual fala de drogas, chacinas de adolescentes, tiroteios no fim do túnel, doentes nas enfermarias e índios mortos - nada que seja estranho à nossa realidade brasileira. Diante desse quadro socialmente nefasto e desafiador para qualquer governante ou representante político (assim como para a própria sociedade em si) e levando em conta o que vimos nessa campanha eleitoral, algumas coisas precisam ser ditas, e com certa urgência. Vamos em frente.

De um lado, temos o grupo liderado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), encabeçado pelo ex-presidente Lula e pela candidata à reeleição Dilma Rousseff. A história do PT, nos seus primeiros anos, inspirou muitos brasileiros (particularmente jovens, estudantes, marginalizados e também intelectuais) a sonharem e/ou lutarem com/por uma sociedade menos desigual, onde a miséria fosse combatida de perto e os ignorados fossem notados, em que a corrupção e a repressão fossem erradicadas e houvesse o fim da "luta de classes" criticada pelo marxismo - enfim, uma sociedade onde "tudo" fosse de "todos" e o Estado fosse o guardião dessa condição social. Porém, após a chegada do PT ao governo do país, em 2003, não vimos somente avanços sociais importantes (seja no combate à pobreza, em favor da inclusão social, da educação, da ciência e tecnologia, da cultura etc. - ora, vamos parar de hipocrisia e reconhecer as coisas boas que estão acontecendo no país na gestão do PT), mas muitos daqueles que se diziam invulneráveis à perversão pelo poder foram tão corruptos quanto aqueles que já estavam no poder antes - ou, quem sabe, mais corruptos. No entanto, muitos de nós fomos tão magnetizados pelo "totalitarismo assistencialista e idealista" - típico dos segmentos de esquerda, como se viu nos exemplos da União Soviética, dos demais países da "Cortina de Ferro" e mesmo no contexto do nazi-fascismo da Alemanha e da Itália (ironicamente, o nazi-fascismo nunca foi de direita) - dessa ala política a ponto de que, por exemplo, qualquer crítica ao Lula ou ao PT seja equiparada a "blasfêmia" ou a "infâmia". Somos quase que adeptos de uma "religião PTista" na qual a figura do Lula e (por consequência) também da Dilma são praticamente "messiânicas", a ponto de dizermos: "...ai daquele que tocar no PT...", "...nunca vai haver presidente como o Lula...", "...só o PT olhou pra nossa região, que era esquecida pelos tucanos..." e "...não troque o certo pelo duvidoso, quero Dilma de novo..." - isto é, inconscientemente, agimos como se o PT fosse o "redentor social" do Brasil e, se o poder mudar de lado, estamos fadados à destruição. 

Não, não há nenhum atributo messiânico em qualquer movimento esquerdista, não existe um "Estado-Deus" que fará de tudo um "Novo Éden", não existem outros "Messias" além daquele que já veio à Terra, viveu uma vida santa e movida por compaixão pelos pecadores, que morreu e ressuscitou para resgatar aquele que crê Nele e cujo Reino não é desse mundo. Ninguém deve ousar substituí-Lo ou usurpar a posição que é somente Dele, Jesus de Nazaré, o Cristo, o Messias. 


Por outro lado e, ao mesmo tempo, no mesmo contexto de "polarização messiânica", temos o grupo do PSDB, cujo representante mais proeminente é o candidato Aécio Neves. Aécio e os que estão apoiando sua candidatura tomaram posse/lançaram mão da ideia forte e cativante de "...não vamos desistir do Brasil..." ou "...a mudança já começou..." e, do mesmo modo que o grupo do PT, arrogam para si mesmos o rótulo de "alternativa messiânica" para o Brasil. Uma oratória aparentemente convincente mas muitas vezes desrespeitosa e insolente, a conversa agradável e repleta de lisonjas para o povo que está cansado de tudo - e que, por isso, está vulnerável a acreditar em qualquer coisa que aparente ser "o novo, o diferente ou a mudança" - e a postura imponente que lembra o Fernando Collor do final dos anos 80 ou mesmo o Getúlio Vargas do período populista da década de 1950. Em nome da propaganda de que todos os problemas do Brasil são "culpa do PT" e de que eles/o PSDB são/é o "remédio" ou a "vacina" eficaz contra tudo isso, eles se mostram como uma espécie de "antagonismo restaurador de todas as coisas" - ora, todos os outros são "levianos" e agem como ignorantes, visto que "quem estuda não vota na Dilma" (ops, tem ou não tem vírgula aqui?). No entanto, esse grupo da "mudança" é o mesmo que já passou vários anos no poder no Brasil e "deu no que deu" (e só quem viveu os anos 1990 sabe do que estou falando) e que, por exemplo, estabeleceu uma "ditadura democrática" no estado de São Paulo (já são 20 anos de PSDB no poder por lá), estado que hoje sofre - como nunca antes - com a falta de água e a incompetência do poder público estadual de sanar essa demanda por um bem natural essencial à vida, sem contar (é claro) os diversos escândalos de corrupção [tanto os descobertos quanto os engavetados], de obras superfaturadas, dentre outros. Aqui também não tem qualquer traço messiânico, pois, como já foi dito acima, Deus, o Pai, já escolheu e designou o Redentor e Restaurador de todas as coisas - o Seu Filho amado, em Quem a Sua alma se alegra

Resumindo, o sujo falou do mal lavado desde o começo desta campanha - já dizia a Luciana Genro rs - e, sarcasticamente, o povo que foi às ruas em junho do ano passado mostra, sem qualquer sombra de dúvida, que não quer mudança nenhuma, uma vez que os mesmos que eles diziam que deveriam sair do poder foram colocados pelo próprio povo na condição de continuar lá. Resta-me apenas, juntamente com Renato Russo, "celebrar nosso governo, celebrar nosso estado que não é nação e celebrar o voto dos analfabetos".


Em contrapartida, tenho total consciência de que nem todos os que se posicionam a favor de um dos candidatos mencionados são alienados politicamente, socialmente ou são cidadãos que desperdiçam sua cidadania - acredito na capacidade da população brasileira de, em linhas gerais, ponderar de modo responsável sobre política e sobre o voto consciente e, dessa maneira, muitos brasileiros de livre consciência e intencionando o melhor para seu país, votarão na Dilma ou no Aécio amanhã - assim como nos respectivos governadores de seus estados. Todavia, muitos que se julgam "intelectuais" - e que, muitas vezes, não passam de "haters ideológicos" e "filósofos baratos de facebook" - farão sua opção política pura e simplesmente porque determinado candidato defenderá os "meus direitos" (ou seriam caprichos minoritários?) e lutará para resguardar os "fracos e oprimidos" dessa sociedade judaico-cristã-ocidental repressora, intolerante, machista, preconceituosa, fundamentalista e "fulanofóbica"

Nesse sentido, para tristeza de todos esses supostos "progressistas libertários" que tentam excluir a ideia de Deus da vida a todo e qualquer preço, se existe uma base para tudo o que experimentamos na esfera de direitos humanos inalienáveis, respeito, liberdade de consciência e estado ou sociedade laica como conhecemos atualmente, é o cristianismo ou, mais amplamente, a noção de um Deus ou de divindades como padrão/padrões de justiça ou de virtude - sem medo de ser feliz, basta sabermos um pouquinho de história para comprovarmos que coisas como os primeiros códigos de leis, bem como a noção do direito e, mais recentemente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, têm sua origem (guardadas as devidas proporções, por assim dizer) em sociedades monoteístas ou mesmo politeístas (como a greco-romana). Portanto, se você fala tanto em "Direitos Humanos", agradeça aos cristãos (opressores, violentos, intolerantes e preconceituosos) dos primeiros anos dos Estados Unidos da América pela existência desses direitos. Se você se julga parte de uma minoria oprimida e, mesmo assim, estuda numa universidade (ora, isso já faz de você um privilegiado), agradeça aos árabes e também aos cristãos (sejam católicos ou protestantes, os quais são todos igualmente alienados das coisas do intelecto, ignorantes acerca da ciência e avessos à educação de qualidade) pela existência delas. Enfim, está na hora de parar de se fazer de vítima e encarar a vida como ela é. 


Finalmente, o que posso concluir a respeito do momento atual do Brasil é que, no fim das contas, é "sempre mais do mesmo", pois "é isso que todos nós queremos ouvir". Lembrando o que disse o Rei Salomão em seu livro:

Gerações vem e gerações vão, mas a terra para sempre permanece.
O sol se levanta e o sol se põe, e depressa volta ao lugar de onde nasceu.
O vento sopra para o sul e vira para o norte; dá voltas e voltas, seguindo sempre o seu curso. 
Todos os rios correm para o mar, contudo o mar nunca se enche; ainda que sempre corram para lá, para lá tornam a correr.
Todas as coisas trazem canseira. O homem não é capaz de descrevê-las; os olhos nunca se fartam de ver, e nem os ouvidos de ouvir.
O que foi, isso é o que há de ser; e o que foi feito, se fará novamente, de modo que não há nada de novo debaixo do sol. [Eclesiastes 1:4-9]


Todas as coisas trazem canseira e, embora não saibamos descrevê-las, sempre queremos "mais do mesmo", pois nunca nos satisfazemos. E, como vimos nesse período de eleição, nos tornamos insaciáveis de "críticas aos que pensavam diferente de nós", não nos cansamos de "demonizar as outras opções políticas diferentes da nossa" (o que dizer das hashtags #AécioNever ou #ForaCorruPTos ?) nem de ver os escândalos envolvendo aqueles que queremos fora do poder [fazendo disso o nosso triunfo ideológico] ou de ouvir com atenção quase subserviente a nossos "profetas salvadores da pátria" nos debates e vídeos da internet. Como diz a própria Bíblia no texto acima, na nossa esfera humana da vida, tudo vai continuar na mesma - o que foi feito, se fará de novo e o que foi no passado, também será agora no presente e o será no futuro. Não há nada de novo  debaixo do sol - de modo pleno e absoluto, não tem nada essa história de "governo novo, ideias novas" ou mesmo de que "eu não sou o candidato de um partido, mas sou o candidato da mudança", porque não haverá mudança! A mudança que estes dois pólos políticos dizem ser capazes de fazer (assim como os seus súditos companheiros e parceiros o acreditam) não pode ser feita [e não será vista] enquanto o Reino de Deus não for estabelecido plenamente à nossa vista - eu, particularmente, não acredito que as coisas aqui na Terra conspirarão para melhor em todos os aspectos (pelo contrário, acho que podem e irão piorar mais, pelo menos por enquanto), mas como alguém que crê e que recebeu um Reino que não pode ser abalado e que um dia virá para destituir todos os outros supostos "reinos", devo viver de modo a sinalizar a presença desse Reino aqui e agora, pois está escrito:

Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: o Reino de Deus não vem de modo visível;
Nem se dirá: "aqui está ele" ou "lá está"; porque o Reino de Deus está no meio de vocês. [Evangelho segundo Lucas, cap. 17, vs. 20-21]

Mas foi assim que Deus cumpriu o que tinha predito por todos os profetas, dizendo que o Seu Cristo haveria de sofrer.
Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados, para que venham os tempos de descanso da parte do Senhor... Pois é necessário que Ele permaneça no céu até que chegue o tempo em que Deus restaurará todas as coisas [...] [Atos dos apóstolos, cap. 3, vs. 18-21]


O Reino de Deus está entre nós. Essa conversa de um Deus deísta - que criou o universo e que não está mais nem aí pra Sua própria criação - disfarçada de teologia intelectual e contrária à "ameaça do possível comunismo cristão" não cola, pois Deus é um Deus presente, que se revela, que age, que trabalha sustentando a Sua criação original (manchada e danificada pelo pecado) assim como já tem trabalhado para a redenção dessa criação - está escrito que Ele restaurará todas as coisas e que o Seu eterno propósito foi fazer convergir na pessoa de Cristo todas as coisas [sejam as terrenas, sejam as celestiais], porém Ele fará isso por meio da Boa Nova, da Sua mensagem, do Evangelho de Cristo, que é o Evangelho do Reino. Nada pode restaurar a nossa condição caída e deplorável senão a graça de Deus, e não existe graça plenamente poderosa e redentora fora do Evangelho, fora da simples pregação do Deus que amou o mundo e que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha vida eterna

Ou seja, não é o PT e muito menos o PSDB que pode mudar ou melhorar qualquer coisa por aqui; a verdade é o que diz João Alexandre em sua música "Em nome da justiça" - só com muito amor a gente muda esse país, só o amor de Deus p'ra nossa gente ser feliz"





Pela esperança de que o Reino Dele virá,





Soli Deo Gloria! 

sábado, 4 de outubro de 2014

O Brasil é o país do futuro?

04 de outubro de 2014. 

Estamos muito próximos do que muitos denominam de "espetáculo da democracia" ou de "ápice do exercício da cidadania". Sim, amanhã é dia de eleição em todo o Brasil

Mais detalhadamente, nesse 05 de outubro serão eleitos os deputados estaduais/distritais, deputados federais, senadores e (caso não haja segundo turno), elegeremos também os governadores e o presidente da república. Nos últimos meses, esse tem sido o tema das discussões entre as famílias, nos pontos de ônibus e estações de metrô, nas escolas e universidades, assim como dos telejornais, da comunicação impressa (revistas, jornais etc.) e, especialmente, da internet - seja com as "zueiras" dos memes, seja com os compartilhamentos e "tweets" relativos aos candidatos e, obviamente, com as discussões acaloradas e, quase sempre, desprovidas de bom senso e educação. 

Em contrapartida, espero ser sensato neste post - ora, de incoerência e pseudotolerância
o mundo já está supersaturado. 


Sem perder tempo, o título deste texto, particularmente, está relacionado com uma canção da Legião Urbana chamada "1965 (Duas Tribos)", que diz no final de sua letra:

"O Brasil é o país do futuro...
Em toda e qualquer situação, eu quero tudo pra cima!" [1965 (Duas Tribos)]

Porém, como você deve ter notado, a música afirma que o Brasil é o país do futuro. Por outro lado, eu estou perguntando: "o Brasil é o país do futuro?" Se o Brasil é "o país do futuro", que futuro é esse? Além disso, partindo-se do pressuposto de que o futuro (sob o ponto de vista humano) está diretamente relacionado com o presente (e também com o passado), como é o "Brasil, país do presente"? Acredito que uma visão correta a respeito de nossa realidade nos confere melhores condições e subsídios para nossa posição política e, como resultado, dá mais base para nossos votos de amanhã

Brasil, país do presente. 


Resumidamente, o "Brasil do presente" é um país de contradições. 

Dentre tantas contradições, gostaria de relembrar o celebrado "junho de 2013" - o qual inspirou até filme - , mês marcado pelas manifestações de rua que marcaram a população brasileira. Eu, inclusive, como cidadão politicamente consciente, fui pras ruas, fiz cartazes, gritei quase todos os gritos de guerra e senti spray de pimenta nos olhos. Entretanto, embora o canto de "O Gigante acordou!" tenha ecoado por todo o solo nacional (principalmente nas capitais do Nordeste, Sudeste e Sul), a minha sincera expectativa e esperança é que esse "despertar" não acabe em um "berço esplêndido", onde novamente nos "deitaremos eternamente ao som do mar e à luz do céu profundo" - com todo o respeito ao nosso belo hino nacional. Ou seja, se verdadeiramente o "Gigante" está acordado, políticos desonestos e ladrões não devem ser eleitos amanhã - porém, infelizmente, isso não irá acontecer. Muitos de nós que "acordaram" em junho do ano passado, provavelmente, colocarão maus políticos no poder e, assim, mostrarão que continuam dormindo


Incoerência, pseudotolerância e hipocrisia. 

Os leitores de meus textos (especialmente os de 2014) têm notado que estas três palavras acima são recorrentes em meus argumentos e, pra variar, elas também compõem a tríade que sintetiza a alma da sociedade brasileira vigente - ora, os que mais prometem servir o povo só vão até o povo em campanha eleitoral, os que exigem respeito e tolerância para com o "diferente" são bem intolerantes com os "diferentes" que não são iguais a eles e os que criticam tudo e todos (especialmente os políticos corruptos) são os mesmos que "furam a fila" do banco, que "guardam lugar" em eventos pagos onde todos os participantes têm direitos iguais e que reclamam da má infraestrutura urbana ao mesmo tempo que jogam lixo na praia ou em áreas verdes. Usando um exemplo que presenciei essa semana, as mesmas pessoas (no caso, mulheres) que gritam num trote universitário para que o calouro dê uma "encoxada" na outra caloura [ora, no outro é bem divertido e não é atentado ou assédio] são as mesmas que criminalizam essa atitude nos transportes coletivos - sim, os mesmos que bradam que o corpo deles é um "território livre de opressão" acabam fazendo músicas e "brincadeiras" de apologia à violência sexual. É triste, mas é verdade. Os "intelectualmente superiores" se mostram tolos e estúpidos, mais estúpidos até mesmo que aqueles menos instruídos.

Em suma, quando eu não sofro na pele, tudo é relativo - dessa forma, se tudo é relativo, eu poderia usar desse relativismo todo e achar normal qualquer atitude de discriminação social, étnica e religiosa de minha parte - e, se você for relativista, você deveria ficar de boca calada e desistir da ideia de "rodar a baiana" para impedir o meu "suposto direito" de discriminar o que quer que fosse. É isso mesmo - em uma sociedade em que o conceito de padrão e de absoluto é considerado obsoleto, não faz sentido a existência de direitos invioláveis ou de justiça. No entanto, os "relativistas" de nossa "geração chilique" consideram seus caprichos como padrões absolutos e inquestionáveis. Diante disso, minha conclusão é: coerência, a gente vê por aqui. 


A última contradição do nosso "Brasil do presente" sobre a qual queria falar tem a ver com a nossa conjuntura religiosa atual - como se vê, as pessoas em nosso país estão ao mesmo tempo cada vez mais religiosas porém descrentes, cada vez mais espiritualizadas concomitantemente à expansão de movimentos antirreligiosos ou antiteístas. Em particular, comenta-se que o número dos "cristãos chamados evangélicos" está numa ascensão, de modo que algumas previsões futuras parecem apontar que o Brasil se tornará, em algumas décadas, uma nação predominantemente "evangélica" ao invés de "católica". Isto posto, levanto a seguinte questão: se a quantidade daqueles que se declaram seguidores do Cristo (o Filho de Deus, que morreu e ressuscitou para salvar pecadores arrependidos e também para estabelecer plenamente o reino de Deus no futuro porvir) aumenta gradativamente no Brasil, por que a violência se espalha como um vírus, a imoralidade, a depravação comportamental e a corrupção cresce exponencialmente, a injustiça social ainda permanece latente e, finalmente, a população se torna mais zombadora de um Deus que deveria ser temido com tremor? Por que o "avivamento" tão falado no início dos anos 2000 e ainda cantado nos CDs do "mercado gospel", profetizado nos "congressos de adoração e intercessão gospel" e registrado na "literatura de autoajuda gospel" não produz vida nenhuma entre os que são parte da "geração extravagante, profética, apostólica e radical" e, muito menos, entre os que continuam mortos por estarem distantes do Autor da Vida?

Muitas vezes, as estatísticas nos enganam. 


Assim como pesquisas eleitorais nem sempre definem o resultado efetivo da eleição, o fato de que muitos no Brasil se declarem "evangélicos" não indica que todos eles são discípulos de Jesus - ora, discípulos de Jesus não carregam dólares não-declarados dentro de bíblias em aeroportos internacionais (e nem mesmo nas meias ou outros tipos de peças de roupa), não se vendem ao mercado fonográfico para fazerem carreira no "mundo gospel" com o rótulo de "ministro e levita do Senhor" depois do fracasso no meio dito "secular" nem usam um título eclesiástico (como pastor, bispo ou missionário - os quais, na Bíblia, são vocações essencialmente divinas para o serviço a Deus e ao próximo) para angariar eleitores inocentes e incautos que votam conforme o "cajado da autoridade espiritual" ao se apresentarem como os "defensores da igreja". Não é nada disso. 

Contra todo esse mau exemplo, os verdadeiros discípulos do Mestre Nazareno compartilham o que têm com os necessitados (a ponto de dar até a própria vida por eles), fazem arte como pessoas conscientes de que todo o talento que têm foi recebido do próprio Deus e, por isso, naturalmente, usam esse talento para Ele e, finalmente, discípulos de Cristo exercem sua cidadania de maneira consciente e livre, sem manipularem outros em nome de uma "causa evangélica" (uma vez que quem se propõe a ser político representa o povo como um todo, e não um segmento social específico, seja ele qual for) como se a Igreja - a comunidade dos que creem em Cristo - precisasse de algum defensor ou guarda-costas. A Igreja já tem o seu Defensor - na Bíblia está escrito que Jesus Cristo é o Advogado dos que confiam nEle bem como que Ele vive sempre para interceder por aqueles que Ele mesmo salvou. Além disso, Jesus afirma que o Seu reino não é desse mundo - isto é, não é necessário ter a maioria de deputados ou senadores como parte de uma "bancada evangélica" para que a comunidade cristã esteja sã e salva [embora seja lícito e benéfico que cristãos íntegros estejam atuando na política] e para que o reino de Deus seja expandido. Deus não precisa dos poderes executivo e legislativo para fazer nada - se Ele quiser fazer algo por meio de políticos, Ele fará, como no processo do fim da escravidão no Reino Unido no fim do século XVIII, em que o político cristão William Wilberforce foi o líder da luta pelo fim da exploração e do comércio de escravos na Inglaterra. Todas as coisas são de Deus, por Ele e para Ele - logo, podemos (e devemos) usar nossa cidadania e postura política conforme os valores que Ele mesmo já nos deu: justiça, liberdade, respeito, equidade, paz, compaixão, amor. 


Mas a pergunta continua... O Brasil é o país do futuro?

Tendo em vista essas poucas considerações feitas sobre o "Brasil do presente", o importante não é dizer se o Brasil é ou não o "país do futuro", mas qual futuro estamos dispostos a buscar para o Brasil, como brasileiros que somos

É fato que todos queremos justiça, o fim da corrupção e o respeito mútuo.

Todavia, quando muitos de nós propomos um governo ou um país quase anárquico, onde não existe "verdade absoluta" e nem "padrões de certo e errado" (isso é muito ofensivo, melhor parar) que nos perturbem ou contrariem, não pode haver justiça, nem respeito e até mesmo o fim da corrupção ou qualquer mal parecido. Se pensarmos só um pouquinho, se não existe verdade absoluta, não faz sentido se falar em corrupção, nem em direitos e nem em justiça - em outras palavras, onde não existe Deus, tudo é permitido, já dizia Dostoieviski. Entretanto, para nossa tristeza (assim como para nossa alegria, ao mesmo tempo), Ele existe - melhor ainda, Ele é. Ele é o padrão de retidão e de verdade e, como nosso Criador, Ele imprimiu em nós esse senso de justiça. Certo dia, contudo, fomos rebeldes contra Ele e, assim gradativamente, o caos que vemos hoje em nosso meio foi se construindo, um caos não somente social, mas especialmente moral e espiritual - nos afastamos de Deus, fizemos cada um o próprio trono e a maldade se alastrou. Como ter um futuro nessas condições?

A esperança nasce no desapontamento.



Deus veio ao mundo e, na pessoa de um carpinteiro, disse: o reino de Deus é chegado; arrependam-se e creiam na Boa Nova.

Ele veio dar a melhor notícia que poderíamos ouvir - O Criador estava reconciliando o mundo consigo mesmo por meio de Seu Filho, que viria para viver uma vida justa e sem pecado e ser crucificado para pagar o preço dos pecados dos homens, salvando todos os que se arrependerem e crerem Nele. Esse Deus que veio ao mundo não só morreu, mas também ressuscitou e, antes de retornar ao Seu Lar original, disse que "não nos compete saber os tempos e estações que o Pai estabeleceu pelo Seu próprio poder" quando alguns discípulos lhe perguntaram sobre quando tudo seria restaurado

Assim, não sabemos quando tudo isso de errado a nossa volta vai acabar mas, se um Deus verdadeiro assim prometeu, certamente esse dia chegará. E, quando esse dia chegar, não serão apenas brasileiros que serão alvo dessa restauração - africanos, norte-americanos, argentinos, italianos e muitos outros europeus, asiáticos, árabes e israelenses e todos de todo lugar que olharam um dia para a Cruz e renderam-se a Quem os amou primeiro. Nesse futuro, não só o "Brasil" será um país diferente [dentro de certa licença poética], mas o mundo também o será. Um novo céu e uma nova terra; todas as coisas serão novas. 

Enquanto esse dia não vem, que Ele nos ajude a fazer melhor o nosso presente, para que o nosso Brasil seja um país de futuro, um futuro de paz e justiça. Ora, "a justiça engradece as nações, mas o pecado é a vergonha dos povos". Em toda e qualquer situação, eu quero tudo pra cima - logo, um bom voto pra todos nós!







Pela alegria de ter um futuro seguro Nele,






Soli Deo Gloria!

domingo, 28 de setembro de 2014

O post que não é sobre mim...

Estou de volta aqui, mas a demora foi necessária. 

Nos últimos dias estou experimentando diversos e violentos turbilhões na mente, e esse texto de hoje, na verdade, pretende ser uma síntese fiel e descompromissada com aprovação - seja de qualquer leitor e até mesmo de mim. Eu até gostaria que esse post fosse escrito por outra pessoa mas, de fato, quem tem que continuar dando a cara a bater sou eu. 


Esse post é um manifesto público e audacioso contra a "cultura selfie" tão em voga em nossos dias, cultura essa que simplesmente evidencia em "alto e bom som" (ou seria mau?) que somos viciados em nós mesmos - viciados em nos exibir, em buscar satisfazer nossa cobiça insaciável a qualquer custo, em nossa reputação e autoimagem, em nossa suposta "superioridade" (seja intelectual, seja moral, seja comportamental, seja econômico-social e também espiritual) e, finalmente, em arrogarmos para nós mesmos glória, direitos e méritos. E, embora sejamos tão solícitos em apontar o egoísmo alheio, dessa vez a intenção desse texto é atingir a todos - seja eu, seja você. Se a carapuça servir, o problema é meu, é seu, é nosso. 

Não é sobre mim. Não é sobre você. Mas, ao mesmo tempo, é sobre cada um de nós.

Como assim?


Primeiramente, não é sobre minhas opiniões ou sobre minhas "verdades".

Cada um de nós tem concepções, opiniões e perspectivas a respeito da vida e de tudo o que a ela se refere. Nesse contexto, a "cultura selfie" mencionada acima se mostra no fato de que, mais do que em qualquer outra época (provavelmente), nossas opiniões e "verdades" se baseiam tão-somente em conveniência e satisfação pessoal. Isto é, se algo nos faz "sentir bem" por atender a nossos caprichos e desejos e/ou se todos fazem (logo, é "certo", embora "certo e errado" sejam relativos não é?) e, por isso, qualquer postura contrária é "preconceito" e "intolerância", é isso que passamos a defender e praticar. Não se pode criticar nada, opinar sobre nada ou nem mesmo "pensar" diferente, porque a "geração mimimi" na qual estamos inseridos dará seus "chiliques" e irá se "manifestar" em suas vadiagens e sete cores vivas, ou mostrará todo o seu "amor fraternal" defendendo seus "gurus espirituais" com ataques ridículos a quem procura falar a verdade, doa em quem doer - ora, ninguém pode tocar nos "ungidos do Senhor", ninguém pode falar assim do Dr. Fulaninho, PhD. em sociologia e "professor quase-deus" da faculdade Y, nem mesmo falar sobre quaisquer princípios de vida e fé que "incomodem". Ah, se qualquer um de nós ainda é assim, todo cheio de "não me toque" ou de "frescurinhas", já está na hora de virar homem (ops, isso é machismo!) - melhor, virar gente madura e encarar que o universo não tem como centro o nosso umbigo. Mais do que isso, precisamos encarar a verdade de que há apenas uma única Verdade - a verdade que é uma Pessoa, que disse de Si mesma "eu sou A Verdade, eu sou O Caminho, eu sou A Vida". Se a nossa "verdade" não se chama Jesus Cristo, estamos nos enganando. Não tem jeito


Não é sobre nossa realização pessoal.

Por outro lado, outro aspecto identificador dessa "cultura selfie" é a busca ansiosa, desenfreada e doentia pela "realização pessoal" - nesse sentido, me recordo das palavras do sábio rei Salomão que disse que "todo o trabalho do homem é para sua boca, e contudo a sua cobiça nunca se satisfaz". Quanto mais corremos atrás de "coisas" na expectativa de que, quando conquistarmos essas "coisas", seremos "felizes e plenos", mais percebemos que nada disso adianta - pois, logo depois que alcançamos o que estávamos procurando, continuamos descontentes. Ou seja, ao corrermos à procura da felicidade nas "coisas" (dinheiro, sexo, poder, prestígio, conhecimento, títulos etc.), estamos, verdadeiramente, correndo atrás do vento. Como dizia o mesmo Salomão, tudo é vaidade - tudo. Ora, esse mesmo Salomão conquistou e desfrutou de tudo o que seus olhos desejaram mas, no fim de sua vida, ele afirmou que tudo tinha sido inútil. Obviamente, é bom desfrutar das coisas boas da vida, porém tudo acaba, perece, se consome, se desgasta, se desfaz. Não é possível levar nenhum desses "deleites temporais" para nossa sepultura, pois "tudo o que não é eterno é eternamente inútil".  

Entretanto, não basta apenas saber que as coisas passageiras são inúteis no fim das contas - é necessário reconhecer que nosso empenho diário para adquirir essa "realização pessoal" é, quase sempre, egoísta. Queremos mais e mais dinheiro na conta, mais viagens, mais roupas de grife, carros importados, imóveis em bairros de luxo, parceiros ou parceiras, mais poder e mais honra, mais renome ou fama e mesmo mais seguidores nas redes sociais. Tudo isso é egoísmo. Tudo isso é egolatria. E, para ser sincero, eu vejo isso tanto naqueles que vivem suas vidas para si mesmos quanto naqueles que dizem que vivem para Deus [particularmente dentre os "cristãos"] - por exemplo, eu mesmo. São os "admiráveis lamentáveis religiosos", amantes de si mesmos e amantes da glória que eles deveriam (e devem) dar apenas ao Deus que dizem servir. Se nos julgamos discípulos do Mestre Carpinteiro (o Deus-Homem), está na hora de andarmos como Ele andou, amando o próximo e dando a vida por eles. Sim, dói saber que a carapuça serve. 


Não é sobre nosso ativismo religioso ou sobre nosso "ministério".

De fato, é muito mais fácil perceber defeitos ou falhas em atitudes do lado de fora dos "arraiais religiosos" - especialmente para quem é religioso. No entanto, quando penso na frase "isso não é sobre mim" e, ao mesmo tempo, em minha realidade como religioso (cristão), vejo que o nosso "ativismo" ou o nosso "desempenho" é a pior das armadilhas - ora, quanto mais "fazemos coisas para Deus" (seja estudar em um seminário e, ao mesmo tempo, fazer teatro, instrumento, canto, ministério infantil, participar de projetos missionários ou se envolver em grupos cristãos na universidade), mais estamos sutilmente suscetíveis a um orgulho sorrateiro e pernicioso. Logicamente, quem olha para a vida de alguém que faz todas essas coisas (particularmente ao mesmo tempo) de imediato pensa e diz: "que pessoa consagrada, que bênção!". E, se nós somos os alvos desses "elogios", nosso ego se infla violentamente, mas mesmo assim não percebemos - estamos muito ocupados "servindo ao Senhor" ou "cumprindo nosso chamado" para cuidarmos do nosso orgulho disfarçado. Contra tudo isso, cito um trecho de uma música que ouvi esses dias enquanto participava de uma conferência que inspirou esse post, a qual diz:

"É mais que ter um ministério, é cada dia ser mais servo..." [Bruno Gusmão]

Eu vou mais além - não é sobre ter um ministério, é sobre cada dia ser mais servo. Não é sobre o que eu faço e nem sobre quantas tarefas eu desempenho, mas é sobre quem estou me tornando. Não é sobre quantas regras e desafios eu obedeço à risca, mas é sobre a consciência de que a única forma de agradar a Deus não é tentando agradá-Lo mas, sim, buscando imitá-Lo. Ora, Ele só aceita aquilo que procede Dele mesmo e, por isso, apenas o que é conforme ao que Ele faz e determina é agradável a Ele, pois as boas obras para as quais fomos criados (e que devemos praticar) foram preparadas por Ele, preparadas de antemão


Não é sobre o nosso renome nem sobre a nossa honra. 

Enquanto todos nós continuamos a "querer ser Deus", o Deus (que não é nenhum de nós) diz que "não dará a Sua glória a outrem nem o seu louvor a ídolos". Sobre esse mesmo Deus, único e todo-poderoso, se diz que "Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas, a Ele seja a glória eternamente". Não há espaço para usurpações de nossa parte - Deus é quem merece, total e continuadamente, ser adorado, louvado, engrandecido e exaltado. Glória é algo que não é propriedade de ninguém além do próprio Deus, porém muitos de nós que dizemos louvá-Lo agimos como "ladrões de glória" - queremos manipular o universo a nosso favor, julgamos ter poderes mágicos que se transfiguram em orações e "palavras proféticas" falsamente humildes (ou mesmo abertamente arrogantes) e queremos impressionar todos ao nosso redor com nosso "bom comportamento" mascarado de "bom testemunho". Chega! Chega de tanta hipocrisia, incoerência, falsa piedade, falsa integridade, exibicionismo religioso e autoglorificação humana! Não existe honra que não pertença a Deus, uma vez que a verdadeira honra vem somente Dele; logo, se nos consideramos servos Dele, viveremos sabendo que não somos nada e que Ele é tudo.


Finalmente, ao olhar para mim mesmo, posso saber que nada sou. 
O espelho que Deus põe diante de mim também me faz saber que nada posso fazer

Logo, o que resta é me render a Ele, arrependido de quase sempre viver para o meu próprio ventre ao fazer dele o meu deus, saciando meus apetites impuros e egocêntricos e, assim, me fazendo inimigo da cruz do Cristo que me resgatou. Se algum de vocês que leu esse post também se reconheceu como "dono das verdades" e das "opiniões incontestáveis", um "psicopata da autorrealização", um ativista religioso e "idólatra do próprio ministério" e, por fim, até mesmo como um "ladrão" da glória que é devida somente a Deus, arrependa-se agora mesmo - você pode ser um pastor, missionário, teólogo, filósofo, professor renomado ou mesmo alguém sem muita instrução e prestígio social. Não importa. Todos precisamos de arrependimento diário e genuíno, pois essa é a única maneira de mostrarmos (especialmente para nós mesmos) que vivemos Nele, por Ele e para Ele. Mas, claro, não é sobre "a nossa autenticidade de vida com Deus", mas sim sobre a realidade do poder da graça Dele em nós, pela qual Ele nos faz semelhantes a Si mesmo. Ele é tudo que importa. 






Pela alegria de saber que nada é sobre mim,





Soli Deo Gloria!

domingo, 14 de setembro de 2014

O paradoxo do meu palco...

Eis-me aqui, outra vez.

Após os megafones que soaram no post passado, desta vez eu continuarei a dar ênfase a expressões fortes e à transparência, sem máscaras - eu sei que darei a minha cara a bater e, ao fazer isso, poderei parecer um "falso humilde" ou qualquer coisa do tipo... Não me importo.  

Ora, esse blog não é uma tentativa superficial de exibir uma superioridade moral, intelectual e, obviamente (por se tratar de um blog escrito por um cristão) espiritual - é apenas um forma que encontro de mostrar que o mundo é real, que as pessoas não são "mocinhos e mocinhas de contos da fadas" ou "heróis e heroínas de filmes de Hollywood" e, sobretudo, por mostrar que somos todos miseráveis, procuro provar que há apenas Um a Quem deve ser dada toda glória


O título deste post se baseou numa frase da canção da banda de rock brasileiro Palavrantiga, onde se diz:

"Eu monto um paradoxo no palco, você anda zombando da Cruz..." [Rookmaaker - Palavrantiga] 

Paradoxo.

Segundo o Dicionário Informal online, paradoxo significa "conceito que é ou parece contrário ao comum, contrassenso, absurdo ou disparate". Em outras palavras, "paradoxo" se relaciona a incoerência, controvérsia e inconsistência - é algo que nos faz ter reações como "como assim?", "não faz o menor sentido" ou "quem diria, não é?" Em suma, o paradoxo pode nos surpreender ao nos desvendar certas coisas como elas [de fato] são ou pode nos fazer ter concepções erradas a respeito de outras coisas bem como de pessoas, visto que muitos dos paradoxos são superficiais e, portanto, não correspondem à realidade como um todo. Por outro lado, o fato é que todos nós somos, em certa medida (seja mais, seja menos), "paradoxos ambulantes" - todos temos nossas inconsistências, controvérsias, disparates e/ou (como disse em um post mais antigo) nossos "50 tons de incoerência". Eu não escapo dos paradoxos, nem você e nem ninguém. Se você acredita ser a "coerência encarnada" e tem se iludido com isso, eu sinto muito por sua ilusão. 


O "paradoxo" que cada um "monta no palco". 

Dentre os vários "paradoxos" que cada um de nós "monta nos palcos do dia-a-dia", eu gostaria de falar dos meus próprios paradoxos - sim, eu mesmo, que escrevo/falo/argumento/leio/aprendo sobre humildade e autocontrole mas destilo autossuficiência em muitas de minhas palavras e irrompo em fúria por coisas bobas, como a lentidão do computador, o leite em pó derramado ou mesmo ao ver erros nos downloads do iTunes. Sim, pessoas de personalidade ardente, pertinaz e indomável como a minha sempre são os mais controversos e, especialmente quando (por um lado) se luta contra todas essas inconsistências e (por outro) frequentemente se pratica, gente assim sempre acaba incomodando mais ou perturbando a "ordem" e, em tudo isso, causando mal a muitos ao redor ou dando a impressão de que é do tipo "duas caras". Às vezes isso faz sentido, mas muitas vezes a controvérsia não implica falsidade ou ilegitimidade - na verdade, os mais falsos normalmente parecem ser os mais coerentes ou menos paradoxais pois, como disse certo poeta, "tudo aquilo contra o que sempre lutam / é exatamente tudo aquilo que eles são"

Resumidamente, os paradoxos do meu palco me fazem lembrar de um dilema relatado por certo escritor bíblico do primeiro século, talvez um dos registros mais transparentes já escrito:

Porque eu sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita bem algum; pois eu tenho o desejo de fazer o bem, mas não consigo realizá-lo.
Porque eu não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse eu faço.
Ora, se eu faço o que não quero, já não o faço eu, mas o pecado que habita em mim. 
[Epístola de Paulo aos Romanos, cap. 7, vs. 18-20]


Não há como ser mais explícito - em nossa natureza humana não há nada de bom que nos permita fazer o bem, ainda que o desejemos. Vez por outra, sempre caímos em erros e pecados recorrentes, mesmo aqueles dos quais sempre nos arrependemos e procuramos abandonar. No fim das contas, o ensino dessa passagem consiste na realidade relutante do pecado dentro de nós - no caso, daqueles que foram alcançados pela graça de Deus por meio de Jesus Cristo, mas ainda são humanos e imperfeitos - e, por isso, praticamos o mal que odiamos em vez de fazer o bem que amamos. Enfim, somos os protagonistas desse "espetáculo de contrassensos" e, a cada "palco montado" por nós, novos paradoxos são (e serão) inevitavelmente exibidos. Não tem jeito, como diz outra música: "...o bem que eu quero, esse eu não faço / o mal que não quero, persegue os meus passos..." [Meus passos - Oficina G3]. "Isso é o que somos nós" agora, mas "no desapontamento a esperança nasce" - a esperança de que Aquele que é santo e justo se manifestará e, a partir desse momento, seremos semelhantes a Ele. 

Você anda zombando da cruz.


Primeiramente, "zombadores da Cruz" [no sentido literal] existiram desde o dia em que Jesus foi crucificado, pois muitos disseram "...se Tu és o Filho de Deus, salva a Ti mesmo e a nós..." - inclusive um dos homens que foi crucificado juntamente com Ele. Em nosso contexto, os "zombadores da Cruz" podem ser tanto aqueles que ignoram tudo o que diz respeito a Cristo e ao cristianismo quanto os que até possuem certa religiosidade mas, por concepções distorcidas da totalidade da verdade, estão prontos a lançar críticas e difamações - sem contar, é claro, os que dizem seguir o Cristo crucificado e ressuscitado, mas O negam com sua conduta e caráter. Nesse sentido, recordo-me de outros escritos do mesmo Paulo:

Você, pois, que ensina a outro, não ensina a si mesmo? Você, que diz que não se deve furtar, furta?
Você, que diz que não se deve adulterar, adultera? Você, que detesta os ídolos, rouba-lhes os templos? 
Você, que se gloria na Lei, desonra a Deus pela desobediência à Lei?
Pois, como está escrito: "o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vocês". [Romanos 2:21-24]


Pra variar, mais uma vez está mais do que claro - se falamos contra ou concordamos com certas posturas ou princípios, devemos olhar para nós mesmos antes e ver se estamos vivendo de acordo com o que defendemos, pois se "falamos uma coisa e vivemos outra", só nos resta dar razão para que o nome de Deus seja difamado. Obviamente, devido à natureza corrupta do ser humano, todos naturalmente odeiam a Deus e estão em inimizade contra Ele [e, por isso, blasfemam Dele], mas se eu me considero [mesmo que seja com toda a humildade] um discípulo fiel do Cristo, eu não tenho outra opção a não ser a coerência e a consistência - isto é, a busca pela crescente superação de todos esses paradoxos. Está na hora de sairmos da teoria da "integridade ideal" para uma busca prática da "integridade real" - sim, algumas vias serão íngremes ou sinuosas, também cairemos e/ou tropeçaremos durante o percurso, mas isso não deverá ser uma desculpa esfarrapada para sairmos do Caminho. Deus deve ser levado a sério e, se algum de nós ainda não se deu conta disso, queira o próprio Deus que possamos nos dar conta antes que seja tarde demais. 

Porém, minha preocupação com a boa conduta como resultado do estilo de vida que professo adotar não está em nada ligada à minha reputação pessoal - eu "não estou nem aí" se desaponto as expectativas de alguns que me cercam por causa de meus "instantes de ira destemperada" ou se sou criticado porque alguns confundem convicção e firmeza com arrogância [embora eu saiba de meu próprio orgulho]. Eu lamento frustrá-lo, mas não tenho qualquer compromisso em ser seu bajulador - a única causa digna que me motiva a viver de modo coerente é me "apresentar aprovado diante Dele", pois "se eu procurasse agradar a homens, eu não seria servo de Cristo"


Finalmente, acredito que minha peregrinação - particularmente, essa é a melhor palavra para definir a minha vida hoje - será como vi num trecho de um livro há alguns anos, atribuído ao nobre escritor russo Liev Leon Tolstoi - não me lembro do que li de forma literal, mas recordo que havia um bêbado que voltava para sua casa andando pelas ruas, cambaleando e às vezes tropeçando... No fim da história, o bêbado consegue chegar em casa e encontra o descanso que tanto buscava. Ou seja, todos nós [de certa maneira] somos como esse ébrio ao seguir a Cristo - deslizamos em certas fraquezas e, quando damos conta de nossos erros e pecados, nos arrependemos e mudamos de direção em busca do lugar ao qual pertencemos. Nessa jornada de retorno, podemos tropeçar e cambalear mas, se sabemos de onde viemos e temos raízes firmes nisso, um dia chegaremos em casa. Trocando em miúdos, se sabemos que somos de Deus por verdadeiramente crermos em Cristo, jamais encontraremos satisfação e descanso para a alma fora Dele. Vacilos e falhas sempre existirão, porém são os que se reconhecem incapazes em si mesmos que estão aptos a receberem a graça Dele para poder caminhar - ora, os "donos da boa moral" e adeptos da "política da boa vizinhança" já se acham agraciados demais; Deus me livre de ser como eles.


E você? Quais são os paradoxos que você exibe nos seus palcos?
Você tem sido um "zombador da cruz" ou tem se dobrado diante Daquele que morreu nela para salvar pecadores como eu e você?





Pela esperança de que Nele os meus "paradoxos" terão fim,





Soli Deo Gloria!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quando Deus usa megafones...

Dessa vez não demorei muito pra voltar.

Acredito que os textos anteriores tem sido um tanto mais aceitos pelos leitores - tenho buscado ser mais brando e menos áspero, admito - mas, na verdade, ao olhar para esse lado mais ameno de minhas reflexões, acho que falta alguma coisa. Sim, acredito que sou mais "eu mesmo" ou mais "autêntico" quando o "filtro" fica um pouco de lado e a verdade aparece como ela é. Então, que assim seja.


Sem perda de tempo, esse texto é, predominantemente, produto de minhas reflexões do livro "O problema do sofrimento", escrito por C. S. Lewis nos anos 40 do século XX e meu atual livro de cabeceira. Ao longo da leitura, me deparei com uma frase que me fez parar e pensar um bom tempo:

"O sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo". [C. S. Lewis]

Sofrimento.

Talvez essa seja a palavra mais odiada, combatida, não-aceita e incômoda para a existência humana. Não apreciamos o sofrimento. Fugimos dele diariamente, a todo instante. Não importa se somos religiosos ou não, ricos ou não, intelectuais ou não, brancos ou negros, brasileiros ou australianos, nada disso importa - ninguém gosta de sofrer [inclusive eu]. Mas o fato é que sofremos, muito ou pouco, mas sofremos. O sofrimento é algo inevitável para nós, seres humanos, e mesmo para toda a natureza - basta observar os desmatamentos, a poluição atmosférica e das águas (fluviais e marítimas), a pesca predatória e demais ações violentas contra a fauna (bem como contra a flora). De certa maneira, o sofrimento permeia toda a existência pelo Universo e, enquanto estivermos nesse corpo físico, todos nós estaremos sujeitos a ele. Não se iluda com slogans do tipo "pare de sofrer!" ou "seus problemas acabaram!" - não se iluda mesmo. O sofrimento sempre estará presente por aqui, quer queiramos ou não. 


Mas... o sofrimento é mesmo o megafone de Deus? Isso faz mesmo sentido?

Sim. Faz todo sentido.

Primeiramente, uma vez que cada um de nós (sem qualquer exceção) naturalmente não tem prazer ao lidar com o sofrimento [de modo que nos opomos a ele a qualquer custo], o que buscamos avidamente é estabelecer sobre nossas próprias vidas [assim como sobre as vidas dos outros] a "ditadura da felicidade". A Ditadura da Felicidade, como marca da sociedade hedonista e autocentrada de hoje, nos tornou surdos para a realidade que nos cerca - tão surdos que não percebemos os gritos silenciosos de nossa própria alma vulnerável aos sofrimentos do dia-a-dia e, especialmente, surdos em relação ao clamor e à dor do próximo. Mais do que nunca, estamos tão voltados para o nosso próprio umbigo - o que importa é a minha realização pessoal, é meu conforto emocional, é minha "consciência tranquila" [ou seja, o que importa é ser feliz e o resto é resto] - que, possivelmente, nossa maior necessidade é ouvir o alerta divino em alto e bom som: chorem com os que choram, defendam a causa da viúva, acolham o estrangeiro e o órfão, ouçam o clamor do pobre, levem os fardos uns dos outros. Deus ergue o Seu megafone e faz ouvir Sua voz; quem tem ouvidos para ouvir, ouça.


O mundo precisa ser despertado.

Curiosamente, a sociedade mais antenada, conectada, tecnológica e frenética é a mais desatenta e desapercebida do que está ao redor de si mesma - por exemplo, qual de nós não perde diariamente alguns bons minutos digitando mensagens no celular enquanto a vida acontece fora do WhatsApp? E não somente isso, estamos tão ocupados olhando nosso "inbox", publicando um novo "tweet" ou atualizando nosso Instagram e não vemos as pessoas nas esquinas sem comida, usando drogas, dormindo no chão frio [até mesmo em dias de chuva] ou, por outro lado, ignoramos aqueles que precisam de uma palavra de ânimo ou tão-somente de ser ouvidos por nós. 

Com isso, não quero afirmar que esses recursos tecnológicos não possam ser usados para o benefício do outro, porém na maior parte do tempo eles nos entorpecem para a "vida real" - nos afastamos uns dos outros, julgamos as pessoas apenas pelo "ter visualizado a mensagem" e não ter respondido, perdemos a oportunidade de cultivar amizades e bons relacionamentos "olhando nos olhos" ou mesmo ouvindo-se a voz do outro lado da linha durante aquelas ligações intermináveis. Nos tornamos viciados em superficialidade e, como resultado natural, o sofrimento do outro já não nos incomoda mais - a não ser que saiamos em desvantagem. Em contrapartida, Deus continua levantando Seu megafone e ressoando o Seu grito, como está escrito:

"Porque toda a Lei se resuma nesta palavra: amarás o teu próximo como a Ti mesmo". [Gálatas 5:14]

No entanto, a realidade que construímos mostra que estamos afundados em nosso egoísmo. Sim, precisamos ser despertados. 


Porém, esse não é o pior lado da história. 

Quando C. S. Lewis disse que "o sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo", ele mostra que Deus pode até sussurrar em nossos prazeres, entretanto Ele brada em meio à nossa aflição - ou seja, é no meio do desespero e da angústia que a voz Dele se torna mais audível, pois assim percebemos que não nos resta nada a não ser Ele. Além disso, a ideia de que o sofrimento é o "megafone de Deus" traz consigo o fato de que a "temporária felicidade" de muitos que vivem suas próprias vidas como bem entendem [fazendo o mal aqui e acolá] um dia dará lugar ao sofrimento. Jesus Cristo, Aquele que amparou e consolou todos os sofridos e angustiados que encontrou enquanto esteve entre nós, disse certa vez:

Mas ai de vocês, que são ricos, pois já receberam a sua consolação.
Ai de vocês, que agora tem fartura, porque passarão fome.
Ai de vocês, que agora riem, pois haverão de se lamentar e chorar. [Lucas 6:24-26]


Sim - foi Jesus que disse isso. Essa conversa de que Jesus era especialista em "passar a mão na cabeça", colocar "panos quentes" e "amaciar o ego" não tem nada a ver com o Jesus relatado nas Escrituras. Ele diz claramente, como se estivesse com um megafone em uma de suas mãos, "ai de vocês!" Ai! Ai! Posso tentar imaginar a cena, como se Ele gritasse veementemente aos ouvidos dos que estão sonolentos: "...escutem-me, ouçam a minha voz, pois os dias de alegria estão contados, a felicidade vai desaparecer repentinamente, a fartura vai deixar de existir e os risos darão lugar ao choro...". Na direção contrária, Ele diz bem perto do trecho anterior:

Bem-aventurados vocês, que são pobres, pois o reino de Deus pertence a vocês.
Bem-aventurados vocês, que agora tem fome, pois serão satisfeitos. Bem-aventurados vocês, que agora choram, pois haverão de rir.
[...]
Regozijem-se nesse dia e saltem de alegria, porque grande é a sua recompensa no céu.
[Lucas 6:20-21, 23]


Resumindo, Jesus mostra que existem duas realidades simultâneas agora e que, no futuro, haverá uma inversão de realidades - alguns desfrutam da vida hoje conforme seus próprios conceitos e ignoram a Deus, enquanto outros sofrem perdas e escassez, todavia permanecem olhando para o Alto. Para estes últimos, o que está reservado é o reino de Deus [um reino eterno, onde não há tristeza ou pranto, e que jamais será destruído] mas, para os primeiros, Jesus fala que o sofrimento baterá à porta deles - baterá à porta e invadirá suas casas, destruindo tudo o que estiver lá dentro, de forma que nenhum deles poderá escapar. Sem delongas, esse será um sofrimento eterno e irreversível, pois a Voz que assim proclamou é a voz divina, diante da qual a terra e o inferno tremem. Logo, é qualquer um de nós que pode ousar tentar resistir?


O megafone de Deus ainda soa e nos avisa firmemente para "sairmos sem olhar para trás" antes que o "fogo e enxofre" advindos de Sua ira caiam sobre nós e nos consuma, a fim de que possamos buscar a Ele enquanto Ele pode ser achado e invocá-Lo enquanto Ele está perto - mas não O busquemos de qualquer maneira, pois apenas os que O buscam de todo o coração O encontram. Desse modo, nos encontramos com Aquele para Quem fomos criados e, assim, desfrutamos da vida eterna, que consiste em conhecê-Lo como único Deus verdadeiro e a Quem Ele enviou, Jesus Cristo.

Você tem ouvido o som do megafone de Deus - tem olhado para o sofrimento do outro com compaixão, aceitado as aflições da vida como algo inevitável e, sobretudo, já foi despertado para a realidade do sofrimento eterno para que O busque? Não seja como os "surdos da cidade dos homens", mas faça parte da "gente que consegue ouvir".





Pela alegria de ter ouvido a Voz dele e ter seguido,





Soli Deo Gloria!