quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sobre ficar esperando o amor passar...

Eis aqui, estou de volta.

Desde o último texto, um texto notadamente confessional, estive muito ocupado com algumas responsabilidades - estudo e processo seletivo para o ingresso no doutorado na minha universidade e, portanto, não tive tempo de passar por aqui - mas, agora que estou um pouco mais disponível, preciso escrever... Como sempre, espero que quem passar por aqui extraia algum proveito dessa leitura. 

Vamos, então, em frente. 


O tema dessa postagem, de modo análogo aos últimos posts publicados aqui, se baseia numa canção da Legião Urbana chamada "Se fiquei esperando meu amor passar", a qual também vem a calhar, dado o fato de que acabamos de passar pelo Dia dos Namorados - dia no qual os casais ficam um tanto mais carinhosos e românticos e, nessa era das redes sociais e dos compartilhamentos em tempo real, a nossa linha do tempo fica "doce igual caramelo", cheia de declarações apaixonadas e de fotos em locais turísticos, parques, jantares à luz de velas ou mesmo aquele "selfie" de rotina. 

Nesse sentido, embora eu também goste de demonstrar carinho e zelo pela mulher com quem estou namorando [o que não é o caso no momento, rs], não sou adepto a certas "frescuras" ou exageros - quem me conhece bem, sabe o quanto sou um "mar de doçura" - mas, mesmo assim, cada pessoa pode se manifestar seus sentimentos pelo outro de modo que todos (tanto quem se expressa quanto quem visualiza a expressão) se respeitem mutuamente. 

Porém não é exatamente de "namoro ou coisas afins" que desejo falar aqui.


A música mencionada acima fala de coisas muito interessantes quanto ao assunto "amor", e uma delas está no seguinte trecho:

"Quando se aprende a amar, o mundo passa a ser seu..."

Aprender a amar.

Certamente, não existe nada neste mundo para o que nós, seres humanos do século XXI, somos absolutamente ignorantes, enganados, equivocados, alienados e destituídos do que o real significado de amor - tanto na teoria quanto na prática. Para se falar de amor, uma boa dica é conhecer a perspectiva dos antigos filósofos (gregos e, mais tarde, os escolásticos medievais, por exemplo), conforme a qual a palavra "amor" pode ter quatro usos: o amor por coisas (o que pode ser chamado de afeto), o amor por pessoas com quem temos algum laço familiar ou de amizade (o "philéos" ou amor fraternal), o amor que envolve a atração sexual (o "eros", de onde vem o termo erótico) e o amor chamado "agápe", o qual se caracteriza por ser auto-doador, altruísta, desprovido de soberba e durável, sendo normalmente associado à essência da divindade. No entanto, tudo pode ser chamado de "amor" hoje em dia [inclusive o que só fomenta ódio, divisão, guerra e inimizade] - meus caprichos pessoais são traços de "amor", meus desejos sexuais ilícitos e pervertidos são "formas justas de amor", minhas "boas ações" são sempre atos de amor (mesmo que sejam só para autopromoção) e, o que ainda é mais grave, minhas ações de barganha religiosa ou espiritual [seja para buscar um alívio na consciência pela "sensação de dever cumprido" ou para tentar "convencer a Deus de minha suposta bondade inata"] são atitudes de amor sincero a Ele

Não - não estamos entendendo nada. 
Precisamos aprender o que de fato significa "amor" - urgentemente.


Resumidamente, nossos "caprichos" são só caprichos, nossos desejos sexuais egoístas e ilícitos são apenas "desejos sexuais egoístas e ilícitos", nossos gestos beneficentes para auto-exaltação não passam de tentativas medíocres de afirmação pessoal e vanglória fútil e, por fim, nossas tentativas de nos fazer espiritualmente aptos ou, em outras palavras, de nos recomendar a Deus por nós mesmos são pura insolência, arrogância e pretensão. Precisamos aprender a amar de verdade e, para isso, precisamos aprender com Aquele que é amor - Deus. Se você, porventura [ou seria desventura?], não acredita em Deus como Ele de fato é ou, no máximo, tem uma visão dele proveniente de sua própria cabeça, eu sinto muito - você não sabe o que é amor, você não é capaz de fazer qualquer ato que seja em amor e, finalmente, o amor que vem Dele não está em você

Logo, assim como a música afirma, o mundo "passa a ser de quem aprende a amar" - porém, quem aprende a amar com Aquele que é amor [o Qual diz de Si mesmo que é manso e humilde de coração e, por isso, convida a todos para aprenderem Dele], sabe que a melhor maneira de "possuir o mundo" é "fazendo uso dele como se dele não usufruísse, visto que a aparência do mundo passa" bem como se desapegando do que há de mau e injusto nele, pois está escrito que "...se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele..." [1 João 2, vs. 15b] e "...qualquer que se faz amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus..." [Tiago 4, vs. 4]. A esse respeito, se faz oportuna a citação adaptada de C. S. Lewis: "Pense apenas nas coisas desse mundo, e você perderá o mundo futuro; pense especialmente nas coisas do mundo futuro, e você aproveitará ambos". 


Mas talvez você se questione: se eu não creio em Deus ou possa ter uma visão errada de quem Ele é, como eu poderia resolver esse dilema? 

Simples - Deus não foi irresponsável a ponto de ter criado o universo e tudo o que nele existe [incluindo eu e você] sem ter Se revelado de maneira clara e indesculpável para Suas criaturas, como registrado pelo apóstolo Paulo:

Pois, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus, tanto o Seu eterno poder quanto a Sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas que foram criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis. [Epístola aos Romanos, cap. 1, vs. 20]

Não seria possível ser mais claro - os atributos invisíveis de Deus [aqueles que não são comunicados por Ele a nada fora Dele, de modo que Deus é único e singular em Si mesmo] estão visíveis pra quem quiser ver, pois a natureza e o universo revelam explicitamente que Deus é Deus e, assim, todos os homens que permanecem na injustiça e no pecado não têm desculpa por rejeitarem a Ele. Isto é, se alguém ignora a Deus como se Ele fosse um "produto de mentes fracas que precisam de algo em que se apoiar" ou, como já foi expresso, cria o seu próprio "deus de estimação" [um deus manipulável, palatável aos próprios prazeres e que muda de forma e de caráter "ao gosto do freguês"], esse alguém não terá como se livrar da sua culpa, pois no fundo ele sabe que Deus é uma realidade, de forma que sua rebeldia contra Ele é deliberada - logo, ele se torna ainda mais culpado de sua impiedade e, assim, totalmente sujeito e vulnerável à ira divina. 


Mas Deus não Se revelou apenas na Sua criação - Ele foi mais além.

Deus, a fim de que não existisse qualquer dúvida dentro da mente de cada um de nós a respeito de Quem de fato Ele é, decidiu Se revelar através de Alguém - Jesus Cristo. Os textos sagrados dizem que o "Verbo" eterno "que estava no princípio com Deus e que é Deus, por meio de Quem todas as coisas foram feitas, em Quem estava a vida e a luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem ao mundo e que veio para que todos os que cressem Nele fossem feitos filhos de Deus" se encarnou, se tornou homem, nasceu de uma virgem e, mais tarde, disse o seguinte, conforme registrado pelo evangelista João:

Se vocês conhecessem a mim, também conheceriam a meu Pai; e já desde agora O conhecem, e o têm visto.
Disse-Lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta.
Disse-lhe Jesus: estou há tanto tempo com vocês, e não têm me conhecido, Filipe? Quem me vê, vê o Pai, e como dizes tu: mostra-nos o Pai? [João 14, vs. 7-9]

Nesse texto, Jesus afirma ser Deus, o mesmo Deus que "revelou o Seu poder e divindade por meio das coisas criadas", de maneira que quem quiser saber quem é Deus - e, assim, conhecer Aquele de quem procede todo amor, visto que Ele é amor - precisa simples e tão-somente olhar para Jesus, pois também está escrito que "Ele é o resplendor da glória de Deus e a expressa imagem de Seu ser". Em outras palavras, quem também tem sua própria visão de Jesus e não se conforma com a realidade de quem Jesus é, conforme registrado nos evangelhos - um "revolucionário das minorias", um "mestre da moral" ou qualquer outra perspectiva - também demonstra não querer aprender Dele e, desse modo, continuará sem saber o que é o amor ou, no máximo, estará "esperando o amor passar" quando ele "já passou" há muito tempo


Finalmente, assim como muitos de nós hoje estão "esperando o amor passar" - neste caso, achar o que chamamos "alma gêmea" ou "pessoa certa" -, acredito ser oportuno frisar que o "amor" mais importante pelo qual devemos esperar ou anelar não é o amor de outra pessoa como nós [embora isso seja uma das melhores coisas da vida, de fato], mas sim aquele Amor que não depende de sentimentos ou sensações favoráveis para permanecer, o Amor que é em si mesmo benevolente, benigno, humilde, santo e eterno e, por isso, só pode ser encontrado no Criador, em Deus, em Jesus Cristo. Sobre isso, a canção que inspirou esse post, perto de seu final, inclui o trecho de uma canção/oração [se não me engano, católica] que diz:

"Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo
Dai-nos a paz..."

Não sei se o poeta da canção, de fato, acreditava nessas frases que ele estava entoando mas, de toda sorte, essa bela oração poderia também ser escrita da seguinte forma:

"Cordeiro de Deus, que tirou os pecados do mundo
Teve piedade de nós
Cordeiro de Deus, que tirou os pecados do mundo 
Deu-nos a paz..."


Sim, Jesus Cristo, o Filho de Deus, já veio para tirar os pecados do mundo - pois está escrito que "Ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e Nele não há pecado". Ele é chamado de "Cordeiro de Deus" como figura da suprema pureza de Sua natureza, uma vez que apenas alguém totalmente santo e justo poderia substituir pecadores como eu e você numa cruz, a fim de morrer uma morte cruel e penal para salvar a todo aquele que olhar para Ele e, então, invocar o Seu nome. Sim, Ele já "teve piedade de nós" e agora nos resta apenas suplicar a Ele para que essa piedade que Ele demonstrou nos alcance, pois o nosso pecado nos faz totalmente carentes de misericórdia e compaixão, e apenas Deus pode ser para nós o que realmente precisamos - ser Redentor, Salvador, Resgatador, Justificador, Santificador e Senhor. 

O que estamos esperando então? 


Não precisamos "ficar esperando o amor passar", porque Ele já passou em nosso meio humano presencialmente há uns 2000 anos e, ainda hoje [já que Ele vive], está disposto a salvar a todo aquele que vier a Ele sabendo que nada tem em si mesmo para que se salve, a não ser confiar Nele como o único que pode salvá-lo. Ora, como diz um poeta que admiro, esse Amor que passou por nós é "um amor perfeito e justo, que sempre me espera" e que "está se espalhando" - isto é, veja os fachos de luz desse amor divino por meio dessas palavras postadas e, em vez de continuar esperando por algum "amor" que jamais te satisfará a alma, reconheça que Ele é totalmente capaz de fazer isso, pois "nEle reside toda plenitude da divindade" ou, de outra sorte, "nEle reside toda a plenitude do amor"





Pela certeza de que o Amor passou por mim e permanece,




Soli Deo Gloria!

domingo, 7 de junho de 2015

Everything is not post...

Mais um mês começa. 

Sim, já estamos na metade do ano - o tempo realmente passa depressa - e, juntamente com ele, novos desafios surgem e novas experiências (muitas delas árduas e dolorosas) precisam ser encaradas. 

Nesse sentido, embora eu esteja mais atarefado nesses últimos dias [estou prestes a me selecionar para ingressar no doutorado em minha universidade e, por isso, preciso me dedicar], não posso deixar de expor algo que aprendi nas últimas semanas - algo humilhante, dilacerador, que traz uma certa vergonha e o senso de culpa, mas que eu falarei mesmo assim. Espero que valha a pena.


O título dessa postagem, como normalmente gosto de fazer, também é inspirado numa música da banda britânica de rock Coldplay (já mencionada neste blog no texto "The tic-tac of clocks"), a qual se chama "Everything's not lost" ou "Nem tudo está perdido", cujos versos iniciais dizem:

When I'm counting up my demons
Saw there was one for every day
With the good ones on my shoulders
I drove the other ones away... 

Que traduzido pode ser:

Quando eu enumerei meus demônios
Eu vi que havia um para cada dia
Com os "bons" sobre os meus ombros
Eu afastei os outros pra longe... 

Sobre os meus próprios "demônios".

Inicialmente, é preciso esclarecer que a canção não fala exatamente da presença real de demônios ou, em outras palavras, de possessão ou opressão demoníaca, porém apresenta esses termos de modo alegórico ou figurado. Portanto, acredito que o autor da música se refere aos seus próprios vícios, perversões ou traços de maldade quanto "enumera ou conta os seus 'demônios'" - ora, se o escritor dessa letra é tão humano quanto eu e você, nós também temos dentro de nós esses "demônios" (nossos vícios, paixões desenfreadas, pecados ocultos, perversões morais e éticas, pensamentos e sentimentos maus etc.), os quais precisam ser notados por nós a ponto de reconhecermos a existência deles, visto que, quase sempre, nos iludimos a respeito de uma suposta bondade intrínseca e nos julgamos "separados dessas coisas ruins". Nessa situação, se faz oportuna a citação ousada do teólogo alemão Martin Luder, que disse: "Dentro de mim existe um demônio chamado 'eu'". 


Contudo, a letra vai mais além - ela afirma que "havia um 'demônio' para cada dia", o que implica, em termos totais, no mínimo 365 "demônios" por ano ou, no nosso contexto aqui, 365 "tipos" de males, de pecados ou quaisquer desvios de caráter ou conduta, provavelmente se referindo a cada pessoa, a cada um de nós, começando pelo seu compositor. Será que paramos para nos analisar a ponto de perceber que somos muito mais inclinados para o mal do que para o bem [se é que desejamos o bem de fato]? Ora, como mencionei num texto anterior, somos tão voltados para nosso próprio umbigo que, até quando procuramos "fazer o bem" ou buscamos "coisas espirituais", fazemos isso pensando em nós mesmos, pois pode-se ler nos escritos sagrados que "...como o inferno e a destruição nunca se fartam, os olhos do homem nunca se satisfazem" [Provérbios 27:20] e que "...ainda que eu distribua toda minha fortuna para sustento dos pobres, e entregue meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitaria..." [1 Coríntios 13:3]

Em suma, a nossa insaciedade e cobiça é comparada no texto bíblico à cobiça e insaciedade do próprio inferno [isto é, esses maus sentimentos e desejos são como demônios em nossa alma, a ponto de sempre arrogarmos para nós mesmos mais e mais - como disse certo poeta, "o que é demais nunca é o bastante"] e, por outro lado, podemos praticar atos exteriormente admiráveis e bondosos, mas sem amor [de modo que amor, então, é muito mais que ter as "atitudes certas" assim como é mais que mero sentimentalismo], o que torna nossas pretensiosas "virtudes visíveis" absolutamente abomináveis em si mesmas e, especialmente, detestáveis e desprezíveis diante dos olhos Daquele que é Amor, mas que também é santo e, por isso, verdadeiramente temível


Mas ainda podemos relutar... será que há tanta maldade assim em nós?
Sim, há - e digo mais, somos mais maus do que podemos perceber e, principalmente, maus de maneira tal que não podemos fazer nada para nos livrarmos disso.

A esse respeito, o poeta da música acima conseguiu transmitir tudo que eu jamais sintetizaria em apenas duas frases, nas quais é dito que "com os 'demônios bons' em nossos ombros, nós afastamos os 'outros'...". Ou seja, a perversidade e corrupção inerentes a nossa natureza são tão desesperadoras que, ao olharmos para nossos próprios vícios, pecados, motivações erradas, intenções impuras e anseios egoístas, damos um sorriso cínico pra eles por acharmos beleza onde só há podridão e sujeira, além de acharmos que "já que temos 'vícios bons' e 'pecados bem intencionados'", fomos capazes de "afastar as coisas ruins para longe...". Mentira pura! Petulância descabida! No tocante a isso, outros escritos sagrados afirmam:

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? [Jeremias 17, vs. 9]

Quem poderá dizer: purifiquei o coração, e estou livre do meu pecado? [Provérbios 20, vs. 9] 

Ou, nas palavras aterradoras de Jesus Cristo - sim, Aquele que andava com pecadores, prostitutas, acolhendo os pobres e indignos para Si, disse o seguinte:

Pois do coração do homem procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias. São essas coisas que contaminam o homem... [Evangelho de Mateus, cap. 15, vs. 19-20a]


Resumidamente, Jesus não cita nenhuma virtude, bondade ou atitude digna em si mesma como procedente do coração do homem, o que implica o fato de que qualquer ser humano, por mais íntegro que seja aos nossos olhos, não pode fazer nada de bom por si mesmo, pois em outro lugar Jesus disse que "...a Luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, por que as suas obras eram más... Quem pratica o mal odeia a Luz, e não vem para a Luz, para que as suas obras não sejam reprovadas... Mas quem pratica a verdade vem para a Luz, a fim de que suas obras sejam manifestas, porque são feitas por intermédio de Deus..." [João 3, vs. 19-21]. Isto é, se por um lado os homens amam mais as trevas do que a Luz [ou amam mais a maldade, o erro e o pecado do que a Deus], só é possível fazer algo verdadeiramente bom se for feito em Deus, pois somente Nele há bondade e virtude e, desse modo, as demais coisas só podem expressar beleza e dignidade se Deus concede de Si mesmo a beleza e a dignidade de que essas coisas necessitam. Logo, faço dos versos de uma bela canção nordestina a minha oração: 

"Deus me proteja de mim
E da 'maldade de gente boa'
Da 'bondade da pessoa ruim'
Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim..."

Mas o que isso tem a ver com minhas últimas experiências? Tudo.


Nas últimas duas semanas, eu tive de "enumerar os meus próprios demônios" de forma latente e em aflição de alma, pois algo aconteceu a meu redor que me fez ver o quanto que "determinadas motivações exteriormente justas" que eu estava nutrindo eram, na verdade, puro egoísmo, orgulho e individualismo. Assim como na canção, eu olhava para os "'bons demônios' em meus ombros" e os ostentava como virtudes a serem exibidas, quando em contrapartida tudo configurava e testificava a corrupção de meu coração - ora, o que é mau é mau a despeito do que eu sinto e penso a respeito, de forma que não tem como ficar "com os 'bons demônios' em nossos ombros e mandar os 'outros' embora...", pois toda a maldade continuará lá, presente. Ninguém pode se libertar desses "demônios" sozinho, pois está escrito que "...Quem pode discernir os próprios erros? Expurga-me também daqueles que me são ocultos..."  [Salmo 19, vs. 12]. Nesse caso, eu não posso nem entender meus erros e pecados, quanto mais me libertar deles, uma vez que alguns (muitos, eu diria) estão ocultos a meus olhos, de maneira que apenas Aquele que conhece todas as coisas e tem todo o poder nos céus e na terra é capaz de fazer aquilo que nenhum de nós pode fazer. 

Em outros termos, conforme o título deste texto, "everything is not post" - nem tudo está "postado", pois certas coisas são tão vergonhosas para nós que até pensarmos nelas já é ofensivo e constrangedor demais para serem "postadas". No entanto, apesar de toda a condição desfavorável na qual me enxerguei - a muito custo, é verdade, pois é nessas horas que vejo o quanto sou orgulhoso e "autojustificador" - , eu sei que "nem tudo está perdido". Se você, porventura, ao ler esse texto, se identificou comigo quanto à total impossibilidade do homem salvar a si mesmo de si mesmo, nem tudo está perdido pra você também


No final da canção, são cantados os seguintes versos:

Cause my head just aches when I'm think of
The things I shouldn't have done
But live is for living, we all know
And I don't want to live it alone...

Ou:

Porque minha cabeça dói quando eu penso
Nas coisas que não deveria ter feito
Mas a vida é para se viver, nós todos sabemos
E eu não quero vivê-la sozinho...

Não viver a vida sozinho.

O dilema da canção é o de ter que lidar com esses "demônios diários" em meio à esperança de que nem tudo esteja perdido até que, finalmente, vem o peso por causa dos erros cometidos ao mesmo tempo que o desejo de vida, uma vida não solitária. Nesse sentido, os textos sagrados dizem que "...a tristeza segundo Deus produz arrependimento, que leva à salvação; mas a tristeza do mundo produz morte..." [2 Coríntios 7, vs. 10] - ou seja, nem sempre "Deus nos quer sorrindo", pois Ele deseja nos fazer tristes por causa dos nossos pecados, para que haja arrependimento e, por fim, o próprio Deus nos salve. Você já se entristeceu pelos seus pecados alguma vez na vida, ou acha que eles são "tão naturais" que podem ser tratados como "algo de estimação"? Jesus disse que, "se todos de igual modo não se arrependerem, todos igualmente perecerão" [Lucas 13, vs. 5].

Mas existe uma boa notícia.

A boa notícia é que Deus já fez tudo o que foi necessário para que sejamos salvos de todos esses "demônios" citados aqui - Ele deu o Seu Filho, o Único e Amado Filho, para "salvar o Seu povo dos pecados deles" [Mateus 1:21], provando "o Seu amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" [Romanos 5:8], para "nos libertar do presente século mau" [Gálatas 1:4], para "nos remir de toda iniquidade, a fim de purificar para Si mesmo um povo Seu especial, zeloso de boas obras" [Tito 2:14], se "fazendo pecado por nós, para que nEle fôssemos justiça de Deus" [2 Coríntios 5:21]. Em outras palavras, a "vida que é para ser vivida" é a vida que somente Ele pode nos dar, a própria vida de Deus, pois Ele habita em todos os que Nele confiam como Salvador e que O reconhecem como Senhor, de forma que não haverá mais desamparo ou abandono, por mais que haja dores e aflições - está escrito que Ele nunca nos deixará, nem jamais nos abandonará


E então? Será que todos nós já paramos para "enumerar os nossos demônios" com tristeza na alma?
Ou ainda estamos tão firmados em nós mesmos a ponto de vermos "virtude" naquilo que para Deus é abominável?

A nossa única alternativa é olhar para Jesus Cristo - olhar para Aquele que "veio buscar e salvar o que se havia perdido", que "veio ao mundo para salvar os pecadores", "que veio como Luz ao mundo, para que todo aquele que Nele crer não permaneça nas trevas" - totalmente sem confiança em nós mesmos, e crer nEle. Diante Dele, nada está perdido, pois Ele é "Aquele que fala com retidão, poderoso para salvar", poderoso para salvar o pior dentre nós, a fim de que cada um possa dizer: "...eu estava morto, mas revivi; estava perdido, mas fui achado"





Porque tudo que está perdido pode ser achado Nele,




Soli Deo Gloria!

quarta-feira, 27 de maio de 2015

The long and winding post...

Maio ainda não acabou. 
E, por isso, ainda deu tempo de voltar aqui.

Como se costuma dizer, maio é um dos "meses eternos" mas, como hoje já são 27, em breve maio acabará - mas, enquanto isso, gostaria de externar algumas novas idéias que têm passado pela mente. Idéias que, espero eu, tenham alguma relevância para quem passar por aqui. 


O tema dessa postagem é baseado em trechos de uma canção dos Beatles ou, como era o nome inglês, The Beatles (literalmente seria "Os Besouros"), banda que talvez mais influenciou o rock mundial desde os anos 60. Eles tiveram várias fases distintas - desde os primeiros anos mais frenéticos até os últimos momentos de maior melancolia ou certa "espiritualidade". E, nesse sentido, uma de suas canções mais interessantes - e lindas, inclusive - se chama "The Long and Winding Road" (A longa e sinuosa estrada), que inspirou esse texto. Sem mais delongas, alguns dos primeiros versos da letra dizem:

"The long and winding road 
That leads to your door
Will never disappear
I've seen that road before..."

Ou:

"A longa e sinuosa estrada
Que leva até a sua porta
Jamais desaparecerá
Eu já vi esta estrada antes..."

Estradas sinuosas que levam a portas.


Inicialmente, o autor fala de uma "longa e sinuosa estrada" que leva a uma determinada "porta". Considerando-se que ele esteja falando de maneira alegórica ou figurada, os caminhos que seguimos ou a maneira como direcionamos a vida está bastante ligado com as "portas" que encontraremos pela frente. E, como prescreve a canção, essas estradas normalmente são "sinuosas", perigosas, cheias de desafios e mesmo podem ter precipícios bem ao lado, de forma que se não cuidarmos em seguir de maneira segura pelo caminho certo, poderemos cair desfiladeiro abaixo a qualquer momento e, então, tudo estará acabado

Além disso, ele diz que essa "longa e sinuosa estrada" que leva até essa "porta" (que pertence a alguém, embora não identificado na letra) jamais desaparecerá - ou seja, partindo-se do lirismo do autor, estamos falando de um tipo de "Caminho Eterno", que sempre estará ali, pronto para ser trilhado, embora a maior parte de nós fuja a todo custo de perigos, riscos, do senso da perda de controle ou de qualquer condição em que só nos resta a vulnerabilidade. No fim do trecho transcrito, o poeta afirma já "ter visto esta estrada antes" - o que pode significar que, um dia, esse Caminho Eterno foi percorrido mas, agora, só restam lembranças vagas e imprecisas. A esse respeito, me lembro do relato bíblico no qual o homem estava no Éden (que significa "prazer"), sem qualquer privação quanto à proximidade com Deus, que é Eterno, a ponto de que todos os dias ambos se encontravam e desfrutavam daquele estado de comunhão absoluta. Porém, o homem abandonou o "Caminho Eterno" e quis seguir seus "atalhos", cuja consequência imediata foi a perda da amizade com o seu Criador, a contaminação radical de sua natureza e coração [decorrente de seu pecado] e, por último, o afastamento ou banimento da presença de Deus. O "Eterno", então, se tornou uma centelha na alma do homem que o impulsiona para onde ele precisa retornar, porém, pelo fato de que preferimos fugir Dele a todo custo ou fazer de tudo para nos convencermos de que Ele não existe, outros caminhos são trilhados todos os dias, "caminhos que ao homem parecem direitos, mas o seu fim são caminhos de morte" [Livro de Provérbios, cap. 14, vs. 12]. 


Outra estrofe da canção, em outro momento, diz:

The wild and windy night
That the rain washed away
Has left a pool of tears...
Why leave me standing here
Let me know the way..."

Ou:

"A noite selvagem e tempestuosa
Que a chuva lavou
Deixou uma piscina de lágrimas...
Por que me deixar aqui sozinho?
Deixe-me saber o caminho..."

Caminhar em meio às trevas e à tempestade. 


Nesse trecho da música, o escritor fala de uma "noite tempestuosa e selvagem" na qual ele estava e que, como legado, "deixou uma piscina de lágrimas" e o levou à solidão - isto é, ele se vê numa condição tão adversa aos seus olhos que chora solitário, até que ele suplica para que ele não fosse abandonado e "reconduzido ao caminho". Sendo mais prático, acredito que esse momento atual é aquele no qual a sociedade está mais transtornada, confusa, perdida, desconstruindo sua própria identidade pela ilusão de "revolucionar as coisas existentes" ou na busca de um "novo paradigma" - no entanto, ela quer parecer que está segura, estável, em constante processo de evolução para um "admirável mundo novo". Entretanto, certamente, os mais "seguros de si" sabem que muitas vezes o que eles vêem ao seu redor é só "selva, tempestade, lágrimas e solidão" e, diante disso, eles também sabem que são totalmente impotentes em si mesmos para se livrarem dessa condição. Todavia, diferentemente do letrista da canção que "suplicou para que não fosse deixado só e para que ele soubesse o caminho", permanecemos tentando convencer a nós mesmos de que, no fim das contas, todos os "caminhos" terminam no mesmo "final feliz" ou, por outro lado, que essa coisa de "caminho certo" não existe. No tocante a isso, a Bíblia contém em suas páginas um diagnóstico diferente:

Diz o tolo em seu coração: não há Deus. Corromperam-se e cometeram injustiças detestáveis; não há ninguém que faça o bem.
O Senhor olhou desde os céus para os filhos dos homens para ver se há alguém que tenha entendimento, alguém que busque a Deus. 
Todos se desviaram, e igualmente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não há sequer um. [Salmo 53, vs. 1-3]


Não é preciso ler duas vezes para entender o texto acima: quem nega que Deus é real é tolo, não tem bom senso, é insensato e, como resultado dessa insensatez e tolice, suas ações são detestáveis e injustas. Diante desse quadro, o olhar de Deus vem até nós a fim de contemplar se há alguém sensato ou que O busque e, sem rodeios, o que se vê é que todos nós nos "desviamos do caminho" e juntamente nos fizemos imundos - isto é, a culpa e responsabilidade da sujeira, maldade, corrupção e de toda injustiça e perversidade do mundo é MINHA, é SUA e não de Deus, de forma que o veredicto divino a nosso respeito é: "não existe nenhum justo, nem um sequer" ou, em outras palavras, conforme o padrão de Deus, que é puro, reto, justo e santo, todos nós somos absolutamente desprezíveis, descartáveis e inúteis, especialmente em relação a Ele. 

Portanto, partindo-se do fato de que "Deus é puro quando julga e justo quando profere seu veredicto", não estamos evoluindo e nem estamos construindo um "admirável mundo novo" - em vez disso, estamos nos destruindo a nós mesmos e aumentando a medida da nossa culpa diante de Deus, pois "Ele não tem o culpado por inocente" e, um dia, "julgará o mundo com justiça". O que nos resta é reconhecer nossa impotência para sairmos dos nossos caminhos injustos e simplesmente pedir para que Ele, que é Eterno, nos coloque de volta no caminho que abandonamos, como está escrito: "...vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno" [Salmo 139, vs. 24]


Finalmente, os últimos versos da canção que me chamam a atenção são:

"Don't keep me waiting me here
Lead me to your door..."

Ou:

"Não me deixe esperando aqui
Leve-me até a sua porta..."

Ir até a porta.

No final da canção, o autor insiste no pedido que fez desde o início da letra: "leve-me até a sua porta". Ou seja, se esse desejo de ir até essa tal "porta" permaneceu durante toda a história da canção, supõe-se que achar essa "porta" seja o objetivo final de percorrer a "sinuosa e longa estrada". Nesse caso, sempre me lembro da declaração bíblica na qual se lê que "...não está nas mãos do homem o seu futuro, nem compete ao homem dirigir os seus passos..." [Livro de Jeremias, cap. 10, vs. 23] - de forma que é Deus quem controla ou guia cada passo que dou, mesmo que eu supostamente não acredite Nele - e das célebres palavras de Jesus Cristo a respeito de Si mesmo:

Em verdade lhes digo que Eu Sou a porta das ovelhas.
Eu sou a Porta; se alguém entrar por mim, será salvo, e entrará, e sairá, e achará pastagens. [Evangelho de João, cap. 10, vs. 7 e 9]

A "porta" que todo ser humano, em meio aos caminhos misteriosos, longos e sinuosos da vida, precisa encontrar, é Cristo - pois Ele diz que quem entra por Ele será salvo, implicando que qualquer outra "porta" não conduz a um lugar de salvação, segurança e refúgio. Além disso, assim como na canção o poeta pediu para que alguém o conduzisse até aquela determinada "porta", assim só poderemos encontrar a Cristo, a Porta, se alguém nos conduzir até Ele, pois está escrito que "ninguém pode vir a Cristo se o Pai, que O enviou, não o trouxer" [Ev. de João, cap. 6, vs. 44] e novamente que "...ninguém pode vir a Cristo, se pelo Pai não lhe for concedido..." [Ev. de João, cap. 6, vs. 65] - isto é, ninguém pode "encontrar a porta" por si mesmo, a não ser que Deus nos leve até ela e, quando Ele nos conduz até Jesus Cristo, a Porta, podemos entrar no Seu aprisco, o aprisco do "Bom Pastor", sendo conduzidos como ovelhas que agora voltaram ao lugar ao qual elas de fato pertencem.


Caro leitor, se você ainda permanece ignorando a Cristo, você está "fora do aprisco" - em outros termos, você "...anda como uma ovelha desgarrada, seguindo seu próprio caminho..." e, por isso, não está trilhando o "Caminho Eterno" ou, como a canção cita, "a estrada que jamais desaparecerá...", de modo que seus caminhos são, de fato, caminhos de morte. Ora, este é o momento em que você pode pedir a Deus para te levar até a "Porta de Salvação", ou seja, até o Seu Filho, o Bom Pastor, O Qual deu a Sua vida pelas ovelhas, a fim de agregar todas a Si mesmo, para levá-las aos "pastos verdejantes e a águas tranquilas" e para "nos refrigerar a alma e nos guiar pelos caminhos da justiça, por amor do Seu nome"

Enfim, caso você dê ouvidos a esse texto e considere suas breves palavras, saiba que "bondade e misericórdia sempre perseguirão" a todos aqueles que forem trazidos à Porta de Deus, pelo próprio Deus, a fim de que não haja mais perigos, sinuosidades e nenhum mal, mas apenas a eterna alegria de estar com Aquele que nos amou primeiro com amor eterno





Pela alegria de caminhar seguro nas mãos Dele, 




Soli Deo Gloria!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Onde se esconde a sobriedade?

Maio de 2015.

E, nesse dia 14, espero que esse seja um post diferente. 

Maio é um mês importante para mim, especificamente, visto que fiz aniversário há alguns dias e, sempre quando passo por essa data, lembro que completei mais um ano de vida, embora por outro lado esteja ficando mais perto da morte - ora, nossa vida na terra tem um tempo determinado e, a cada dia que vivemos, estamos [de certo modo] mais próximos do fim de nossa "vida breve"

Mas não é sobre isso que esse post irá tratar. Vamos em frente, que o tempo passa depressa. 


O título deste texto se inspirou num pequeno verso de uma canção chamada "Autêntico", de autoria de um amigo poeta chamado Álvaro Jr. [a qual dá nome ao respectivo álbum]. Nessa canção, o autor faz diversos questionamentos interessantes sobre a verdade, a vida e principalmente no que se refere à relação do homem com Deus - alguns dos quais já inspiraram textos neste blog, como nas séries "Por que as verdades tem autonomias?" e "Por que as mentiras tem teologias?". Nesse texto, porém, a pergunta que me saltou violentamente à mente foi "Onde é que se esconde a sobriedade?". Espero ter êxito ao buscar descobrir a resposta para tal bem como influenciar os leitores desse texto a buscarem essa "sobriedade perdida", começando por mim mesmo.

Sobriedade.

Sobriedade, segundo o site www.lexico.pt, indica "característica de sóbrio", "comedimento, temperança", "seriedade", "humildade ou modéstia" ou ainda "singeleza ou simplicidade". Na prática, a sobriedade é algo que está diretamente ligado com equilíbrio, sensatez ou uma espécie de "auto-vigilância" e, em contrapartida, o exemplo mais comum de "desvio de sobriedade" pode ser visto em alguém que está alcoolizado, visto que o entorpecimento causado pelo abuso da bebida ingerida (seja cerveja, vodka, vinho ou outra qualquer) pode implicar perda dos sentidos, falta de domínio sobre os movimentos do corpo, falta de controle emocional e sobre as atitudes naturais ou, em casos mais graves para a saúde, o que chamamos de "coma alcoólico" ou a overdose propriamente dita. Em suma, o bêbado é também chamado de "ébrio", o que seria um antônimo de "sóbrio". 


No entanto, não existe "desvio de sobriedade" apenas quando o assunto é bebida alcoólica, pois existem outros tipos de entorpecentes ou "narcóticos" [como a cocaína, o crack, o ecstasy, a heroína etc.], os quais normalmente são ainda mais danosos à saúde física e emocional de quem usufrui [se é que isso possa ser chamado de usufruto] deles, bem como de quem cerca essas pessoas. 

Todavia, não é desse tipo de entorpecimento e de desvio de sobriedade que quero tratar neste post. O assunto aqui é o entorpecimento do coração, da alma, da mente.

Na verdade, os entorpecentes mais nocivos são aqueles que contaminam e subjugam o nosso coração, alma e mente, os quais, curiosamente, são tratados com maior naturalidade do que os anteriormente citados ou até mesmo são considerados "virtuosos" aos nossos olhos, quando deveriam ser alvo de nossa indignação e luta a fim de que não sejam mais parte de nós. E, nesse sentido, nada pode ser mais mortal do que o entorpecente chamado "amor a si mesmo", "ensimesmamento" ou, num termo mais simples, "egoísmo ou egocentrismo". De fato, nós somos "viciados em nós mesmos", como dizia o teólogo alemão Martin Luder: "...por causa de sua natureza caída e atingida radicalmente pelo pecado original, o homem é tão encurvado sobre si de forma que não consegue perceber que ele busca todas as coisas, incluindo o próprio Deus, pensando em si mesmo...". Ou ainda, nas palavras adaptadas do teólogo norte-americano Jonathan Edwards: "...até quando temos sentimentos aparentemente bons, como a gratidão a Deus, podemos cometer pecado, pois essa gratidão só é digna quando se baseia em ser grato a Deus pelo que Deus é em Si mesmo, e não por causa de algum benefício que Ele nos concede...". Esse é um post feito para que todos nós deixemos de confiar em nós mesmos, para que renunciemos toda crença de que em nós há alguma excelência intrínseca, pois "somente Deus é bom, de forma que só podemos expressar bondade quando Deus compartilha conosco Suas virtudes". 

Em termos mais práticos, somos repletos de autopiedade quando nos revoltamos com os outros e com as circunstâncias quando algo nos desagrada, buscamos nos relacionar com as pessoas tendo em vista "o que podemos ganhar com isso" e, o que ainda é mais detestável, quando pensamos na bondade de Deus [incluindo a própria morte de Jesus para salvação dos pecadores] e acreditamos que isso mostra o quanto somos "valiosos em nós mesmos" e não o quanto somos vis, uma vez que "Cristo morreu por pecadores, o Justo morreu pelos injustos, Deus nos reconciliou com Ele quando ainda éramos Seus inimigos" - é isso mesmo, você não é "mais raro que o ouro puro de Ofir", você não é precioso [nem mesmo o Um Anel é precioso, embora o Sméagol assim o chame]; nenhum de nós é nada. Partindo-se do fato de que a Bíblia é a verdade divina para a humanidade, ela diz que "foi do agrado de Deus que TODA plenitude habitasse em Cristo" e que "Cristo é tudo em todos", de maneira que tudo fora Dele é nada, é vazio, oco, vão, inútil e descartável e que só é possível "ser" alguma coisa quando "se é" Nele. Está na hora de sermos sóbrios e deixar de nos iludir com nós mesmos. 


Entretanto, algo em particular tem me deixado inquieto nos últimos dias e que, no fim das contas, me moveu a escrever esse texto. Como alguém que vive em um contexto religioso cristão, tenho observado as diversas nuances relativas à cristandade, no meu país e fora dele - dentre as quais posso destacar o dito "evangelho pós-moderno" [cheio de sincretismos, com foco na realização pessoal do homem, com um conteúdo raso e diluído e que, por isso, nem deve ser chamado de evangelho] e um movimento "neo-ortodoxo", primordialmente de influência reformada ou "calvinista", por assim dizer. Eu, pessoalmente, amo e apoio a cosmovisão cristã decorrente do pensamento reformado, posteriormente ampliada pelos puritanos e, mais recentemente, pelos "neocalvinistas", contudo o que muitas vezes tenho visto ao me enxergar no espelho assim como ao observar alguns daqueles que estão "do mesmo lado" é um poço de prepotência, arrogância, zombaria inútil e ausência de bons frutos, os quais estão, no máximo, nos lábios ou no cérebro através de trechos de "livros reformados" que foram lidos, e somente lidos. Ora, os demônios sabem que Deus é único e verdadeiro e temem; por que cargas d'água, então, lidamos com Ele de maneira tão carnal e superficial, como se fôssemos iguais àqueles que não têm mais esperança de redenção?

Em outras palavras, se julgamos ter uma perspectiva de Deus e da vida que seja em si mesma a mais próxima da "verdade divina" [no sentido de que, quanto às coisas de Deus, só é possível se conhecer em parte], o quanto isso tem nos levado a sangrar nossos joelhos diante Dele em oração pelo prazer de estarmos com Ele bem como a amar aquilo que Deus ama - e, como resultado, à obediência a Ele? Essa é uma declaração de auto-confronto, pois eu sei que eu amo a Deus muito pouco [e isso deve me fazer ter vergonha de mim mesmo], que eu não priorizo a Ele da maneira que Ele é digno de minha prioridade, eu sei que eu sou mais miserável do que eu ou qualquer outro pense e reconheça e que esse post não é um ato nobre de minha parte, como se o fato de eu escrever essas coisas aqui mostrasse "o quanto que sou humilde" - eu realmente não posso ser hipócrita e demagogo a esse ponto. 


Resumidamente e sem filtro, está na hora de deixarmos a "zoeira de whatsapp e de facebook" juntamente com seus memes e conversas que destilam desprezo por aqueles que também são nossos irmãos [caso todos nós estejamos em Cristo] e irmos até Deus com vergonha de nossa própria mediocridade, confessando que estamos "entorpecidos" pelos conhecimentos que temos adquirido mas que estão inertes em nossa conduta, ou seja, está na hora de "reencontrarmos a sobriedade", sobriedade que temos escondido com nossa própria vaidade disfarçada de piedade e zelo por Deus. Deus não se convence com nossa religiosidade, com nosso conhecimento teológico nem com nada que possamos oferecer a Ele - Deus só se agrada daquilo que vem Dele mesmo, pois está escrito que Ele nos fez "agradáveis a Si mesmo no Amado", isto é, Deus é quem nos torna prazerosos a Si mesmo e Ele faz isso em Si mesmo, pois o Amado, que é Cristo, é a Sua própria imagem. Vamos desistir dessa idéia idiota de zombar dos outros por causa de "teologias" - ou parafraseando o que Paulo escreveu na carta aos Romanos: "não destrua por causa da teologia aquele por quem Cristo morreu" -, especialmente se somos desses "neoreformadinhos de internet" e que achamos que estamos acima do bem e do mal bem como dos adeptos de "Missão Integral" ou daquele "cristão pentecostal". Nesse contexto, se fazem pertinentes os versos da canção "Oração" dos irmãos André e Tiago Arrais, que diz: 

"E pela fé caminho até avistar o Autor da minha fé
E o que eu posso oferecer para honrar quem Ele é?" 

Ou, ainda, o trecho da canção "Cartão-postal", de Lorena Chaves e Marcos Almeida:

"Quem tem o dom de subverter o mal com a Verdade
Sabe também que não pode confiar na própria vontade..."

Ou, finalmente, nas palavras de Santo Agostinho: "O homem deveria ter vergonha de ser orgulhoso, visto que Deus foi humilhado por amor a ele". 


Finalmente, não poderia deixar de citar que as Escrituras apontam o amor como "o caminho sobremodo excelente", de tal sorte que as virtudes mais admiráveis são consideradas como nada ou totalmente desprezíveis na ausência de amor, chegando a dizer que "se conhecermos todos os mistérios e toda a ciência" [como, por exemplo, o mestre da Lei Nicodemos citado no cap. 3 do evangelho de João] e não tivermos amor, de nada valerá - nessa história, Jesus põe em xeque toda a suposta intelectualidade daquele "rabino", mostrando que o que importava mesmo era nascer de Deus, ser regenerado por Deus. Além disso, as Escrituras dizem que "se entregássemos toda a nossa fortuna para os pobres e déssemos o corpo para ser queimado" sem amor [como era a vida do fariseu orgulhoso da parábola do cap. 18 do evangelho de Lucas], tudo seria inútil. Ou seja, é possível fazer uma "boa ação exterior" - até mesmo um auto-sacrifício - sem a motivação do amor ou buscando honra e reconhecimento, de forma que Deus automaticamente desprezará tal ato e aquele que o fez, e fará isso de modo implacável. 

Onde se escondeu a sobriedade dos que deveriam ser sóbrios? 
Por que estamos tão ensimesmados, tão voltado para nosso ego ou, fazendo um neologismo, tão "umbigocêntricos"? 


Deus é claro em afirmar, pelas Escrituras, que "não dará a Sua glória a outrem" [livro de Isaías, cap. 48, vs. 11], isto é, Ele é digno de tudo e tudo o que não é Deus não é digno de coisa alguma. Enfim, a sobriedade de que todos nós precisamos [sejam aqueles que ainda não se voltaram para Deus com o coração arrependido por causa dos próprios pecados a fim de olharem para Jesus Cristo para serem salvos, sejam os que dizem seguir o Mestre mas ainda estão voltados demais para si mesmos] é aquela que nos faz temperantes, equilibrados, moderados em tudo - ora, temperança é fruto do Espírito de Deus - de forma que esse equilíbrio se dá pela supremacia de Deus em todas as coisas, a fim de que somente Ele seja visto e glorificado, como disse Jesus: "assim resplandeça a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as boas obras de vocês, e glorifiquem ao Pai que está nos céus". Que diminuamos a fim de que Ele cresça. 





Pela certeza de que tenho o que me falta Nele,




Soli Deo Gloria!